Sexo e quarentena

por Bruna Bittencourt

Tpm conversou com a sexóloga Ana Canosa sobre os impactos do coronavírus entre quatro paredes, para casados e solteiros

Aumento da venda de sex toys no mundo, crescimento de divórcios na China, masturbação recomendada pelas autoridades de saúde de Nova York, aumento das visitas ao Pornhub em diversos países – o maior site pornográfico liberou acesso gratuito ao seu serviço premium.

Em tempos de pandemia, não há como nossa sexualidade não ser impactada, seja pelo distanciamento do parceiro/a, seja pela proximidade intensa dele/a. O confinamento já tem duras consequências: a justiça do Rio de Janeiro registrou aumento 50% dos casos de violência doméstica neste período.

Tpm conversou com Ana Canosa, psicóloga, sexóloga e terapeuta de casais para entender os recentes impactos do coronavírus entre quatro paredes e esboçar como será o período pós-confinamento para solteiros e casados. Na pauta, masturbação, falta de privacidade, pornografia e companheirismo. “Talvez esse momento de pandemia seja de discernimento, de separar quem te faz bem e quem não faz”, diz ela.

Tpm. Entre toda o temor provocado pela gravidade da pandemia, é válido que a gente se preocupe com nossa vida sexual?
Ana Canosa. É válido, no sentido de tentar manter essa roda girando, porque a sexualidade faz parte da nossa vida. A masturbação é uma fonte de prazer importante. Já aumentou a venda de sex toys no mundo, o que é um jeito de descarregar a tensão. A ansiedade já era um problema da nossa sociedade, por conta de muita informação, demandas econômicas, políticas... Muitas pessoas lidam com ela com descarga sexual. Ao mesmo tempo que tem um monte de gente vendo vídeo pornográfico, se masturbando mais, por outro, tem muita gente sofrendo com diversas questões. Se você descarrega a tensão se masturbando em um ambiente privado, como faz ao lado da parceiro/a, com quem não tinha contato tão intenso [antes da quarentena]? Conta que tem essa necessidade? Esse parceiro/a vai entender? Porque, agora, o corpo dele/a está ali, presente. Isso fazia parte da intimidade do indivíduo, e o parceiro/a não tinha consciência disso. Como fazem agora pessoas que são dependentes de pornografia, por exemplo, em um contexto em que elas não têm privacidade, porque o parceiro/a está em casa? Eles/as acham que não devem contar e entram em crise de abstinência porque não podem acessar ponografia.

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O que você tem escutado dos seus pacientes nestes primeiros dez dias de confinamento? Há uma queixa ou relato comum? Além dos relatos de abstinência sexual, de gente que não pode mais acessar filmes pornográficos, há também diferenças de ritmo: o cara que acha que a parceira está disponível o tempo inteiro na quarentena, mas ela está trabalhando, dando conta de filho, cansada. Sempre estamos muito cansados, temos muitas atividades, mas também usamos como desculpa para nos engajarmos sexualmente com o parceiro/a. Uma coisa é você ter filhos em casa e uma demanda muito maior, outra coisa é só colocar no trabalho a falta de desejo ou de energia para transar. Também há falta de desejo por outras razões. Tem gente que está muito preocupado com a pandemia, com os familiares e isso interfere no desejo. Mas ouvi relatos de pessoas solteiras com crushes, que vinham em busca de autonomia sexual e, por conta desse distanciamento, começaram a ousar, a falar mais de sexo com os parceiros à distância e se masturbar. Tenho uma paciente que nunca tinha se masturbado, mas, com esse distanciamento, passou a buscar prazer no próprio corpo.

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Há a notícia de aumentos de divórcio na China, que acabou de enfrentar a pandemia. O que você diria para casais neste momento? Há índices de divórcio aumentando porque a convivência passou a ser maior. Agora você vê o quanto seu parceiro/a pode ser companheiro neste projeto comum que é sobrevivência neste período. A convivência está sendo testada: o quanto o outro consegue compreender minha angústia, meu mau humor, minhas necessidades? Quanto mais você se propõe a entender o projeto comum, o casamento e compartilhar as alegrias, melhor você vai fazer sexo, porque entende que está com alguém que vale a pena em um momento de intimidade sexual. Se eu puder dar qualquer conselho, é trabalhe afetivamente junto ao seu parceiro/a para manter esta relação e intimidade em um momento de crise. Dividam tarefas domésticas, se ajudem. E tentem usar o tempo a favor, fazendo coisas gostosas, quentes, que não faziam.

E o que diria para os solteiros? Desenvolva sua habilidade de comunicação nos aplicativos de encontro, aprofunde relações, conheça as pessoas, temos mais tempo para isso. A vulnerabilidade nos deixa mais acessível ao outro. A partir da comunicação, a gente pode conhecer outro lado das pessoas. Pode ser interessante ver quem é aquele crush que apoia sua vulnerabilidade. Explorar a criatividade erótica também pode ser muito legal. Quem já tem um crush pode talvez fazer algumas brincadeiras, sempre lembrando que há também vazamento de nudes, vídeos —  é preciso tomar cuidado.

As autoridades de saúde de Nova York recomendaram a masturbação durante o confinamento, em um guia sobre prática sexual sexual segura, em meio à pandemia. Achei o máximo. Quando isso iria acontecer no Brasil? Isso é orientação, é dizer “sexualidade é bom”, “masturbação é saudável”, “vamos descarregar a tensão”. Se você tem um orgasmo, há toda uma fisiologia que te ajuda, te põe mais focado – o que está bem difícil para quem tem filho e mora em um lugar pequeno. Masturbação é uma possibilidade, lavando as mãos e os brinquedinhos antes e depois.

É possível fazer uma prognóstico ou ao menos imaginar o cenário pós-pandemia no que diz respeito à nossa sexualidade? Percebo que boa parte das pessoas estão mais solidárias, mais preocupadas, afetivamente. De um modo geral, vamos nos abraçar mais, ficar mais juntos. Só não sei quanto tempo isso vai durar porque o ser humano esquece muito rapidamente e, às vezes, precisa de muito sofrimento para aprender determinadas coisas. Quem é solteiro vai sair transando. Mas acho que a pandemia também pode provocar dificuldades para casais que estavam com questões sexuais.

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Mas os problemas de um casal podem ser anteriores ao coronavírus, né? Acho que a pandemia também pode fortalecer as relações amorosas, de você sair disso pensando “que bom que estou com essa pessoa ao meu lado”. Acho que outros também vão dizer: “Achava que essa pessoa com quem estava fosse me apoiar, mas foi muito ruim. Vou cuidar da minha vida de outra maneira”. Talvez esse momento de pandemia seja de discernimento, de separar quem te faz bem e quem não faz.

Em um talk recente na Casa Tpm, você mostrou que estamos transando cada vez menos. Este cenário pode mudar com a pandemia? Tomara que impacte positivamente. Sexo faz bem, é uma dimensão importante da nossa existência. Talvez seja o momento de perceber que tem uma pessoa ao seu lado, que você pode largar o celular e transar com ela. Mas isso também vai exigir um certo esforço porque neste momento as pessoas estão muito ligadas à tecnologia por conta do trabalho. Temos que tentar fazer uma higienização das notícias porque isso promove um humor depressivo — como você transa achando que todo mundo vai morrer? E tentar criar. Sexo é criação, é gostoso, é divertido, faz bem. Por que não?

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Não custa lembrar...
Além das orientações para o isolamento social em meio à pandemia, vale ressaltar que o uso de preservativo protege de infecções sexualmente transmissíveis, e não contra a Covid-19, uma doença transmitida pelo ar, por gotículas eliminadas na tosse ou no espirro, pelo beijo ou contato da pele das mãos, como frisa Ricardo Minkoves, infectologista do Instituto Emílio Ribas e professor de Medicina da Universidade Santo Amaro (Unisa). Mesmo uma relação entre pessoas assintomáticas pode apresentar risco: "Horas depois, alguém pode ter sintomas respiratórios. O risco existe ainda que pacientes assintomáticos com a Covid-19 existam em um menor número, com potencial menor de transmissão".

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