por Anita Pompeu

A promotora de Justiça Gabriela Manssur dedica mais da metade do seu dia à proteção de mulheres

O relógio marca 7h no Parque Ibirapuera. De cabelo preso, legging, camiseta do grupo de corrida e tênis, Gabriela se aproxima da equipe, e impressiona pelo tamanho: P. A imagem que tínhamos dela é que ela era maior. Gabi, como pede para ser chamada, tem ganhado destaque na mídia por sua atuação como promotora de Justiça no Ministério Público do Estado de São Paulo. Só na véspera da entrevista, ela esteve em dois telejornais ao vivo, falando sobre o aniversário da lei Maria da Penha.

De salto de grife, pantacourt de brilho, camisa de seda, unhas postiças, penteado, olhos e boca pintados. A chegada da dra. Gabriela ao fórum impressiona. “Sou fashionista, adoro moda, me informo e acompanho as tendências”, diz, ao mesmo tempo que faz um panorama do seu dia a dia como uma das principais referências do país na defesa da mulher vítima de agressão.

Formada em direito pela PUC-SP e membro de uma família de advogados, Maria Gabriela Manssur tem dedicado boa parte da sua vida – cerca de 16 horas diárias – ao trabalho. Com didatismo e precisão, ela explica como é lidar com histórias tão cruéis e de uma realidade tão distante da dela... “Não é distante da minha. Não é!”, interrompe, séria. E continua: “Me emociono, mas não posso deixar que isso atrapalhe a minha atuação, porque lá eu tenho que atuar como promotora, a mais humana, mas também a mais técnica e competente possível. Por isso que eu gosto de atuar não só olhando o papel. Gosto de ter contato com aquela mulher, de entender, de ouvir, de receber na Promotoria, de ir nas audiências, de olhar no olho da vítima, do réu”, diz, antes de ser chamada para a primeira audiência da tarde.

 “Quando essa entrevista for publicada, já terei debutado.” Em 15 anos de carreira, Gabriela criou projetos que possibilitaram maior efetividade e alcance da Lei Maria da Penha. Suas iniciativas olham para o problema de modo amplo, como o programa Tem Saída, que visa reinserir a mulher vítima de agressão no mercado de trabalho, dando-lhe autonomia financeira, e o Tempo de Despertar, cujo pioneirismo está no alvo da ação: o homem agressor. Criado em 2014, esse projeto tem como objetivo reintegrar o agressor à sociedade, por meio de um ciclo de encontros em que são discutidos temas como violência doméstica, direito das mulheres, direito de defesa, masculinidades, relações afetivas, ciúmes, álcool e droga.

As reuniões do Tempo de Despertar – oito no total – são comandadas por profissionais multidisciplinares, que contemplam ex-agressores voluntários, assistentes sociais, estagiários de direito e, dependendo da localização, a própria Gabriela.

O empresário e cabeleireiro Bruno Cabral foi um dos homens intimados a participar do projeto. Limpo do crack há três anos, ele comemora o recomeço, longe da cadeia – Bruno passou um mês na prisão, condenado pela Lei Maria da Penha –, com uma nova companheira, uma nova relação com o filho, com os pais e com a vida. “Hoje vejo graça em ter aqueles problemas comuns, do cotidiano. Finalmente tenho uma vida normal, igual à de todo mundo. E isso só foi possível por causa do Tempo de Despertar. Se a internação me curou do vício, a doutora Gabriela curou o meu comportamento. Eu entendi o que é machismo, e o quanto eu era machista”, conta. “Hoje eu beijo o meu pai”, revela.

Bruno é mais um homem que atesta a eficácia do projeto. “Ao final do projeto inicial, somente um dos 27 homens que compareceram às oito reuniões cometeu violência contra a mulher novamente. Isso significa que 26 mulheres não sofreram mais violência. O foco são elas”, explica Gabriela.

 

Mulheres malabaristas

Além dos projetos que criou e encabeça, Gabriela faz parte do Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica do Ministério Público do Estado de São Paulo, é diretora da Mulher da Associação Paulista do Ministério Público, entre outras organizações de que participa, e abastece o seu site pessoal, Justiça de Saia, sobre empoderamento feminino e direitos da mulher.

Sem falar em todos os outros pratos que equilibra ao mesmo tempo: tem casa, marido, filhos (uma moça de 19, e dois meninos, de 10 e 7 anos), família, amigos, interesses pessoais, e uma vida comum, de uma mulher comum. “Essa não é uma realidade distante da minha”, volta a ecoar.

“Sofro muito preconceito pelo meu estilo, pela forma de me vestir, por aparecer na mídia. Isso ainda me abala muito, admito, mas tenho me fortalecido cada vez mais, até porque eu entrego, me garanto no trabalho. As críticas são sempre em relação a mim, e nunca ao meu trabalho ou à minha competência”, admite, séria, entrando no elevador.

O relógio marca 8 da noite. Na saída do fórum, onde só se vê a equipe de segurança, aquela moça pequena, de 1,62, parece gigante.

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