por alexandre matias

Mateus Aleluia lança clipe, é tema de documentário e termina a gravação de mais um disco solo

Seu Mateus Aleluia sempre soube. “Cada momento é um novo nascimento”, ele contemporiza, paciente como sempre. Assim ele encara seu futuro próximo, quando começa a mostrar ainda mais de sua profunda e tranquila sabedoria, primeiro no documentário Aleluia - O Canto Infinito do Tincoã, que estreia no Brasil no próximo mês e depois em seu terceiro disco solo, ainda sem nome, que será lançado no início do ano que vem.

Lançado com exclusividade no site da Trip, o primeiro passo desta jornada é o clipe de “Confiança”, dirigido por Tenille Bezerra, que também assina o documentário. A faixa é um poema de Agostinho Neto que Mateus musicou. “O patrono da liberdade angolana foi Agostinho Neto, o primeiro presidente de Angola livre, de Angola independente”, reforça, orgulhoso. 

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Aleluia, ponto basal do histórico trio vocal Os Tincoãs, vive satisfeito o momento de redescoberta de seu trabalho. O grupo teve alguma notoriedade nos anos 70, mas caiu no esquecimento quando mudou-se para Angola, sendo recuperado graças à conexão África-Brasil que voltou a ser estabelecida no início deste século. “O público jovem tem tendência a se afinar com coisas que considera jovens, mesmo que seja a mais antiga das antigas. É o antigo que se faz novo, como dizia Salomão, aquilo que era é o que é, aquilo que está sendo é o que vai vir a ser, Deus ainda pede contas do que já passou. Por isso que é um novo nascimento.”

Além mar

Com três discos lançados há quase 50 anos, o trio mudou a forma como a música africana espiritual era encarada no país.  “A história dos Tincoãs veio dar uma certa maturidade a uma pretensão de se mostrar que a música ritualística que veio d'além mar, da África, não tem somente aspectos exóticos, mas que ela que também tem uma estrutura rítmica, harmônica e melódica como qualquer música erudita, mas de uma forma popular.”

Ele explica que este é o principal aspecto abordado pela cineasta no documentário. “Ele traz a musicalidade do compêndio sacro das músicas do candomblé, como é chamado o ritual africano no Brasil, e coloca-a dentro de uma linguagem mais próxima a uma liturgia ecumênica e religiosa, que nos faz ir pra dentro do academicismo. Isso  não era nossa intenção, embora tenha causado essa impressão e foi muito bom.”

“Atualmente Mateus concentra energia em projetos musicais que se situam na fronteira entre a arte, o pensamento e a pesquisa etnográfica”, explica a diretora do documentário. “Dessa inquietação surgiu o conceito do afrobarroco, criado por ele, e que orienta projetos como ‘O Canto dos Recuados’, ‘Opereta Sacro Profana’, ‘Nações do Candomblé’, dentre outros. A música, para ele, é catalisadora de uma constante investigação sobre estar no mundo e agir sobre ele. O filme se relaciona com essa fase do músico e o acompanha no processo de gravação do disco Fogueira Doce, de 2017, e viaja com ele pelas cidades que marcam sua trajetória. O pensamento filosófico de Mateus é tão protagonista quanto sua música”, explica Tenille, que chama seu documentário de “filme ensaio”. 

Seu Mateus lembra como aconteceu essa conexão com a África que o levou a mudar-se de continente. “A primeira vez que fomos à Angola foi a convite de Martinho da Vila, que também tinha esse interesse pela África. Ele foi para a Angola antes de Angola ser independente Quando surgiram aquelas delegações de solidariedade com os povos africanos recém-independentes, foi Martinho, que se dava muito bem com o produtor Fernando Faro, organizador dessas delegações, que disse: 'Não dá pra ter uma delegação pra Angola sem os Tincoãs, não tem ninguém mais representativo do que os Tincoãs.' E foi assim que fomos para Angola pela primeira vez, em 1983”, conta.

E lembra emocionado do contato fulminante com a cultura angolana: “Quando chegamos em Angola, pensamos, 'estamos em terra de Zambi, nem é em terra de Olorum, é terra de Zambi'. Angola para nós era mítica. 'Meu pai vem de Aruanda e nossa mãe é Iansã', nós já cantávamos isso. 'Aruanda' é corruptela de Luanda, capital de Angola. Chegamos lá e vimos todas aquelas pessoas parecidas conosco, com nossas famílias. Aquilo foi uma surpresa muito grande.”

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Mas nada comparado com o que aconteceria no primeiro show. “Quando a gente foi fazer o show e cantamos 'sou de Nanã, euá...' e o povo respondeu 'euá, euá, ê...'. Pronto! Contatos imediatos de terceiro e primeiro grau”, lembra. A química foi tamanha que a delegação, que iria ficar apenas uma semana, recebeu um convite para esticar sua estada feito por ninguém menos que Liceu Vieira Dias, que seu Mateus se refere como “o Dorival Caymmi de Angola”. “E assim concordamos ficar mais uma semana, que virou dezenove anos’” 

Quase quarenta anos depois, o velho Tincoã segue firme em sua luta, que vê como contínua, e não se aflige com a atual situação política do Brasil. “É um desafio constante. Nós ainda somos aquele espermatozóide que entre milhões conseguiu alcançar o nascimento, somos nós que aqui estamos. Essa guerra é contínua, constante, é a evolução da espécie, para que o homem não se acomode. Se não houver esses desafios, o homem se acomoda. No ponto de vista cultural, o Brasil está se desabrochando e passando por um momento novo. Situações desastrosas já aconteceram e nós as ultrapassamos. E essas situações desastrosas que estão acontecendo nós vamos ultrapassar, porque nós temos essa obrigação. Porque esse país é nosso, essa vida é nossa e esse novo momento também é nosso e temos que consertar o que fizemos de errado.”

Créditos

Imagem principal: Paola Alfamor/Divulgação

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