por Lígia Nogueira
Tpm #110

A cantora que se apresenta em SP e no Rio este mês vive o auge da carreira aos 55 anos

Quando tinha 20 anos, Sharon Jones ouviu de donos de gravadoras que ela tinha uma bela voz, mas não era bonita o suficiente para fazer sucesso. “Diziam que eu era negra demais, gorda demais ou baixa demais. Aos 29, me disseram que estava velha. Mesmo assim, nunca desisti de cantar. Aos 40 anos, vejam só, começaram a falar que eu era incrível. Essa sou eu”, diz a norte-americana em entrevista concedida por telefone. Ela vem se apresentar no Brasil pela primeira vez no BMW Jazz Festival.

À frente da banda The Dap-Kings, Sharon vem rodando o mundo desde 2007, quando lançou o álbum 100 Days, 100 Nights e foi aclamada como uma das responsáveis pela revitalização da soul music. A melodia de sua banda caiu no gosto do grande público com um empurrãozinho de Amy Winehouse. A cantora inglesa foi levada pelo produtor Mark Ronson ao estúdio de Sharon Jones, em Nova York, para gravar seis das 11 canções do CD Back to Black (2006). Mark e Amy não só usaram os equipamentos – todos analógicos – disponíveis ali, como pegaram emprestados os músicos da Dap-Kings. Foi o início de uma história que hoje envolve uma série de novos nomes como Adele, Mayer Hawthorne e Raphael Saadiq.

“A soul music nunca deixou de acontecer”, diz Sharon. “Qualquer pessoa conhece ‘My Girl’ ou ‘I Feel Good’. O que nós fizemos foi continuar a escrever canções. Mas talvez nada disso tivesse acontecido sem a internet”, reconhece. “As pessoas não ouviriam nosso som porque as grandes gravadoras não se interessavam em lançar. Eu não teria recebido convites para cantar com gente como Lou Reed. Imagine, tudo o que conhecia sobre ele era ‘Walk on the Wild Side’”, lembra ela, cantarolando a melodia.

A cantora faria uma turnê com o ex-líder do Velvet Underground em 2007 como backing vocal no álbum Berlin, quando foi chamada pelo ator e diretor Denzel Washington para fazer um pequeno papel em O Grande Debate, indicado ao Globo de Ouro de melhor filme. O longa não foi premiado, mas Sharon teve várias músicas incluídas na trilha sonora. “Tive de optar entre Denzel e Lou Reed! Não imaginava isso há 15 anos”, comemora.

Da igreja aos palcos

Sharon Jones nasceu na Geórgia, EUA, mas começou a cantar em corais de igrejas ainda menina em Nova York. Sua mãe tinha 23 anos e seis filhos quando a família desembarcou na metrópole. Lá, arrumou bicos como vocalista de apoio em bandas de black music, cantou em casamentos, trabalhou como carcereira e segurança de carro-forte. Até sofrer um grave acidente. “Naquela época, Deus fez a escolha por mim. Passei meses no hospital e acabei pedindo demissão”, conta a cantora.

Era 1996. Logo depois, conheceu o dono da gravadora Pure Records e foi escalada para ser backing vocal num disco da banda Soul Providers. Sharon o deixou tão impressionado que ele lhe pediu que gravasse sozinha. Não deu outra: emplacou duas faixas como vocalista principal no álbum do grupo, que mais tarde se tornou o Dap-Kings. A parceria deu origem ao disco Dap-Dippin’ with Sharon Jones and The Dap-Kings (2002), aclamado por colecionadores, e ainda Naturally (2005), 100 Days, 100 Nights (2007) e I Learned the Hard Way (2010). Ela garante que há material suficiente para mais um álbum de inéditas, previsto para sair entre o fim deste ano e o início de 2012.

Aos 55 anos, o que inspira Sharon Jones a continuar? “Me inspiro em mim mesma. Não casei, não tive filhos. Abri mão de muitas coisas para conseguir fazer o que acreditava. Quando olho para trás, percebo que realmente fiz algo importante”, conclui satisfeita.

Vai lá: Sharon Jones no BMW Jazz Festival - Auditório do Ibirapuera, 11/6. R$ 100. São Paulo, SP (ingressos esgotados) – No dia 12/6, ela faz show gratuito na plateia externa às 17h30. Teatro Oi Casa Grande, 14/6. R$ 100. Rio de Janeiro, RJ. O BMW Festival acontece de 10 a 14/6 – www.bmwjazzfestival.com
www.sharonjonesandthedapkings.com

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