por Rodrigo Vergara

Conheça os 14 homenageados do Prêmio Trip Transformadores de 2011

O Prêmio Trip Transformadores foi criado em 2007 para homenagear um tipo especial de pessoas. Aquele tipo de gente que não espera, faz. Que não pensa só em si, mas enxerga o outro. Que acredita em uma mudança para melhor. Esses são os verdadeiros transformadores. Às vezes a transformação é sutil, como uma ideia nova que cria uma forma nova, mais generosa, de enxergar o mundo. Outras vezes a transformação salta aos olhos, pela evolução causada na vida de muitas pessoas.

Na lista de homenageados deste ano, que você confere nas próximas páginas, há de tudo um pouco. Ao longo das próximas edições e no site do Prêmio, você poderá saber mais sobre esses homens e mulheres especiais, que serão homenageados em uma cerimônia de premiação, no dia 26 de outubro, no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo.

Infelizmente, lá não estarão dois dos nossos homenageados deste ano. O casal de ambientalistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo já fazia parte da lista de finalistas do prêmio quando ambos foram calados por um crime bárbaro, em março.

É justo que recebam nossa homenagem. Veja abaixo os premiados:

Miguel Nicolelis

Cesare La Roca

Ronaldo Fraga

Alcione de Albanesi

Jean Wyllys

Pablo Capilé

Joao Candido Portinari

Flávio Canto

Leonardo Sakamoto

Renato Sérgio De Lima

Maurizélia Da Silva Brito

Nilson Garrido

José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo

O Prêmio Trip Transformadores é apoiado por marcas com princípios alinhados à iniciativa e a seus indicados. Este ano o prêmio é patrocinado por Boticário, nosso parceiro desde 2008, e Itaú, e apoiado por Audi, Grupo Ink, Suzano Papel e Celulose, Instituto Ecofuturo, H2OH!, Timberland e almapp/bbdo. Transportadora oficial: Gol Linhas Aéreas Inteligentes. Rádio oficial: Eldorado brasil 3000

Da cabeça pra fora

O trabalho de Miguel Ângelo Laporta Nicolelis se destaca em dois extremos do desenvolvimento científico. Na Universidade de Duke, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, lidera as mais avançadas pesquisas da neurociência que prometem tratamento para o mal de Parkinson, a esquizofrenia e a recuperação de movimentos para pacientes com lesões severas na medula.

Por essa contribuição, Nicolelis é hoje considerado o cientista mais importante do mundo na neurobiologia e um dos 20 mais influentes para o avanço tecnológico mundial, segundo uma lista elaborada pela revista Scientific American.

O outro extremo de seu trabalho está a milhares de quilômetros ao sul, na cidade de Macaíba, na periferia de Natal, onde fundou e lidera, desde 2005, o Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINL-ELS).

O centro atua em quatro frentes. Com um laboratório de pesquisas de ponta, promete colocar o Brasil na linha de frente da pesquisa em neurociências. Por meio de um programa educacional, dá aulas de reforço em ciência e tecnologia a 1.400 crianças, em uma das cidades com piores índices socioeconômicos do país. O mesmo programa ajuda a desenvolver educadores na área científica. Por fim, o instituto dá suporte a programas de assistência à saúde em uma clínica da região.

Ave, Cesare 

A transformação promovida por Cesare Florio La Rocca pode ser dimensionada em números: 13.700. É a quantidade de crianças e adolescentes, a maioria jovens em situação de rua, que passarou pelo projeto Axé, idealizado, fundado e coordenado por esse italiano de Florença, desde 1990, em Salvador, Bahia. Mas o dado serve apenas como referência, porque a transformação que ele ajudou a gerar perde-se em ondas no horizonte.

Primeiro, porque os números crescem todo dia. Hoje, o Axé assiste a mais de 1.500 crianças e jovens dos 5 aos 21 anos. Além disso, é preciso incluir aí os muitos educadores cujas vidas também foram transformadas para sempre.

Por fim, seria preciso incluir a todos nós, que aprendemos com La Rocca que as crianças não precisam apenas de direitos, mas também de conhecimentos e, mais do que tudo, de desejos.

Aos 73 anos, ex-representante no Brasil do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e um dos redatores do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), La Rocca pode ser considerado o pai da arte-educação, uma metodologia de resgate de crianças em situação de risco que as desperta por meio da estética.

Por baixo dos panos

Desde 1996, quando estreou nas passarelas, o estilista mineiro Ronaldo Fraga, 44 anos, vem revelando o Brasil aos brasileiros. Membro do seleto grupo de estilistas que utiliza as coleções para contar histórias relevantes de nossa cultura, Fraga já trouxe à baila o samba de Noel Rosa, a loucura genial de Arthur Bispo do Rosário, a transposição das águas do rio São Francisco e as circunstâncias suspeitas da morte da estilista Zuzu Angel, crítica da ditadura que faleceu em um acidente de carro. Não precisou muito para ser considerado um dos nomes mais importantes na construção da identidade da moda brasileira. Hoje, seu nome é lembrado sempre que o assunto é o design nacional, e seus trabalhos fazem parte de algumas das principais exposições sobre estética contemporânea, cada vez mais ávida por tradições locais e produtos artesanais que tragam oxigênio para um mundo globalizado e pasteurizado.

Para contar o Brasil, é preciso conhecê-lo. Fraga sonha um dia em empreender uma viagem como a de Mário de Andrade, que na década de 20 realizou viagens etnográficas pelo Norte e pelo Nordeste. Enquanto isso não é possível, contenta-se em desenvolver projetos com grupos e cooperativas de artesãs, das quais encomenda detalhes de suas coleções, como bordados e rendas.

Desde 2008, é um dos designers envolvidos com o projeto Talentos do Brasil, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que pretende resgatar técnicas artesanais quase perdidas. Por meio de oficinas e cursos, os designers ajudam as cooperativas a aplicar suas técnicas em artigos contemporâneos, de maior valor de mercado.

Unidos na vila

Imagine o que significa doar uma casa nova, com mobília e enxoval, a uma família sertaneja que nunca tinha visto uma escova de dentes. Imagine entregar, junto com a casa, a água encanada, o saneamento básico e a rede elétrica. Acrescente a esse sonho uma horta, uma padaria, centros educacionais, posto de saúde. Imaginou? Agora multiplique isso por quatro. É essa a contribuição de Alcione de Albanesi em pleno sertão nordestino: quatro vilas inteiras, que ao todo reúnem mais de 350 casas e beneficiam mais de 60 mil pessoas todo os meses.

É claro que ela não faz tudo isso sozinha. Hoje, a Amigos do Bem, ONG que fundou e preside, contabiliza mais de 5 mil pessoas que trabalham voluntariamente. Mesmo porque, mãe de quatro filhos e presidente da fabricante de lâmpadas FLC, Alcione tem outras incumbências.

Mas a Amigos do Bem é mesmo sua grande paixão. Tudo começou em 1993, quando ela reuniu um grupo de amigos e propôs que naquele ano promovessem um Natal diferente, arrecadando doações para levarem ao semi-árido nordestino. Na data marcada, embarcaram com 1.500 cestas básicas, que foram distribuídas em comunidades miseráveis atingidas pela seca extrema na Paraíba e em Pernambuco. Nascia ali a semente de uma transformação.

A ação social se repetiu da mesma forma durante 12 anos. Mas, a cada visita, os amigos do bem percebiam que era preciso ir além. Bancar o Papai Noel, embora gratificante, era uma gota num deserto. Em 2005, surge a Amigos do Bem, com uma proposta radical: levar a famílias completamente desassistidas toda a infra-estrutura necessária para uma vida digna. O projeto teve início na Serra do em Catimbau, em pleno sertão pernambucano, onde foram erguidas as 62 casas que constituem a primeira vila agrícola da ONG.

As casas de seis cômodos são de alvenaria e contam com infra-estrutura completa: saneamento básico, eletrificação de ruas e estradas, sede administrativa, padaria, farmácia, mercearia, centro educacional, área de lazer, cabeleireiro, consultório médico, odontológico, telefone público, ambulância de plantão, horta comunitária.

A ação não se resume à doação das casas e da infra-estrutura, mas também ao desenvolvimento de atividades econômicas que possam gerar renda àquelas famílias, como o plantio de caju para beneficiamento da castanha. Para isso a ONG fornece sementes e ensina técnicas de plantio aos agricultores.

Dali, a ação se expandiu. Primeiro para a vizinha Inajá, na divisa com Alagoas. Depois, para o Ceará e para Alagoas.

Cabra macho

Nordestino e homossexual, Jean Wyllys de Matos Santos, 37 anos, sabe bem o que é ser vítima de preconceito, mas nunca se escondeu do mundo por conta disso. Ao contrário. Desde a adolescência dedica parte de seu tempo a combater a discriminação e promover o que acredita ser justiça social. Em 2005, quando venceu o reality show Big Brother Brasil, ganhou munição para levar sua temática ao centro do palco político principal: o Congresso Nacional.

Hoje em primeiro mandato como deputado federal, Jean aplica seu discurso articulado, lapidado por anos de trabalho como jornalista, professor universitário e autor de livros, para a construção e a aplicação de um aparato legal de combate ao preconceito. Coordenador da Frente Parlamentar de Cidadania GBLT, ele milita ainda na defesa de minorias religiosas ameaçadas por crenças e sacerdotes intolerantes e no respeito a direitos há muito tempo consagrados na legislação mas muito pouco observados. Pode-se dizer que é o primeiro deputado homossexual a empunhar a bandeira do combate ao preconceito no Brasil.

Cultura nos eixos

Em tempos de ameaça de calote por parte dos Estados Unidos, atentados na Noruega e desemprego brutal na Europa, nem surpreende que o modelo de organização social do século 21 esteja nascendo no Brasil, pelas mãos de um grupo de jovens liderado por um mato-grossense. Organizado em rede de forma totalmente cooperativa, sem hierarquia e sem depender de rádios ou de qualquer coisa que remeta à indústria musical tradicional, o Circuito Fora do Eixo hoje produz em média 13 eventos culturais por dia em 112 cidades de 25 estados brasileiros. Em 2010, foram 5 mil shows. À frente dessa efervescência está o produtor cultural independente Pablo Santiago Capilé, 31 anos, de Cuiabá (MT).

Formado em comunicação, Capilé desde sempre escolheu caminhos alternativos. Na década passada, quando as dívidas ameaçavam o coletivo Cubo Mágico, fundado com amigos para promover eventos culturais, decidiu rolar o débito entre os artistas, criando uma moeda própria, o Cubo Card. O sucesso da iniciativa alimentou sonhos mais ambiciosos, que originaram o Fora do Eixo.

Criado com outros três coletivos de Londrina (PR), Uberlândia (MG) e Rio Branco (AC), esse coletivo dos coletivos constitui hoje uma rede nacional de pessoas envolvidas com a produção cultural: músicos, fotógrafos, técnicos de som e imagem, cenógrafos e tudo quanto é tipo de profissional. Mas a cooperação não é sinônimo de bagunça. O Fora do Eixo possui carta de princípios, regimento interno e organograma, além de uma recém-inaugurada sede em São Paulo, justamente a capital do eixo que o coletivo quer transformar.

Em nome do pai

“A arte é o espelho da pátria. O país que não preserva seus valores culturais jamais verá a imagem da sua própria alma.” É com essa frase do compositor Chopin que João Cândido Portinari, engenheiro e matemático formado na França e pós-graduado pelo Massachusetts Institute Of Technology (MIT), costuma traduzir a importância da iniciativa a que vem se dedicando nos últimos 30 anos, o projeto Portinari. Mais do que reunir a obra completa de seu pai, expoente da arte modernista nacional, João Cândido quer com o projeto permitir ao Brasil enxergar a si mesmo.

Considerado o maior pintor brasileiro contemporâneo, até 1980 não se sabia o paradeiro da maioria das obras de Portinari, nunca havia sido feita exposição retrospectiva e toda a bibliografia a seu respeito estava esgotada. Em viagens pelo Brasil e 20 países, João Cândido reuniu 5.300 pinturas, desenhos e gravuras, além de 25 mil documentos sobre obra, vida e época de Portinari – depoimentos, cartas, fotografias, livros. Em 2004, após organizar esse acervo, lançou em cinco volumes o catálogo Raisonné de Portinari, a maior reunião já feita sobre um artista latino-americano. Para se ter uma idéia de sua importância, foi com um exemplar do Raisonné de Portinari que o então presidente Lula presenteou, em 2007, o secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, na abertura da Assembleia Geral.

Com tiragem de 2 mil exemplares, os volumes não deram conta. Aí entra em cena o acervo digital, que além de tornar toda a obra disponível ao grande público ainda permitirá guardar os registros pelo maior tempo possível.

Joga pro Canto

Filho de uma família com razoável padrão socioeconômico, bonito e carismático, Flavio Canto tinha tudo para ser mais um dos muitos jovens privilegiados que dedicam a vida a si mesmos e ao próprio sucesso. Em vez disso, dedicou a notoriedade conquistada como judoca muitas vezes campeão para alavancar um processo de transformação em comunidades carentes no Rio de Janeiro.

Com outros 14 sócios, fundou, em 2003, o Instituto Reação, que utiliza o esporte como alavanca para promover a cidadania em quatro comunidades.

O carro-chefe da iniciativa são as aulas de judô, muitas delas ministradas pelo próprio Canto, pelas quais se ensina a crianças e adolescentes uma ética baseada em disciplina, humildade, aperfeiçoamento pessoal e respeito pelo outro. Àqueles que demonstram desempenho superior, o instituto oferece a chance de seguir carreira pelo esporte sob a batuta de Geraldo Bernardes, técnico com 20 anos de experiência à frente da seleção brasileira de judô.

Paralelamente à formação esportiva, os jovens recebem aulas de reforço em ciências, matemática, comunicação e artes. Quem se destaca nessas atividades também tem oportunidade de seguir adiante, com um programa de bolsas de estudo.

O abolicionista

À frente da ONG Repórter Brasil, que fundou e hoje coordena, o jornalista e professor universitário Leonardo Moretti Sakamoto, 33 anos, vem se destacando, no Brasil e no exterior, por sua independência jornalística no trato de violações de direitos humanos e da legislação ambiental associado às piores práticas empresariais. Ao denunciar os autores dos crimes, geralmente nos grotões e nas periferias das grandes cidades, a Repórter Brasil vai buscar quem são os clientes que se beneficiam dos delitos, muitas vezes grandes empresas.

Pressionando esses grandes revendedores (que podem ser tanto uma cadeia de supermercados como uma grande rede de departamentos), Sakamoto e seu pessoal conseguem resultados efetivos lá na ponta da cadeia de produção. Com isso acabam com o trabalho escravo em uma plantação de algodão que fornece para um grande fabricante de roupas, por exemplo.

O trabalho das equipes da Repórter Brasil fez com que grandes conglomerados empresariais entendessem que, sim, são corresponsáveis por violações à lei cometidas por seus fornecedores e pelos fornecedores dos seus fornecedores. Referência nacional e internacional no que diz respeito ao trabalho escravo e suas implicações, Sakamoto é hoje representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo e referência internacional no tema.

Muita calma nessa hora

Até o aparecimento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, organização que Renato Sérgio de Lima ajudou a fundar em 2006 e que hoje coordena como secretário-geral, o diálogo entre policiais civis, militares, sociólogos e juristas era feito basicamente por meio de declarações agressivas pelos jornais.

Temas como avaliação de desempenho das polícias, desrespeitos às liberdades civis, corrupção policial ou aperfeiçoamento das práticas policiais eram tratados quase como desacato às autoridades constituídas e desdenhados como ofensas ou piada, não como problemas que afetam a sociedade, o que na realidade são.

Em vez de se somar às fileiras de um dos muitos lados desse ambiente de ânimos acirrados e diálogo de surdos, o fórum optou pela neutralidade. Inaugurou assim um espaço novo, de relacionamento, na área de segurança pública.

Estabelecido o relacionamento entre as partes, aos poucos vai se consolidando um sentimento de que a segurança pública pode melhorar. O caminho a percorrer é longo. Mas hoje, pelo menos, parece que está no rumo certo.

Guarda costa

Filha e neta de funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Maurizélia da Silva Brito, a Zélia, 45 anos, demorou a encontrar sua vocação. Menina endiabrada, aprontou de tudo antes de descobrir que sua paixão era uma ilhota a 26 horas de barco de Natal, no Rio Grande do Norte. Mas bastou uma visita ao paraíso para que a hoje chefe da Reserva Marinha do Atol das Rocas soubesse que era lá seu lugar. Já se vão 15 anos.

De lá para cá, dedica sua vida à preservação desse refúgio, o único do tipo no Atlântico Sul. Tanto esforço pode ser notado a cada turno que cumpre no atol, com a identificação de novas espécies ou por episódios como a época de desova das lagostas, em que as centenas de animais nas lagoas deixam evidente a saúde ambiental do atol. Na pequena ilha, Zélia desdobra-se, com voluntários, para fazer cumprir a proibição de pesca, disciplina que tem sido recompensada: às vezes passam-se meses sem que seja preciso furar as altas ondas a bordo do pequeno bote a motor disponível para afugentar algum barco pesqueiro.

 

Aos 40 dias de ilha sucedem outros 40 em Natal. Hora de costurar, em terra, os relacionamentos que garantem a continuidade dessa preservação. Conhecida de longa data de boa parte dos pescadores, Zélia procura ter sempre gente de confiança em todas as rodas. Ela sabe que, se uma crise apertar, um pescador pode ficar tentado a jogar suas redes no atol. Pelos amigos, pode saber com antecedência do perigo e alertar a guarda costeira.

Gigante do ringue

Entre os mais excluídos da sociedade paulistana, ele é um mito. Reconhecido nos ônibus, nas ruas, catadores de lixo o abraçam e beijam, punguistas o respeitam, desvalidos de todo tipo o reverenciam. Ex-pugilista, ex-feirante, ex-catador de entulho, ex-segurança, Nilson Garrido, 55 anos, vive hoje para o projeto Cora Garrido, uma iniciativa informal que tem como objetivo transmitir valores básicos de cidadania por meio do esporte.

Atualmente, o projeto Cora Garrido se traduz em duas academias de ginástica e de boxe, abertas a qualquer um e que funcionam sob dois viadutos na zona leste de São Paulo. Ali, exercitam-se lado a lado catadores de papel, mendigos, profissionais liberais, estudantes universitários. Dos ringues improvisados, construídos com materiais doados ou comprados com doações, já saíram vários campeões, entre eles o filho de Nilson, Fábio Garrido, hoje lutador profissional. Mas, mais do que campeões, forjaram-se ali muitos profissionais, pais, cidadãos resgatados da rua, do alcoolismo ou das drogas ilegais.

Chora, castanheira

A árvore mais bonita da Amazônia é a castanheira, me disseram José e Maria. Alta e elegante, longilínea, copa volumosa e redonda que se abre como um buquê. A casca tem ranhuras fundas e seu caule é um maciço que se levanta diretamente do chão. Foi ali, no pé da Majestade, um gigantesco exemplar da espécie que de tão imponente tem até nome, que José Cláudio e Maria encontraram o amor. Os dois ambientalistas, que chamavam um ao outro de companheiro e companheira, nutriam uma paixão intensa pela floresta e uma imensa admiração pela castanheira. “A gente vive cercado de floresta”, me disse uma vez Maria, na varanda de sua casa. José Cláudio gostava de ficar ao pé da Majestade, contemplando sua beleza: “Aqui eu venho pensar: como é linda a natureza”.

Os dois passaram a infância na floresta, mas se conheceram em Marabá. Juntos, decidiram reencontrar um espaço para viver do extrativismo, como seus pais. Conseguiram criar o assentamento agroextrativista Praia Alta Piranheira e ajudaram outras famílias a viver da floresta, que defenderam até o fim da vida. Vida que acabou no dia 24 de maio de 2011, quando foram assassinados por dois pistoleiros. Ao mundo, ficou a mensagem de amor e inspiração: “Além da beleza, a castanheira me dá o fruto todo ano”, dizia José Cláudio.

 

Nessa luta em defesa da floresta, José Cláudio e Maria arrumaram poderosos inimigos. Madeireiros locais passaram a serrar as castanheiras, achacando ou aliciando os assentados. No mercado local, cada imensa árvore dessas valia R$ 100 a R$ 200. Como é ilegal comercializar sua madeira, José Cláudio e Maria fizeram denúncias ao Ibama e ao Ministério Público Federal, que realizaram operações para fechar as serrarias e multar os donos. Foram jurados de morte. Em 2008, um relatório de um grupo de defesa dos direitos humanos incluiu José Cláudio em uma lista de ambientalistas da Amazônia ameaçados de morte. Não foi o bastante para evitar o pior.

Mas a violência não beneficiou a ilegalidade. Após a morte do casal, 12 serrarias foram desmontadas em Nova Ipixuna. Suas licenças foram cassadas. Junto a elas estavam os carvoeiros, que destroem a floresta para produzir carvão vegetal, utilizado na produção do ferro-gusa pelas siderúrgicas do Polo Carajás. José Cláudio e Maria denunciavam essa ação ilegal, e o Ibama, em operações, destruía fornos e interceptava caminhões de carvão. Segundo a polícia civil do Pará, no entanto, foi o fazendeiro José Rodrigues Moreira o responsável pelo assassinato do casal. Ele teria comprado ilegalmente dois lotes do assentamento. José e Maria, como sempre fizeram, denunciaram tanto a compra ilegal quanto a violência utilizada para expulsar famílias de suas casas. Moreira, diz a polícia, teria ficado inconformado com a intromissão jurando o casal de morte, que foi consumada, segundo o inquérito, por seu irmão e um comparsa.

O sonho de José e Maria terminou logo após uma ponte, dentro do assentamento, com tiros de escopeta. Deixam como legado para todos nós a visão de um mundo em que o homem aprecie a natureza, viva cercado por ela e admire a castanheira, viva, na floresta, não como uma bela tábua em sua casa.

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