A partir desta edição, vamos publicar os perfis dos 11 homenageados pelo Prêmio

A partir desta edição, vamos publicar os perfis dos 11 homenageados pelo Prêmio Trip Transformadores de 2014, cuja cerimônia de entrega ocorre em novembro no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo. Desde 2007, o prêmio, agora em sua oitava edição, é entregue a pessoas que dedicam seu tempo e suas melhores habilidades para tornar o mundo um lugar melhor para todos. Gente feliz e realizada com o que faz e que nos inspira a nos doar e buscar mais sentido na vida.

Aseguir, leia as histórias do engenheiro eletricista Augustin Woeltz, criador do Aquecedor Solar de Baixo Custo, que tem potencial para substituir boa parte dos aquecedores residenciais de água no país, e de Marcelo Rocha, o DJ Bola, um dos protagonistas do movimento que tirou o Jardim Ângela, bairro da zona sul paulistana, da lista de lugares mais violentos do mundo.

O Prêmio Trip Transformadores é apoiado por marcas com princípios alinhados à iniciativa e a seus homenageados. Este ano o prêmio é patrocinado pelo Grupo Boticário e O Boticário, uma das empresas pertencente ao grupo e nosso parceiro desde 2008. Copatrocinado pelo Itaú e apoiado por Kero Coco, Suzano Papel e Celulose, Gol Linhas Aéreas Inteligentes, Almap BBDO, Academia de Filmes, Update or Die e Rádio Eldorado FM 107,3.

Augustin Woeltzinventor movido energia solar

Grandes inventores carregam em sua biografia momentos de descoberta, insistência, superação e glória – ou, ao menos, reconhecimento. Grandes homens passam por tudo isso e ainda conseguem dizer que não foi nada de mais, “apenas” um desejo de colocar uma ideia no mundo. Aos 72 anos, o engenheiro eletricista Augustin Woeltz se encaixa nas duas categorias – e surpreende com sua vontade incessante de inventar soluções de baixo custo para ajudar a salvar o planeta. Augustin é o criador do Aquecimento Solar de Baixo Custo, um sistema de aquecimento de água baseado no mote “faça você mesmo”. Qualquer pessoa monta o sistema em casa, basta seguir as instruções da Sociedade do Sol, a organização sem fins lucrativos que dissemina a tecnologia, seja pelo site, seja por workshops dados por voluntários. Com as informações, tubos e forro de PVC, caixa-d’água e resina, monta-se o aquecedor que abastece uma casa onde moram até cinco pessoas. O investimento é de R$ 400. A instalação de um sistema tradicional varia de R$ 2.000 a R$ 6.000.

O resultado imediato é uma redução na conta de luz de até 60%. E a ação individual, multiplicada, ajuda na redução dos custos ambientais causados pelo consumo de eletricidade. Criada em 2001, em São Paulo, a Sociedade do Sol calcula que há um potencial muito grande para disseminar os aquecedores solares pelo Brasil, mas há receio do consumidor. “Poderíamos ter milhões deles instalados, mas as pessoas querem comprar tudo pronto, chamar um encanador. O pessoal tem medo do diferente, e o aquecedor solar é diferente.” A invenção de Augustin tem ainda um desdobramento social, ao capacitar famílias que optam pela solução e tornam-se porta-vozes. “Quem se encanta com a novidade vira um disseminador.”

A trajetória de inventor remonta à infância. Augustin lembra do encanto que sentiu quando ganhou um kit Cometa, da Casa Aerobras, e montou seu primeiro aeromodelo. Ficou tão entusiasmado que, mais tarde, buscou repetir a experiência. Nascido na Alemanha, Augustin chegou ao Brasil aos 4 anos de idade. Formou-se em engenharia elétrica, seguindo os passos do pai. “O primeiro aparelho de alta fidelidade no Brasil foi ele que fez, nos anos 1950, quando o vinil estava chegando. O ato de ele criar me inspirava”, lembra. Quando terminou a faculdade, virou representante de uma empresa americana que fabricava o girocóptero, uma aeronave que voa graças a um motor traseiro em sua hélice. Nos anos 1970, juntou-se aos negócios da família e passou a vender antenas. Já tinha começado a pensar em fazer algo para o mundo, mas não conseguia deixar a vida corporativa. “Quando você está em uma empresa, ganhando bem, consegue sair dela? Não.” Até que foi demitido pelo pai. “Eu era um péssimo vendedor”, admite, falando que se descobriu um excelente pesquisador.

EURECA

A demissão serviu de impulso para a mudança. Tempos depois ele conheceu seu futuro sócio, com quem criou, no fim dos anos 1980, a Sun Power, empresa que comercializava aquecedores solares tradicionais. Augustin começou a ir a reuniões no Sebrae e foi lá que recebeu o desafio: “Inventem algo para apresentar na Eco-92”. Na conferência da ONU sobre meio ambiente, ele apresentou o protótipo do seu aquecedor solar. A recepção não poderia ter sido melhor. A dupla foi convidada para fazer parte do Centro de Inovação e Tecnologia da USP, onde recebeu incentivos para fazer pesquisas. Mais tarde, a sociedade se desfez. A busca por uma tecnologia que funcionasse durou mais de dez anos. “O momento eureca aconteceu quando, após testar mais de dez tecnologias, uma delas encaixou. O aquecedor estava funcionando, a água estava quente”, relembra com um sorriso no rosto.


“Meu sonho é ver o mundo queimando menos petróleo”


Com o produto finalizado, convocou a imprensa. “Não quis correr o risco de roubarem uma coisa que eu queria dar de graça.” Doar faz parte da trajetória de Augustin. Sua herança foi toda para o projeto, que não tem fins lucrativos. A mulher Elsy e os dois filhos o apoiaram. Augustin relembra o espanto que a decisão causou. “Um dia passou um investidor perguntou como a gente estava ganhando dinheiro. Falamos que não estávamos, que estávamos doando a tecnologia. Ele achou um absurdo.”

Augustin tem tanta energia que parece que acabou de começar. Hoje, quer dar a volta ao mundo de barco. Sua meta é desenvolver navios a vela para fazer a carga de produtos. “Meu sonho é ver o mundo queimando menos petróleo.” O engenheiro sabe que o corpo já não funciona 100%, mas não pensa em parar. “O sonho é a minha ‘empurro-terapia’. Quero chegar lá.”

Marcelo Rocha, o BolaDJ que fez da festa uma transformação social

MC Mirim está cansado de ligar a TV e ver tragédia. Canta que nasceu no prejuízo, mas vai dar a volta por cima com seus versos impactantes. O mini-rapper de 9 anos faz sucesso no YouTube, com mais de 5 mil visualizações no seu vídeo postado em abril. Pelos comentários, dá para ver que muita gente gostou: “Tem futuro, da hora!”, “Eu não ia falar palavrão não, mas c****, chapei na molecada”. Pedro Henrique, o MC Mirim, tem quase a mesma idade que o seu pai tinha quando tomou gosto por fazer rimas na base do improviso. Ele é um dos três filhos de Marcelo Rocha, o DJ Bola, um cara de 33 anos que ajudou a transformar a vida de jovens do Jardim Ângela, bairro da zona sul de São Paulo.

A transformação veio com festa. Marcelo, ainda criança, começou a inventar rimas e a participar de concursos de hip-hop como MC (mestre de cerimônias). Foi quando colocou as mãos em um toca-discos, no entanto, que seu futuro foi traçado. “Quando soltei a música e fiz um scratch, a emoção foi inexplicável, as pernas começaram a tremer. A sensação foi mil vezes mais forte do que quando peguei o microfone. A partir daí comecei a ser DJ”, lembra.

Adolescente, juntou amigos e vizinhos para fazer festas de rua. “A gente descolava um caminhão com cobertura de lona, pegava o som emprestado e se articulava na quebrada para ver que grupos iriam tocar.” Na pista faziam sucesso hip-hop nacional e clássicos de Grandmaster Flash e Run DMC. A década era a de 90, quando o Jardim Ângela foi considerado pela ONU a região mais violenta do mundo. “A molecada de 15, 20 anos estava matando com arma de fogo aqui. A gente não queria aquilo”, lembra.

Olhando hoje, Bola percebe que foi pela diversão que a conscientização política começou. “Foi nas festas de rua que a gente fortaleceu a identidade do jovem da quebrada, que estava em busca de gritar, ser conhecido, catar umas menininhas e andar bem-vestido.” Da época em que o Jardim Ângela inspirava medo, ainda mais por quem estava do outro lado da ponte, Bola lembra que perdeu amigos e conhecidos para o tráfico, “para as estatísticas” e para a Igreja evangélica. Ficou marcado por uma tragédia: “Mataram um maluco na nossa festa. Nunca mais vou esquecer disso. A festa lotada e, do nada, a gente escuta um monte de pipoco, foi aquela correria. Em minutos só tinha a gente, o som, o defunto e uma mulher no chão. Ficamos desesperados. Quando fomos ligar o caminhão, a caixa de direção quebrou. Mas conseguimos escapar. A polícia não chegou”, conta.


“Foi nas festas de rua que a gente fortaleceu a identidade do jovem da quebrada”

 

Os amigos passaram um ano sem fazer festa, mas depois voltaram. No começo dos anos 2000, o DJ Bola criou A Banca, produtora musical, cultural e social, que tem como missão promover eventos musicais gratuitos, debates sobre educação e saúde e ações de conscientização política. O mote para a criação foi o hip-hop. “O rap salvou a minha vida. Tive uma identificação forte com a música. A gente se via nas letras dos Racionais, do Conexão Central.” E vai além: “Com o rap fui provocado a procurar conhecimento, a falar de luta, de igualdade racial e social. O rap ajuda a combater as mazelas que a gente sofre”.

“MALOQUEIRO DOIDO”

O começo foi difícil – e até hoje o grupo tenta se estruturar. Se antes batiam nas portas do sacolão, do açougue e do dentista para conseguir patrocínio, agora entendem de lei e edital e procuram viabilizar ações mais encorpadas. Trocar a informalidade pela profissionalização foi um caminho que Bola e seus companheiros Macarrão, Fabiana Ivo, Kapoth, Leandro Malhado e a galera do OBG Promotoria do Gueto e do Rimaístas tomaram após a chegada de pessoas de fora oferecendo ajuda. “Gente que via que nem todo mundo aqui estava se matando com arma de fogo. Como disse o Criolo, as pessoas não são más, elas só estão perdidas”, diz, destacando as atuações do Instituto Sou da Paz e do Fórum de Defesa da Vida.

Foi a aceleradora Artemisia que ajudou a transformar A Banca em um negócio social. “O moleque que teve contato com A Banca vai replicar o conhecimento. Isso pode tirá-lo do tráfico e colocá-lo em uma oficina”, diz. Bola deixou de trabalhar como motoboy e, desde 2007, dedica-se exclusivamente à produtora, que já promoveu mais de 50 eventos gratuitos para 20 mil jovens. “Nas atividades, fica nítido que a molecada está em busca de algo. O lado ruim é perder um moleque para o tráfico, para a pilantragem”, diz ele.

Bola se define como um “maloqueiro doido” que acredita nas pessoas. “Jamais alguém deve dizer à molecada que ela não é capaz, que não pode sonhar. Cheguei aqui por acreditar que há chance para as pessoas.” E dá a receita para quem quer ter o mesmo comprometimento de vida: “Tem que seguir pelo sonho e pelo coração, com estudo, persistência e insistência”.


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