André Caramuru: ”O mundo continuará dividido entre políticos que pensam em minutos e loucos que sonham com eternidades”

Guimarães Rosa uma vez afirmou: "Sou escritor e penso em eternidades. O político pensa apenas em minutos". Não era mesmo muito lisonjeira a opinião que o autor de Grande Sertão tinha a respeito dos políticos. Durante a Segunda Guerra, quando era cônsul adjunto em Hamburgo, ignorou os políticos do Brasil e da Alemanha e correu grandes riscos, junto com a mulher, para salvar a vida de muitos judeus, tirando-os daquele país. Quanto a nós, daqui a dez anos, acho que estaremos vivendo num mundo que terá sido consequência de gente que planejou sempre, a cada dia, o próximo minuto.

Acho que daqui a dez anos estaremos vivendo como nossos pais. Estaremos carecas, barrigudos e conservadores. Estaremos dez anos mais velhos. Estaremos achando bom que os radares e as câmeras nas ruas controlem não apenas nossos carros, mas todos os nossos atos e nossa documentação pessoal. Diremos que é bom para nossa segurança. Nossos condomínios serão mais seguros, com mais recursos eletrônicos e guardas mais bem armados. Teremos mais TVs em alta definição, em 3-D, em cada cômodo, chuveiro incluído, para não perdermos nada de uma programação que continuará igual à de hoje. Lula será nosso presidente, depois de oito anos de Dilma, e o bolsa família estará distribuindo também as versões de então de iPods e eReaders, porque cultura também é cesta básica. Nossas praias talvez tenham diminuído de tamanho e também estarão meio que contaminadas com esgoto e petróleo que vazará do pré-sal, mas piscinas espetaculares compensarão a perda. A Amazônia estará passando por um crescente e irreversível processo de savanização, o que facilitará nossa vida porque tornará inócua a discussão sobre sua preservação, e os índios tucanos do alto rio Negro estarão pilotando grandes tratores, guiados por GPS, nas infinitas planuras plantadas com soja que alimentarão bilhões de chineses e seus animais.

Número dois

Os radicais judeus e islâmicos estarão mais, digamos, radicais. O Irã, país amigo, estará executando a pedradas os condenados à morte. O Afeganistão não estará em paz, algum Castro ainda estará governando Cuba e investidores chineses terão comprado quase tudo o que existe nos Estados Unidos, incluindo a Casa Branca. A clonagem de nós mesmos, com o download da velha alma num novo corpo, ainda não será possível, mas já estará sendo discutida por religiosos e cientistas. Daqui a dez anos nossa vida estará ainda mais eletrônica e conectada do que hoje. O Twitter terá evoluído e atualizará sozinho nossas ações, sem que tenhamos que digitar nada. Será algo como "o André entrou no banheiro, e pelo tempo que está lá deve ser o número dois". Haverá a possibilidade de nossa vida ser permanentemente filmada e postada online, o que democratizará enormemente o conceito de BBB. Ah, sim, a palavra "privacidade" estará sendo ensinada nos cursos de história.

Seguindo a tendência atual, enfim, daqui a dez anos a vida estará ainda mais provida de gadgets eletrônicos, que facilitarão nosso acesso remoto a entretenimento, cultura e outras pessoas, e de outras pessoas (e governos, e empresas) a nós. Mas as condições ambientais e climáticas terão se deteriorado (a questão não é se, é quanto), e estaremos convivendo com carências crescentes de energia, água potável e alimentos. Os políticos estarão, como sempre, pensando em minutos. E os escritores (e outros loucos) estarão pensando em eternidades.

*André Caramuru Aubert, 48, é historiador e trabalha com tecnologia. Seu e-mail é acaramuru@trip.com.br

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