por Kamille Viola

Prestes a completar 80 anos, a diva do carimbó se prepara para lançar o terceiro álbum e embarcar em mais uma turnê internacional; Fafá de Belém, BNegão e Gaby Amarantos falam sobre a cantora

Ionete Silveira da Gama tinha uns 10 anos quando cantava na beira do rio e os botos se reuniam à sua volta. Sonhava em ser cantora de rádio, como Dalva de Oliveira, cujo repertório gostava de entoar. Mas a vida seguiu por outros caminhos e foi preciso mais de meio século para que ela finalmente fosse reconhecida como a estrela que a pequena Cachoeira do Arari, na Ilha de Marajó (PA), sempre soube que ela era. Virou diva do carimbó aos 70, conquistou de Caetano Veloso a Gaby Amarantos, passando por David Byrne e outras estrelas da música. Agora, aos quase 80, Dona Onete se prepara para uma turnê pela Oceania e o lançamento do terceiro álbum, Rebujo.

O disco que tem entre seus produtores Pio Lobato (guitarrista da  banda da cantora) foi batizado com o termo usado para explicar o movimento que faz com que o que estava no fundo do rio venha à tona. “Tem família que a gente diz: ‘Eita, está dando um grande rebujo’. Os podres daquelas pessoas estão saindo tudo, lá do fundo”, exemplifica. “O que aconteceu no 'Rebujo' (a música-título) é que o tubarão veio, não achou peixe na água salgada e entrou na água doce. E a cobra-grande, uma lenda que nós temos, boiou, e ‘rebujou’, veio do fundo tudo, os peixes pularam e o tubarão chegou. Só que a piranha, que não pertence ao nosso rio, e a traíra, não entraram na festa, não quiseram ser comidas pelo tubarão. Aí o pessoal já leva para o outro lado”, ela ri, explicitando o duplo sentido da letra.

O trabalho sai pelo selo AMPLI-DIVERSÃO e tem uma participação certa: a de BNegão, em "Musa da Babilônia". O samba foi inspirado em uma mulher que Dona Onete viu descendo da favela carioca em direção à praia. “Conheci Dona Onete fazendo show com o Coletivo Rádio Cipó. Foi amor à primeira vista e à primeira ouvida [risos]”, lembra o cantor. “Sou fã incondicional e estou feliz demais que a gente vai fazer um som junto este ano”, festeja BNegão.

Outra das 12 faixas é o bolero "Contraproposta", resposta a "Proposta indecente", de Banzeiro (2016). “Quem fez a proposta indecente fui eu, então agora é o homem que vem, um galante sedutor. Ele fala, convida, pergunta se ela já viu as estrelas, a pessoa passa a noite deitada nos braços dele. Quando ela acorda, ele diz: ‘Eu quero viver uma linda história de amor com você. Mas sem cobranças, olha/Ciúmes nem briga/Se você ficar a fim, me liga’. Aí é que ela vai escolher”, adianta a compositora. "Ação e reação", "O carimbó arrepiado" e "Vem chamegar com a gente" também estão no álbum. Ela quer Mano Brown no disco, mas ainda não há nada acertado.

O Pará na veia
Dona Onete costuma dizer que seu primeiro público foi uma turma de botos. “A minha voz era tão alta que o pessoal ouvia longe: ‘Olha, a sobrinha da Dulcina está cantando para boto.’ No princípio foi um boto, depois dois, depois acho que uns 12. Mas eles vinham por causa de jambo-rosa, uma fruta que eu jogava no rio às pencas [risos].” A tia que a criava, em desespero, tentava de tudo para afastar os animais da sobrinha – a famosa Lenda do Boto diz que, nas noites de lua cheia, o animal se transforma em um jovem bonito para conquistar as moças e engravidá-las, voltando em seguida a ser bicho. “Era muita benzedeira, muito pajé, muita coisa que ia na minha casa. A minha tia chorava. Aí ela não aguentou, me deixou em Belém [risos]”, lembra ela.
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Dona Onete tinha perdido o pai com nove meses de idade. Sua mãe havia se casado novamente, deixando-a para ser criada por parentes. “Morava um pouco com a avó, um pouco com uma tia, até completar 19 anos, que foi quando me casei”, lembra ela. Vivendo em Igarapé-Miri, trabalhava como professora de história e estudos amazônicos e chegou a ser secretária de cultura do município. Arriscava seus versinhos no Carnaval e no boi-bumbá, dos quais o marido participava. Mas parava por aí, porque ele tinha ciúme.

“Eu dependia dele. Ainda não tinha todas as aulas que precisava para resolver a minha sobrevivência. Quando consegui, foi a hora de dar meu grito de liberdade. Muito chorosa, muito triste, porque a gente quando casa pela primeira vez pensa é para sempre, e não foi”, recorda. Foram 25 anos e dois filhos.

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A vida seguiu e o canto continuou como um hobby. Aos 62, aposentada e vivendo com outro companheiro em Belém, ela um dia estava dando uma palinha em um show de carimbó quando um grupo de jovens que tinham se mudado quatro dias antes para a vizinhança a ouviu cantar. “Pensavam que era uma mulher de 24 ou 25 anos. Chegaram lá, era uma de 60”, diverte-se. Dessa vez, o companheiro deu força, e lá foi ela gravar com o Coletivo Rádio Cipó e fazer shows Brasil afora, ficando conhecida no circuito alternativo. Acabou indo parar no filme Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Beto Brant e Renato Ciasca: na história, a personagem de Camila Pitanga assiste a um número musical de Dona Onete.

Aos 73 anos, já viúva, começou sua carreira solo: lançou seu primeiro álbum, Feitiço caboclo, em 2012, com algumas das mais de 300 canções que compôs. Suas marcas registradas: músicas sobre flertes e amores com certa malícia e canções que falam sobre a cultura de sua terra. Essa mistura caiu no gosto de Caetano Veloso, que assistiu ao primeiro show da cantora no Rio de Janeiro, no Circo Voador.

Outros artistas também gravaram com ela. Gaby Amarantos trouxe em seu disco de estreia, Treme (2012), um dueto com Dona Onete em "Mestiça". “Quando a gente vê mulheres como a Dona Onete fazendo sucesso com quase 80 anos de idade, fica clara essa questão da ressignificação da idade, tão presente hoje. Ela é muito importante também por isso, porque oxigena a cena da música paraense, mantendo a chama viva", derrete-se Gaby.

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Fafá de Belém, outra que registrou uma canção da artista, "Pedra sem valor", no disco Do tamanho certo para o meu sorriso (2015) também é toda elogios. “Dona Onete é o símbolo de todas as mulheres do Pará. Nós somos as amazonas, as icamiabas [segundo a lenda, índias que teriam formado uma tribo de mulheres guerreiras que não aceitavam a presença masculina], e ela carrega nela impressa toda a nossa natureza. Guerreira, corajosa, frontal, doce, deliciosamente agradável, bem-humorada. Amo muito a Onete, ela é o Pará na veia”, define Fafá. 

O segundo disco, Banzeiro [o termo fala do movimento na água provocado pelas embarcações], veio em 2016, e, com ele, a primeira de muitas turnês internacionais. David Byrne ficou fã e conferiu, ao lado de Caetano, o show da artista em Nova York. “Quando vi, ele estava [na porta do camarim] na hora dos autógrafos. Eu disse: ‘Você quer me dar um cheiro?’. Falei para ele entrar, dei o beijo, o autógrafo, ele elogiou a minha voz. E esse outro que você falou [Byrne] disse que eu tinha voz de cantora americana de jazz”, sorri. “As coisas estão igual a um furacão na minha vida. Vieram mudando toda a história. Porque eu estava assim: vou ficar idosa, na minha casa, ‘me agasalhar’, como se diz no Pará, que significa ficar no meu canto, cuidar das plantas, dos meus netos, meus bisnetos. Mas não: hoje em dia eu vivo fora”, diverte-se ela. A faixa-título do álbum foi regravada por Daniela Mercury e eleita música do Carnaval de Salvador em um concurso de TV. É desse disco o clipe mais acessado de Dona Onete, No meio do pitiú (termo usado no Pará para falar do cheiro característico de peixe), com mais de 8 milhões de visualizações.

Suas canções foram parar em trilhas de novelas da Globo, "Jamburana" em Sol nascente (2016), e "Boto namorador" em A força do querer (2017). Ela conta que a gravadora do Grupo Globo, a Som Livre, tentou contratá-la. “Queriam lançar meu disco, mas eles não iam me deixar falar o que eu falo. Chega aqui e são donos da gente. Eu não queria isso. Posso sair do cenário musical, mas não vou deixar ninguém me tolher. Tenho minha aposentadoria de professora, então prefiro poder cantar o que eu quiser. Não estou rica, mas prefiro seguir na minha historinha”, garante.

Entusiasta do discurso empoderado, Dona Onete se diz preocupada com os rumos do país e pede cautela na luta. “Não vamos nos entregar, mas temos que tatear, ver por onde a gente vai. Não é na força, é na inteligência. Vamos com calma, porque eles estão aí com a força toda. Quando estiver com uma amiga que esteja muito exagerada, falar: ‘Vamos de degrau em degrau?’”, sugere.

Palavra de quem esperou a vida inteira para realizar uma vocação. “Às vezes, a gente diz assim: ‘Ah, mas queria isso aqui’. Talvez não fosse a hora. De repente, alguém ouve uma coisinha daquilo que tu fizestes e ninguém tinha escutado. E diz: ‘Quem é essa pessoa que fez isso?’ Aí, foi fulano. Procura essa pessoa. E você entra na história. Porque era a tua vez de entrar naquela história”.

 

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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