por Camila Eiroa

Para a atriz, a carreira, que começou quase sem querer, se tornou sinônimo de missão pela representatividade negra na televisão brasileira

A atriz Jéssica Ellen chamou a atenção do público em Totalmente Demais, uma das novelas de maior sucesso na Globo nos últimos anos, recordista no Ibope para a faixa das 19h. Mas ter se tornado um destaque nessa produção é só parte do que a carreira pode proporcionar para a carioca.  Aos 23 anos, ela é uma das protagonistas de Justiça,  minissérie da Globo que vai ao ar no horário nobre em agosto. 

“Quando recebi o convite pra Justiça e vi que a Adriana Esteves e a Drica Moraes estavam no elenco, quase pirei! São mulheres muito maravilhosas e intensas. A gente cria essas projeções sobre os artistas, mas quando conhece de perto, percebe que são gente como a gente”, confessa. Para ela, estar atuando ao lado de quem admira é um grande presente, assim como as amizades que ganha. O casal Taís Araújo e Lázaro Ramos não economiza elogios e conselhos, assim como Camila Pitanga, que Jéssica considera sua conselheira. 

Tudo aconteceu muito rápido em sua carreira. Jéssica começou a atuar na televisão em 2012, em Malhação, depois de um teste despretensioso. Estar no ar em rede nacional não era o que ela esperava para aquele momento. A atriz nasceu e mora na Rocinha até hoje - sua mãe, inclusive, foi uma das primeiras a nascerem ali. “Aqui é a minha essência”, diz. 

Depois de estrear no palco aos 13 anos, em uma montagem de O Santo e a Porca, de Ariano Suassunano, pelo projeto social Revivarte, o insight foi certeiro: “nossa, acho que é isso que quero pra vida!”. Aos 18 prestou o ENEM, quando conseguiu uma bolsa integral através do ProUni para cursar Artes Cênicas. Uma amiga do curso a achava muito bonita e mandou uma foto sua para uma produtora da Globo. Jéssica foi chamada para um teste e aprovada de primeira. Seu currículo já soma alguns trabalhos importantes, como as novelas Geração Brasil, também da Globo, e a série Santo Forte - primeira brasileira do canal AXN.

Se quando criança Jéssica dizia que queria ser restauranteira - dona de restaurante - inspirada pela mãe, hoje a carreira de atriz se tornou sinônimo de missão: ela tem consciência de que representa diversas meninas que antes não se viam na TV. “É possível contar nos dedos quantas atrizes negras estão no ar. Fora que os personagens sempre carregam estereótipos, né?” Ela acredita em uma mudança nesse cenário, mas em passos muito lentos. “A quantidade de atrizes brancas, loiras, magras e bonitas ainda é muito maior”, diz.

Jéssica também apresenta um programa de comportamento e beleza no YouTube, o Canal Top. Por lá, fala sobre maquiagem e truques de beleza. Em seu dia a dia, não usa maquiagem para a pele descansar entre uma gravação e outra, mas sabe se virar quando precisa. Sua característica principal é o black power lindo que ostenta, mas que foi alisado muitas vezes na adolescência. “Infelizmente, toda a menina negra passa por essa não-aceitação, principalmente pelo bullying sofrido na escola.”

Foi aos 16 anos que ela resolveu acabar com as feridas no couro cabeludo, consequência da química do alisamento. Pegou a tesoura, se enfiou no banheiro e cortou toda a parte lisa do cabelo, o que causou susto na mãe e mais algumas piadas infelizes na escola. “Coloquei trança rastafari até crescer um pouco mais. Um ano depois, ganhei uma bolsa pra estudar em Oxford e lá as pessoas achavam meu cabelo incrível! Voltei com outra postura e várias meninas do colégio também pararam de alisar”, lembra.

Créditos

Imagem principal: Leo Farah

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