por Redação
Tpm #141

Quatro mulheres que já tiveram que lidar – e continuam lidando diariamente – com a crueldade da discriminação por causa da cor da pele contam como combatem o racismo e o que as move

“No colégio, na faculdade, na maioria das redações em que trabalhei, nos prédios onde morei, sempre estive entre as poucas pessoas negras. E continua assim até hoje. Quando me mudei para meu atual endereço, um prédio de classe média na zona oeste de São Paulo, senti como o racismo é latente. Para alugar o apartamento tive que provar que eu realmente ‘merecia’ morar ali. Nem o casal de fiadores impediu um mês de infindáveis idas e vindas a cartórios e muito mais burocracia do que seria normal. Também perdi a conta de quantas vezes ouvi de moradores (e faxineiras): ‘Você trabalha aqui?’. A coisa fica ainda pior quando meu namorado (branco e estrangeiro) vem me visitar. Apenas ele recebe bom- dia, eu pareço invisível. Até quando as pessoas vão achar que negro não pode morar bem, ter carro bom e viver decentemente tanto quanto qualquer branco? Para todos os racistas, meu recado: aceita que é melhor. Isso não vai parar!”

 

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“Que fique claro: odeio racistas. Racismo é crime. Em 2012, ao deixar meu filho, na época com 3 anos, na porta da escola, ouvi um pejorativíssimo ‘pretinho, pretinho’. Era um loirinho, um ano mais velho do que ele. Gelei. Senti a dor que o preconceito causa. Não chorei. Fui firme. Porque, ao mesmo tempo que sangrou, veio a dignidade e o orgulho. Sou mãe de um menino negro com dreads no cabelo. Tive pena do menino que, tão pequeno, já discriminava. Dias antes, o Gabriel tinha me perguntado qual era a sua cor e eu disse: ‘Negro’. Ele insistiu. Eu disse: “Preto”. Ele insistiu mais uma vez. E eu disse: ‘Marrom-clarinho’. Conversamos sobre cor e raça, ficou tudo bem – e dez dias depois acontece aquilo? Tudo foi muito rápido e eu só exigi da escola que eu conhecesse os pais do menino. Foram horas de conversa por telefone, um exercício de atenção para com o outro. Que tenha ficado ali e em mim a importância de prepararmos nossos filhos para um mundo de iguais, onde a única coisa que insisto em destinguir é o caráter. Que o loirinho e o meu pretinho aprendam juntos a construir uma sociedade mais justa.”

 

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“É evidente que o racismo existe no nosso país. Disfarçado e camuflado, mas perfeitamente visível, basta querer enxergar. O combate e a punição dos infratores se impõe. Em 1993, proferi a primeira sentença contra o racismo no Brasil. A autora é uma doméstica que foi acusada por uma rede de supermercados de roubar um sabonete e um frango. Diziam: ‘Isso é coisa de negro que mora no planeta dos macacos’. Ela chamou a polícia, que confirmou que nada havia sido roubado. Julguei a ação procedente. No mesmo dia em que essa sentença foi publicada, fui a um banco em Salvador. Precisei aguardar meu filho, que estava no caixa, e me sentei no sofá. Dois seguranças e um gerente logo vieram ao meu encontro: estavam desconfiados. É assim que nos tratam. Impõe-se a implementação de uma justiça igualitária. É indispensável que o poder público tenha vontade política para incluir o negro nos espaços decisórios brasileiros. Sou favorável a cotas para ingresso de negros na magistratura e também no quinto constitucional. Temos milhões de negros competentes, falta a oportunidade para demonstrar seu potencial.”

 

 

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“Eu e o Julio estamos juntos há 20 anos. E o principal aprendizado desta história de amor ‘inter-racial’ sobra para mim, o lado ‘branco’. Porque antes o racismo era invisível, e eu, como a grande maioria da população brasileira, negava a sua existência. A gente aprende que a pousada na praia tem quarto vago se eu pergunto; se ele vai na frente, está lotada. Que o restaurante está cheio de mesas ‘reservadas’ quando o Julio pergunta, mas que o gerente ‘quebra o galho’ quando me vê chegar. Que o corretor de imóveis não acredita que queiramos ver o apartamento caro em um bairro bom, mas muda de ideia quando conhece a esposa loira do interessado. Que a primeira pergunta que me fazem sobre o Julio, sempre, é se ele é músico ou jogador de futebol (fora a piadinha recorrente: se você é casada com um negro, é porque ‘gosta de negão’). E que, em São Paulo, se saio sozinha à noite, o Julio fica preocupado com assaltos; se é ele quem sai, dirigindo nosso carro, eu fico preocupada com a polícia: preto dirigindo carro bom, se não é famoso, deve ser ladrão.”

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