por Anita Pompeu

Homenageado do prêmio Trip Transformadores 2018, Sebastião Oliveira usa o badminton como arma para transformar toda uma comunidade

É aqui, avisa o motorista da van. Alguém pergunta se estamos em um lugar perigoso. Ele diz que sim, mas conta que seu aplicativo no celular, Tiroteio, teria tocado se estivéssemos próximos a uma troca de tiros. O cenário em questão é a comunidade da Chacrinha, em Jacarepaguá, extremo oeste do Rio de Janeiro. É lá onde fica a Associação Miratus de Badminton, uma entidade não governamental e sem fins lucrativos que promove o desenvolvimento social de crianças e jovens por meio da educação e do esporte de origem britânica que se joga com uma raquete e uma espécie de peteca.

Sebastião Oliveira é a criatura criadora, o cérebro e o coração que fez aquilo nascer, crescer e pulsar forte até hoje, 18 anos depois, com mais de 200 crianças e jovens frequentando o espaço diariamente. “Não escolhi o badminton. Foi o badminton que me escolheu, por ser um esporte fácil de se iniciar, divertido e inclusivo: joga criança, adulto, alto, baixo, gordo e magro”, explica.

Na tentativa de otimizar o ensino dos movimentos básicos do esporte, Tião (como é chamado pelos adultos; muitas crianças o chamam de pai) desenvolveu um método próprio de treinamento, o Bamon (a escolha do nome foi absolutamente aleatória). Eis a sacada genial: o que ajuda a garotada a treinar as posições são batidas do samba, em melodias que ele mesmo criou e gravou em estúdio. Ao som de músicas instrumentais, a quadra torna-se palco de um balé, com jovens e crianças a partir dos 3 anos motivados e concentrados em um tipo de dança esportiva. Que cena.

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“Tudo o que economizei na vida eu enterrei aqui dentro.” Além da prática e do fomento ao esporte, ali as crianças têm também apoio pedagógico para o contraturno escolar, com aulas de português, matemática, inglês, contação de histórias, gastronomia e música. Tudo com uma pegada mais lúdica e de graça, para atrair e preencher o tempo livre e ocioso delas.

Modelo de negócio
“Me inspirei no tráfico de drogas para criar a Miratus. Que empresa eficiente! O tráfico oferece capacitação, qualificação e uma seleção ímpar. Enxerga as nossas crianças com 6, 7 anos de idade e dá oportunidades. Já o governo, quando enxerga nossos filhos, entra com a polícia para dar tiro, pra matar.”

Quando tinha 7 anos, Sebastião foi encaminhado para uma unidade da Funabem (abrigo de menores). Ele não era órfão, nem abandonado. Tampouco havia cometido algum crime. Essa foi a alternativa que o patrão de sua mãe, um ministro da Justiça, encontrou para contornar o que seria um problema: ele não queria que o menino fosse morar em sua casa junto de sua mãe, uma das funcionárias da mansão – mesmo havendo no terreno uma casa destinada exclusivamente para empregados. “Esse cara foi importante para mim. Ele me ensinou uma lição que carreguei para o resto da minha vida: o que não devo fazer com as pessoas, que é excluí-las e afastá-las de quem elas amam.”

Sebastião morou nesse abrigo até os 18 anos, convivendo com menores infratores, drogas e todo tipo de malandragem, mas também com um instrutor de quem se aproximou e que lhe serviu de guia, o Isaías. “Ele se preocupou comigo e disse: ‘Aproveite melhor as oportunidades’. Entendi o recado. Trabalhei tanto e com foco, que fui aproveitado para o quadro interno de funcionários da instituição. Fui promovido dois anos depois, e daí surgiu o desejo de ser o mestre Isaías para outros jovens.”

Faculdade da vida
Sebastião nasceu há 53 anos no Espírito Santo. Já morou em Minas Gerais (quando foi transferido de unidade da Funabem), mas vive no Rio desde os 12, época em que sua mãe, já longe da casa do tal ministro, passou a catar lixo no Jardim Gramacho, cenário de extrema miséria e degradação social. “Nessa época, a gente disputava comida do lixo. Até então, eu nunca tinha ido a um supermercado.”

Tião passeia pela sua história de vida com a segurança de quem caminha sobre um terreno firme e familiar. Não se emociona nem chora ao falar do passado, com o qual convive bem. A propriedade com que discorre sobre assuntos como política (implantação das UPPs, intervenção militar, guerra ao tráfico), educação e sociedade impressionam. Sua fala tem vivência, densidade e coerência, o que revela a mente privilegiada pulsando naquela cabeça, que nunca frequentou universidade.

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No caminho a pé até o restaurante para o almoço, num cenário de lixo nas ruas, asfalto precário e casas de concreto aparente, Sebastião esclarece de onde tirou o nome de sua associação: “Tirei de um livro que escrevi, uma ficção”, conta o autor – uma habilidade desconhecida até então –, que assinou outros quatro livros, nenhum deles lançado.

Sentado à mesa, ele lembra o dia em que conheceu sua mulher no ônibus, e de como a conquistou. E também cantarola, com a voz grave, baixa e afinada, uma música de sua autoria que tocava em todas as apresentações de seu grupo de samba e a usava para seduzir as moças da plateia – ele também é músico, cantor e compositor, com disco lançado e tudo. Sebastião é carisma, generosidade, modéstia e altas doses de inteligência. “Não, não sou inteligente. Eu tenho intuição”, desconstrói. Coisa de gênio.

Créditos

Imagem principal: Mario Ladeira

Fotos: Mario Ladeira

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