por Nataly Cabanas

Documentário com extensa pesquisa sobre Adoniran Barbosa mostra o lado crítico e o lado triste do compositor

Quando perguntado, numa entrevista à Marília Gabriela em 1980, se gostaria de ter uma praça pública com seu nome, Adoniran Barbosa, autor de clássicos como "Saudosa Maloca" e "Trem das Onze", declinou. "É muito pouco, queria logo uma avenida." Que revisitassem sua memória brevemente não era o que imaginava para si, e sim a longa avenida onde o passante se detivesse um bom tempo rememorando sua existência. Porém, quase quarenta anos depois de sua morte, nem mesmo um filme que reunisse sua obra Adoniran tinha pra chamar de seu. Mas o encanto se quebrou: nesta quinta-feira, 23 de janeiro, estreia nos cinemas “Adoniran – meu nome é João Rubinato”, de Pedro Serrano, documentário que retrata a prolífica vida do bardo do Jaçanã. 

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O projeto nasce da provocação de um crítico de cinema que apontou ao diretor a necessidade de trazer às telas a vida e a obra de Adoniran. E Serrano já tinha uma boa parte da tarefa pronta, já que é dele também o premiado curta-metragem Dá Licença de Contar, em que Paulo Miklos dá vida ao compositor na ficção. Desde suas pesquisas para o curta, o diretor notava certo comportamento que se repetia em alguns de seus contemporâneos. “Percebi que as novas gerações conheciam a obra, até sabiam cantar as músicas, mas não as associavam mais ao nome dele.”

Assim, tendo o resgate de nossa memória musical como norte, o diretor partiu para juntar os pedaços que compõem o retrato desse grande artista. Além da pesquisa robusta, mapear o tour de fouce rumo à conquista de seu lugar como artista e mostrar uma faceta menos conhecida de Adoniran são alguns dos trunfos do documentário. 

 

Eu tô te explicando pra te confundir

O rapaz de origem humilde nascido em Valinhos que criava seus sambas a caminho do trabalho, e que passou pela rádio, tevê, e cinema, só teve a grandiosidade de sua poesia reconhecida quando o crítico literário Antônio Cândido escreveu um texto em sua homenagem. É que, muitas vezes, o personagem que ele inventou para si – aquele que falava numa espécie de “dialeto”, que misturava diversos sotaques de imigrantes de São Paulo – fazia com que as pessoas o considerassem um tipo simplório, sendo ele mesmo o eu-lírico de suas composições.

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Só que Adoniran era mais: era artista, e sendo dos bons, não gostava de deixar tudo às claras. Sabia que é na ambiguidade e na dúvida que tudo cresce. Por isso, suas controvérsias alimentavam os jornais e confundiam aqueles que tentavam entendê-lo de maneira rasa. O documentário tenta mostrar, ainda, todas as versões de suas polêmicas, e de como se explicando em jornais e publicações ele confundia ainda mais sua audiência. Também é fato que nunca foi fácil para ele, filho de imigrantes italianos, firmar-se no mundo artístico paulistano  – e, exatamente por isso, tinha formas inventivas de fazer seu marketing pessoal. Nos anos 50, por exemplo, deu uma entrevista a um jornal dizendo que se tornaria barbeiro no Brás – mas, ao final da matéria, ficava claro que era apenas um papel que ele faria no cinema.  

 

 

Bom dia, tristeza

O último ato do filme guarda uma revelação. Pode parecer spoiler, mas não será para aqueles que sempre perceberam que suas músicas – apesar do bom humor habitual – também são duras crônicas sociais. Por trás do quais, quais, quais, quais também existe um Bom dia Tristeza – música que fez em parceria com Vinícius de Moraes. Adoniran também era um homem triste. “Sempre fui muito chutado no nosso meio” – desabafa no trecho final do documentário sobre o alto preço que precisou pagar para conquistar seu espaço, e que o sucesso só veio perto do fim da vida. 

 

 

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Em comemoração ao lançamento do filme, um acervo com objetos pessoais do artista pode ser visto na Passagem Literária – trecho subterrâneo na Consolação – e, no dia 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo (a musa de Adoniran), exibições gratuitas do filme acontecerão na estação da Luz às 15hrs e às 18 hrs, com presença do diretor, e na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi às 14 hrs. 

Não, a avenida com o nome dele ainda não chegou, mas, por enquanto, temos um busto do artista no Bixiga e 93 minutos de passeio por sua vida e obra. O que é um pouco engraçado e um pouco triste, como o próprio Adoniran. 

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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