por Mônica Martelli
Tpm #129

Separada há sete meses, Mônica Martelli revê início, meio e fim da comédia do casamento

Os homens casados, na maioria das vezes, querem ser solteiros. Quase toda mulher solteira deseja ser casada. As casadas não querem ser solteiras, porque ter um marido é se sentir superior. Mas, na verdade, a vida de casada é um desafio cotidiano.

O homem casado quase sempre é bem cuidado. Tem uma família que lhe dá o suporte emocional que tanto precisa, uma mulher para administrar a sua casa, mesmo que ela seja, por exemplo, presidente de uma empresa multinacional. É claro que hoje muitos homens ajudam no dia a dia do lar e dos filhos, mas nada se compara com as competências da mulher nas decisões e nas atividades domésticas.

Ela se desdobra. Tem que ser uma ótima dona de casa, cuidar muito do próprio corpo. Ela malha, porque tem que ser gostosa, e faz depilação, virilha cavada – na verdade, cavadíssima, porque esse é o padrão do momento. Também tem que ser bem-sucedida no trabalho, porque a mulher que só fica em casa cuidando do lar não é valorizada. E à noite tem que fazer aquele sexo incrível, com muita criatividade na cama. E ainda não pode se esquecer de “trabalhar a relação”.

Casamento para a mulher é um trabalho enorme. Ter amante, por exemplo, nem pensar! Já imaginou, com todas essas obrigações, ainda ter que administrar tempo pra amante? E o coração acelerado cada vez que o amante passa uma mensagem? Sim, porque a mulher se envolve, cria laços, mesmo que não queira de jeito nenhum.

Quer andar de carro velho, amor?

Será que devo continuar casada? Essa é uma pergunta que você se faz todos os dias da sua vida, principalmente depois do quarto ou quinto ano de casamento. Os primeiros são os anos da paixão. Você vai até pra fila de banco de mão dada só pra ficar junto, um olhando pra cara do outro. Eu já fui pra Tiradentes num Gol 1.0, sem som e sem ar-condicionado, vidro aberto, vento na cara, cinco horas de viagem e achei tudo ótimo, tamanha era a paixão e tantos eram os assuntos que tínhamos para conversar. Tudo é novidade! Tudo é lindo! 
Depois de alguns anos de casada, jamais correria o risco de ficar cinco horas num carro sem som, sem ar e com uma quilometragem enorme de ressentimentos já acumulados. Muito arriscado. Qualquer conversa pode desviar para uma mágoa do passado e, sem som pra dar uma disfarçada nem ar-condicionado num mundo de aquecimento global, é divórcio na certa. E da pior maneira possível, talvez até com um estrangulamento.

Quando a dúvida do casamento me atormentava muito, usava uma estratégia: postava no Facebook uma foto linda do casal. Logo em seguida, começava a receber muitas manifestações do tipo: “Casal lindo!”, “Que família linda!”, “Parabéns!”. Aí eu olhava para aquela foto e começava a pensar exatamente igual aos meus amigos do Face! Que casal cool, dois fofos, como eu sempre sonhei! E comecei a ter inveja daquele casal que eu postei e que era eu mesma! Hoje, quando vejo fotos de casais felizes no Instagram, já desconfio! Sei que existem exceções. É claro que existem. Eu mesma conheço três casais realmente felizes. Três! Apenas três!

 

"Os primeiros são os anos da paixão. Você vai até pra fila de banco de mão dada só pra ficar junto, um olhando pra cara do outro"

 

O casamento, para a mulher, ainda simboliza segurança e respeitabilidade. Separação é sinal de derrota, mesmo sendo uma vitória – a vitória da possibilidade de viver um novo tempo. A morte de uma paixão é desesperadora num mundo que nos vende o amor duradouro e feliz. Estamos vivendo uma época que nos exige romance, paixão e casamento de longo prazo, tudo ao mesmo tempo. Então, no desespero, a gente sai em campo para reerguer a paixão. E aí vale tudo: tarô, mapa astral, reza para os ancestrais, terapia de casal, terapia da respiração, reiki, florais, curso de como ser criativa na cama, sex shops, viagens exóticas. Eu fui fundo na terapia do fogo sagrado. Os profissionais que trabalham com essas terapias alternativas devem estar ricos com tantas pessoas tentando reerguer as suas paixões. É uma verdadeira enfermaria.

Amanhã eu posso achar tudo diferente. Sou essencialmente romântica, acredito no amor e amo estar apaixonada. Talvez seja herança cultural ou um otimismo exagerado. Ou ainda um vírus cor-de-rosa que grudou em mim na adolescência e que faz com que eu fique abobalhada logo no primeiro beijo, pensando em casamento para o resto da vida, com a esperança de formar o quarto casal feliz.

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