por Emilio Fraia
Trip #242

’Tinta, suor e suco gástrico conta’ conta a trajetória de Marcatti, ícone do quadrinho underground brasileiro e autor das célebres capas de discos da banda ’Ratos de porão’

Em tempos de Feira Plana e autopublicação a mil, conhecer a trajetória de Francisco Marcatti pode ser inspirador. Escrita pelo jornalista Pedro de Luna, a biografia Tinta, suor e suco gástrico, lançada pela Marsupial Editora, esmiúça detalhes da vida e obra do quadrinista paulistano, um dos símbolos do nanquim udigrúdi do país.

“Conheci o trabalho do Marcatti na mesma onda que revelou Laerte, Glauco e Angeli. Além das histórias e do traço inconfundíveis, fiquei encantado com sua forma de lançar e vender revistas de maneira independente”, diz Luna. “Acho que esse foi seu principal legado. Mesmo tendo publicado por uma ou outra editora, ele ficou conhecido como um quadrinista que desenha, imprime e vende por conta própria.”

Em 1977, ano do levante punk, Marcatti era um adolescente de 15 anos. Ninguém sai ileso disso, claro. Embora fosse fã de blues, a efervescência do punk (e seus fanzines) o cativou. Ao longo dos anos 80, o quadrinista criou uma série de publicações alternativas cujos nomes ecoavam o movimento: Lôdo, Refugo, Tralha, Pântano e Mijo eram algumas delas. “Ele era para mim uma espécie de Crumb, de Gilbert Shelton”, comenta Luna.

Sempre ligado a temas escatológicos, foi em 1989 que o trabalho de Marcatti ganhou maior projeção, quando um de seus personagens (magrinhos, sórdidos e narigudos) estamparam a capa de Brasil, quarto disco da banda Ratos de Porão. Começava aí uma parceria duradoura. São de Marcatti as capas de Anarkophobia e No Money no english, além de uma revista em quadrinhos inspirada em João Gordo e cia.

Para Marcatti, o seu desenho tem todas as características do desenho infantil: traço grosso, olho grande, muita expressão de rosto, mãozinha redonda. “Só que é peludo e sujo”, ri.

Paralelo ao trabalho de quadrinista, corre o de produtor gráfico. Luna conta que Marcatti não enveredou para as tiras de jornal, como outros de sua geração, mas especializou-se como poucos nas artes gráficas. Em seu coração, diligentemente talhado numa off set, além de impressoras, há espaço para cineastas como Alfred Hitchcock e personagens como Mortadelo e Salaminho (criações do espanhol Francisco Ibañez).

Hoje, aos 53 anos, Marcatti trabalha numa empreitada épica: a adaptação para os quadrinhos dos cinco volumes de Os miseráveis, clássico de Victor Hugo. “Acho que serão mais de 700 páginas”, calcula. Uma coisa é certa: seja em São Paulo ou na Paris do século 19, Marcatti segue chafurdando no esgoto do real para trazer à luz suas criaturas sujas e marginais, um tipo de escória que só encontra forma nas suas HQs.

Vai lá! Tinta, suor e suco gástrico, de Pedro de Luna, 80 págs., Marsupial Editora


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