Carol Ito
Nathalia Zaccaro

por Carol Ito
Nathalia Zaccaro

O Pause Festival levou ao Parque Villa-Lobos as principais ideias do Trip Transformadores 2017, embalado a reggae e meditação

Diminuir o ritmo e organizar as ideias são o princípio para qualquer transformação verdadeira. Com isso em mente, o prêmio Trip Transformadores 2017 propõe uma reflexão sobre o Brasil que queremos ser. Seu segundo evento do ano, o Pause Festival, que rolou no último sábado (28), levou ao Parque Villa-Lobos atrações variadas com um único objetivo: desacelerar.

Às 14h o parque foi invadido pelo som dos instrumentos de sopro e percussão da banda do trompetista Guizado, num cortejo de abertura. Os músicos espalharam curiosidade entre halterofilistas, jogadores de basquete, ciclistas e skatistas das idades mais variadas e marcaram o início das atividades que seriam realizadas naquela tarde de sol a pino.

Sun is shining
Pra começar, uma aula aberta de ioga atraiu ao centro do anfiteatro do parque cerca de 40 pessoas, entre adultos, idosos e crianças. Na arquibancada, muitos se reuniram para ver, relaxar e respirar sob a batuta da instrutora de ashtanga Aline Fernandes. Recém-chegada de volta ao Brasil, Aline, que estudou na Índia e tocou por 15 anos um badalado studio de ioga em Nova York, ensinou durante 50 minutos posturas variadas, como a tradicional série da saudação ao sol; sempre chamando a atenção dos praticantes a uma respiração consciente. No fim, conduziu uma meditação coletiva.

Segundo ela, a prática da ioga é uma alternativa essencial à rotina agitada, que muitas vezes desrespeita a capacidade do nosso corpo. “Sentar, respirar, alongar, caminhar, olhar pra uma árvore, ouvir uma música de que gosta… Esses momentos de pausa são formas de voltar ao ritmo natural, alinhado com a natureza. Mas não adianta esperar depois do trabalho pra isso, é preciso criar espaço, fazer a pausa acontecer. Mais que necessário, é uma questão de sobrevivência.”

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A trilha sonora, ao vivo, ficou por conta do multiinstrumentista norueguês Kjell Sandvik, numa mistura de tambor, flauta e didjeridu, um instrumento xamânico original da Austrália construído por ele próprio a partir da madeira da Embaúba. “Combino música eletrônica a instrumentos ancestrais. É o que chamo de energia musical, que tem potencial de cura”, explicou ele, que mora no Brasil há cinco anos e mantém uma fazenda sustentável na região montanhosa de São Francisco Xavier, interior de São Paulo.

One love, one heart
“É bom a gente começar desacelerando para fazer alguma diferença neste mundo acelerado”, disse a apresentadora do evento, Roberta Martinelli, convidando ao palco a professora de tricô Leninha Egreja e a psicóloga Bel César, mãe do mestre budista Lama Michel. Juntas, elas participaram de uma cerimônia especial: a entrega das dezenas de mantas que elas mesmas tricotaram com a ajuda de voluntárias para os filhos de mulheres africanas refugiadas. Nádia Ferreira, fundadora da ONG Iada África e imigrante de Guiné-Bissau, chegou acompanhada das famílias que receberam os presentes.

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Depois da festa das crianças, a plateia invadiu o centro do anfiteatro para ouvir as palavras de Lama Michel. “Como vamos usar o que há de mais precioso em nossa vida, o tempo?”, perguntou ele, com o intuito de despertar a reflexão que guiaria os rumos da conversa. Aos 14 anos, Lama deixou o Brasil e passou a viver com monges na Índia, onde entendeu a importância de estarmos inteiros no momento presente. “A gente não pensa melhor se fica forçando os pensamentos, temos que acalmar o corpo e a mente para enxergar com clareza nossas decisões”, ensinou. Lama encerrou o papo com uma meditação coletiva que mostrou na prática a força de uma pausa.

Movement of Jah people
Paulo Lima, editor da Trip, deu a letra do que viria a seguir: “Para completar esta tarde, vamos reunir alguns dos talentos mais originais da música brasileira contemporânea e celebrar um cara que defendia a ideia de que o mundo só vai estar legal quando estiver legal para todo mundo: Bob Marley”. A galera pirou e recebeu com imensa alegria o trompetista Guizado, que dirigiu o show. “O reggae proporciona calma e consciência. Cada música caiu como uma luva para o artista convidado: Pitty com uma versão mais roqueira de No more trouble, por exemplo; ou o clima saudosista da Redemption song de Jorge Du Peixe. Foi muito legal pensar esse show”, disse.

Às 4 e 20 da tarde, Dada Yute começou a apresentação que seguiu com Pitty, Tássia Reis, Rico Dalasam, Tulipa Ruiz e Jorge Du Peixe. Todo mundo se reuniu no palco para cantar junto com a plateia o refrão de Exodus. Jorge Du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, apontou a importância do ritmo para o o movimento de desacelerar e refletir: “O reggae tem uma velocidade particular, como se o disco estivesse tocando ao contrário. Hoje, as pessoas gastam tanto tempo com avatares que se esquecem do mundo real. Tá na hora de pensarem no selfie ao invés de tirarem selfie”.

Já o cantor de reggae Dada Yute deu destaque à participação de artistas de diversos gêneros. "Um evento de reggae em que a maioria dos artistas não são desse gênero torna a coisa muito especial. Cada um traz seu style, sua visão de mundo.” Algo que, segundo o cantor, está em sintonia com a grande lição ensinada por Bob Marley: “Ele veio pra desacelerar e também acelerar as coisas que realmente importam na vida, como fazer o bem e ajudar quem precisa”.

Depois do show, a galera se jogou na grama para uma sessão de cinema ao ar livre. No telão, Sob o véu da vida oceânica, do diretor Quico Meirelles, que discute a nossa relação com o tempo, deu seguimento à reflexão do dia. Os curtas-metragens do projeto "Eu Sou Amazônia", produzidos pela O2 Filmes em parceria com o Google Earth, trouxeram para o Villa-Lobos a força da floresta, questionando a nossa conexão com o planeta. E deram o tom do fim de uma tarde de pausa: todo mundo esbanjando sorrisos e pronto pra seguir de volta à rotina.

Créditos

Imagem principal: Samuel Esteves

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