por Stephanie Ribeiro

O termo ”tombar” se consagrou no hit de Karol Conka e significa arrasar, brilhar, chamar atenção. Mas, no contexto de desvalorização da negritude, ele coloca orgulho onde tinha vergonha. Lacra

Jovens negras e negros cansados da invisibilidade estética e do repúdio às suas características físicas, vistas como negativas por uma sociedade racista, passaram a ignorar o que o mercado define como padrão e a recriar suas próprias definições de estética. Lacraram. As tranças comuns entre as matriarcas negras ficaram coloridas. Os turbantes que as avós e mães usavam na casa da “patroa” ganharam cores e estampas, e agora saem na balada. O cabelo, que foi um problema na infância, hoje é visto como solução. A geração tombamento é um mix de afirmação da sua ancestralidade com (re)criação de uma possibilidade histórica. Isso a aproxima do contexto afrofuturista – movimento que utiliza a música, as artes e a moda para fazer uma mistura da cultura africana com tecnologia, ciência e futuro. O afro como possibilidade, como futuro, enfim, como algo positivo e orgulhoso.

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Eles criam para si as imagens de referências que lhe foram negligenciadas. E não é só uma questão representatividade, mas sim experimentação, autonomia e reimaginação sobre si mesmo. O resultado? Um contingente de jovens negros, em sua grande maioria de origem periférica, que por meio da estética e da cultura transformam seus corpos – marginalizados e criminalizados por um sistema excludente – em ativismo e política, reafirmando sua negritude. E não é um movimento nacional: a valorização da beleza negra e o tombamento brasileiro influência e interage com vários tombamentos pelo mundo, como com os Fashion Rebels (África do Sul) e os Afropunks (que nos Estados Unidos e países do continente Europeu tem representantes famosos como Jaden e Willow Smith). Negros que de forma não racionalizada criam uma estética mundial bem semelhante.

É um "O Atlântico Negro”, uma estrutura moderna que conecta e possibilita trocas e fluxos de informações. Uma cultura híbrida, uma resposta que assumiu a faceta estética. Como nos aponta Renata Felinto artista plástica, pesquisadora, e professora da Universidade Regional do Cariri: a identidade de um povo se configura por meio de sua estética, e ela nunca é vazia de sentidos. Existir pressupõe criar e recriar esses sentidos a partir da visualidade, da musicalidade, do corporalidade.

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Como reforça a produtora executiva da festa Batekoo, Renata Prado, “é importante a juventude negra ter referências. Alguém que têm sua estética assumida, passa a entender o conceito de negritude. E se entender como negros e negras faz com que possamos nos defender do racismo imposto no dia-a-dia”, diz uma das protagonistas desse cenário do Tombamento brasileiro. Mas Renata pondera que a estética não faz as pessoas serem automaticamente militantes. É, de fato, um processo de abertura e interação entre semelhantes, o que não significa que a pessoa seja ativista de alguma causa. Ela garante: “isso não é um problema”. A festa Batekoo, com preços acessíveis, muito Twerk, com Black music e gente negra “bapho”, vem redefinindo as noites paulistana, carioca e soteropolitana. Nela, vemos o que a televisão, revistas e filmes não mostram. Uma estética política que não implica em uma expressão de militância. 

A Geração Tombamento vem revertendo o padrão de beleza e comportamento também nas redes sociais. A exemplo de Magá Moura, que soma mais de 100 mil seguidores em seu Instagram. Magá é um ícone fashion com suas tranças coloridas, apliques e estilo. Assim como para muitas, ela se descobriu bonita retomando sua identidade: “Comecei a usar esse estilo de trança solta em decorrência da queda que a química ocasionou ao meu cabelo. Me identifiquei muito com elas e me encontrei. Também vi que meu cabelo natural começou a crescer muito e toda vez que eu tirava as tranças me surpreendia com a beleza do meu afro. Detalhe, eu nem sabia como ele era antes desse processo todo.”

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Somos a juventude que viu nossos familiares passarem o cabelo a ferro e que usou química antes mesmo de saber o que gostaríamos da vida. Somos reféns da negação estética, que, aliás, perpassa toda nossa identidade. Ninguém quer que negros saibam que são negros, pois ninguém quer que negros saibam as amarras que os prendem, muito menos o poder de mudança que tem. Como diz Magá Moura: “Eu empodero muitas mulheres. Minhas transformações demonstram minha liberdade e autoconfiança e isso é agente de mudança para outras pessoas”. Isso é lacre. É a possibilidade de dialogar pela estética. Segundo Renata Prado, a busca atual é propagar nossa beleza sem que isso seja doloroso para outras pessoas. Pois sabemos muito bem como a imposição de um padrão único é desumano. Queremos ser inspiração, jamais regra.

Apesar de todo este contexto, vemos alguns grupos entendendo a lacração, o empoderamento estético e os negros-tombamento como um problema, quando na verdade surgem como solução. Quando Magá, que sai em revistas de moda de grande circulação, continua trançando o cabelo com Domênica Black, uma trançadeira negra, fortalece um “mercado negro”. O tombamento é social, é conjunto. E isso é fundamental, já que lá fora há uma sociedade inteira que gasta muito dinheiro com a manutenção do racismo institucional, com genocídio da população negra e com o que podemos chamar de apagamento histórico. E fazer com que os recursos gerados por essa valorização da negritude circulem nas cercanias é imprescindível. Consciência e afroempreendedorismo são a resposta a falta de recursos de um sistema excludente. 

Os Fashions Rebels (Maitele Wawe, Thifhelimbilu Mudau e Sizophila Dlezi) de Pretória na África do Sul, tem em sua principal liderança o jovem Maitele a aplicação de que estamos falando. Maitele explica que sempre foi ensinado a costurar suas roupas, a comprar em feiras livres, fazer trocas e procurar achados em brechós. Se virar sempre fez parte do jogo, mas agora esse estilo, liderado por Maitele, é destaque em importantes revistas de moda internacionais. Chegou a Nova York, lacrou. Essa também é a realidade da cantora Tássia Reis: “Sou apaixonada por brechó de bairro, aprendi com a minha mãe a comprar nesses lugares. Minhas produções sou eu quem assino. Sou formada em Tecnologia em Design de Moda e, sim, fui prouni e tive cotas. A universidade foi algo que fiz por mim e foi consequência de um processo em que acreditei que eu também podia”.

A história do negro é repleta de silenciamento. Nosso passado foi apagado, nossas origens foram usurpadas, nosso presente é marcado pela dor do racismo institucional. E hoje, há muitas formas de sobreviver e subverter esse contexto. A “lacração” é uma delas: “A cor da minha trança, as roupas de brechó ou grife, não importa o que eu use ou faça: nada me protege do racismo. Entretanto, a coragem de enfrentá-lo no meu espelho faz com que eu queira me enfeitar. Quem não passou pelo o que uma mulher negra passou nunca vai entender a importância da autoestima, ou se preferirem, lacração, tombamento. Os looks, os hair babado, as tranças, são só a pontinha do iceberg”, crava Tássia Reis. A Lacração é resistência. É enfim, o aflorar da valorização da estética negra, e, sem dúvida, um "patrimônio imaterial" que já nasce tombado.

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Créditos

Imagem principal: Guido Argel / Deu Zebra - Divulgação

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