por Nathalia Zaccaro

Paula Sanches, Mariana Furquim e Flora Poppovic comemoram uma década de Samba das Flores, grupo que olha com profundidade, alegria e consciência para o conceito de samba

Em 2020, Mariana Furquim, Paula Sanches e Flora Poppovic vão celebrar dez anos do Samba das Flores. É uma década de um projeto liderado por três mulheres que conquistaram seus espaços em um dos redutos mais machistas da música brasileira: o samba.

Mais do que emprestarem suas vozes para os shows do grupo (que é composto por instrumentistas homens), o trio feminino é que toma as decisões e que desenvolve o conceito do trabalho. Não é um samba só para mulheres, mas, sim, um samba pensado por elas.

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As protagonistas desta história se conheceram há quase 20 anos em rodas de samba informais em Pinheiros, bairro de São Paulo. “Lembro de ver a Paulinha cantando e pensar ‘uou, de onde veio essa menina?’”, conta Flora. Mesmo que a música já corresse forte nas veias das três desde a adolescência, não foi fácil para nenhuma delas acreditar na possibilidade de viver de arte.

"Uma vez, eu estava cantando na sala de aula, na escola, e a diretora ouviu e adorou. Ela financiou aulas de canto para mim durante todo o colegial. Mas eu não era incentivada a enxergar aí um caminho profissional. Fui trabalhar com administração e levava a música no paralelo. Só há uns quatro anos que consegui focar só na música”, lembra Paula.

Para Mariana, cantar é questão de família. Sua tia, Ná Ozzetti, é uma das cantoras centrais da Vanguarda Paulista, movimento histórico de música independente que rolou em São Paulo entre as décadas de 70 e 80.

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Já na formação de Flora, a vocação para percussionista sempre se impôs. “Eu queria trabalhar com isso, mas olhava para quem estava nessa situação e achava todo mundo perdido. Fui fazer pedagogia e me envolvi com a escola Brincante, onde estudei muito a cultura popular brasileira e percebi que queria viver de música. Aí, larguei a faculdade e comecei a me dedicar”, conta.

Assim nasceu o Samba das Flores. A paixão de Flora pelas diferentes expressões culturais populares do país trouxe um diferencial importante para o grupo: o entendimento profundo sobre o conceito de samba. “Samba é identidade brasileira. Quando um grupo se junta e faz um som que ritmicamente pode ser identificado como coco ou choro ou gafieira, mas chama aquilo de samba, é porque o samba tem essa grandeza, essa ligação com a troca viva e imprevisível”, explica Flora. 

Esse olhar trouxe para o repertório do grupo pérolas da música popular que quase nunca são contempladas nas rodas de samba da cidade. Estão nele músicas famosas nas vozes de Dona Onete, Elba Ramalho, Maria Bethânia, Inezita Barroso e outras divas nacionais que não são exatamente sambistas. “A gente quer reverenciar e falar do caminho percorrido por essas e outras mulheres fundamentais para a música brasileira”, diz Mariana.

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Toda essa força feminina fica explícita nos shows do Samba das Flores. É pista quente e suor descendo madrugada adentro. O Al Janiah, no Bixiga (bairro mais sambista da capital paulista), é o palco principal das apresentações do grupo. Mas rolam shows em diversos outros lugares também. Em agosto deste ano, elas levaram essa força para a Casa Tpm e receberam a luxuosa participação especial da baiana Emanuelle Araújo.

Elas que lutem

Mas para exibir tanta potência, elas precisaram – e ainda precisam – passar por diversas situações adversas dentro do mercado. Ser mulher ainda é percebido como sinônimo de ser coadjuvante. "Já passei por situações de ir tocar percussão profissionalmente e um cara querer me dar dicas. Eu toco desde os 14 anos. Eu sei que o fazer. Nesse dia, eu falei ‘ó, nem me chama mais’. Não tenho energia para gastar com isso. No samba, a gente tem que se provar tempo inteiro. No começo, eu falava em um tom mais grave do que o meu, depois tive que fazer fono. É escroto. E a gente tem que prestar atenção para ir virando essas chaves”, desabafa Flora. 

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Na rotina do grupo, as minas precisam lidar com a dificuldade dos homens em acatar as decisões tomadas por elas. “Os caras precisam desenvolver esse lugar de escuta. É louco como é difícil para eles. Eu acredito que, se a gente quer combater o machismo, precisamos incluir os homens na discussão. Por isso, a gente mostra, explica, reflete. E daí quem quiser pode caminhar do nosso lado, quem não quiser a gente vai deixar para trás”, diz Paula. 

Anota aí

Para continuar dando força para as diversas mulheres que lutam pela música e fazem da cena um espaço mais democrático, feminino e profundo, pedimos para o Samba das Flores três dicas de artistas fundamentais na cultura popular brasileira. Se liga:

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Marinês: Nascida em Pernambuco e criada na Paraíba, ela foi pioneira entre as mulheres no forró e no baião. Dividiu palco com Luiz Gonzaga e foi consagrada como a rainha do xaxado. Morreu em 2007, vítima de um AVC.

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Dona Edith do Prato: Cantora e percussionista baiana, ficou conhecida por usar um prato e uma faca como seus principais instrumentos. É dela a voz da faixa "Viola meu bem", do álbum Araçá Azul , de 1973, de Caetano Veloso. Morreu em 2009, vítima de um AVC.

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Lia de Itamaracá: Conhecida como rainha da ciranda, ela trabalhou como merendeira e empregada doméstica antes de ter seu talento como cantora, compositora e bailarina reconhecido. Aos 75 anos, acaba de lançar o disco Ciranda sem fim.

Curtiu? Segura que tem mais. Siga a playlist que Paula, Mariana e Flora prepararam pra você e se joga:

Créditos

Imagem principal: Alex Batista

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