por: Buscofem

O direito à
instabilidade

apresentado por Buscofem

Mariana Cogswell: ”Não há um dia do mês em que a taxa hormonal da mulher seja igual à do dia anterior ou à do dia seguinte. Como poderíamos querer ser estáveis diante dessa informação?”

Há muito tempo, no consultório da minha ginecologista, eu contei que estava na TPM e que havia extrapolado em alguma interação cotidiana. Já nem lembro qual, mas nunca mais me esqueci do que ela disse: “Ah, que bom. A TPM é para isso mesmo... para tirar de debaixo do tapete o que não pode mais ficar lá”. Aquilo me atravessou e nunca mais foi embora. Estava definitivamente ressignificada a parte que desencaixa e perturba o que até então estava acomodado sob o nome de “ordem”.

Interessante essa palavra – ordem – e muito incrível como ela se relaciona (ou não) com as palavras movimento, vida e mudança. Eu costumo dizer que a mulher existe em três modos na vida: ela gira em círculo, cicla e espirala.

“A mulher que cicla está em religamento atento com sua natureza interna”
Mariana Cogswell

A mulher que gira em círculo é a mulher que está ligada a parâmetros externos. Ela é geradora e sustentadora da normalidade, ou ordem, de sempre. Ela é a estrutura invisível que mantém o status quo e não sabe. Faz todo dia tudo sempre igual e acredita que isso é ser uma boa mulher. Eu diria que essa é uma “programação de fundo” que roda em todas nós de nascença, e tem na atenção ao outro – com impecabilidade – a prova de valor próprio e confirmação de pertencimento com segurança. Existe uma identificação com valores masculinos como estabilidade, foco, disciplina e constância. Essa mulher sempre “tem que” ou “deveria” algo. Ela precisa de validação. É uma vida vivida no espelho, guardada pelos olhos dos outros. É o reino do esforço para agradar. Das migalhas relacionais. Onde também germina a competição. Todas nós em algum grau já vivemos ou viveremos nesse campo de experiência da vida. Então fique muito tranquila, você não está só. Vamos crescer juntas.

A mulher que cicla está em religamento atento com sua natureza interna, um circuito muito sofisticado de inteligência humana que nos distingue e qualifica. Biologicamente falando, não há um dia do mês em que a taxa hormonal da mulher seja igual à do dia anterior e nem à do dia seguinte. Parêntesis, por favor... Como é que poderíamos querer ser estáveis diante dessa informação? Que preços temos pagado em nome de parecer ser? A mulher que sabe que cicla, sabe que “natural” e “normal” não coexistem em paz. Olhando para a lua e as estações do ano, claro e semiclaro, escuro e semiescuro são partes de um todo e não podem ser excluídas em nome de um equilíbrio maior. Se essa é a natureza dos ciclos e também vive na matriz humana, talvez essa própria mutabilidade ou instabilidade que está na mulher e está na natureza seja um “fator-conexão” que faz dela uma rastreadora de mais dados sensíveis do que a média dos humanos e, por isso, portadora de competências distintas altamente valiosas à construção do saber no agora.

Como seria uma realidade redesenhada a partir de mulheres para o mundo? À medida que reconhecemos nosso mundo interno, surgem novas questões em nossas relações do mundo externo. Virar a lente para dentro traz junto uma responsabilidade pelo próprio caminhar, o que antes a escolha de ser submissa a uma “ordem prévia” protegia... Isso é lindo, não é? Mas traz implicações, que eu sei. Eu sempre me pergunto: “A quem pode interessar que estejamos desconectadas de nós mesmas?”. A representação da mulher cíclica abre um diálogo que pode ir se ampliando e se aprofundando cada vez mais. Isso pedirá rediscussões, redesenhos, respiros... em nome do respeito aos ritmos e pulsões de vida. Quem pode ganhar com isso? Além da própria mulher, é claro? Que medos e outras barreiras se interpõem nesse caminho?

“Eu vejo essas mulheres como as grandes professoras de humanidade”
Mariana Cogswell

A mulher que espirala é aquela que se atravessa e abre caminhos. Minha preferida. A eterna inconformada, que de tempos em tempos precisa provocar o contorno de sempre, pois já não cabe mais nele. E o que acontece nesse momento? Toda uma estrutura se mexe junto com o incômodo dessa mulher. Digo isso pois já me “desprendi” muitas vezes na vida e sempre me reencontrei num lugar melhor. Porém, sempre teve um preço. Por isso não se brinca de mulher espiral sem ter ganhado intimidade com o lado escuro da vida, que é onde mora o mistério que nos faz caminhar honrando a nós mesmas.

O que seria aprendizagem se não o abandono de um lugar estreito para caber mais perspectivas num novo contorno? Eu vejo essas mulheres como as grandes professoras de humanidade. Primeiro elas se tornam humanas, ou seja, com todas as suas nuances incluídas, e depois se manifestam inteiras. Não é para qualquer uma. São as que abrem a tangente da vida, pois a sua existência pede mais espaço. Só espirala de verdade a mulher que sabe de si e confia no potencial do outro. Ela não se identifica em salvar ninguém... Ela não cabe no arquétipo materno de sempre. Ela sabe que amar liberta. De certa forma, ela perturba “a ordem” e provoca uma “nova ordem”. Eu chamaria as mulheres que espiralam de inflexão feminina da curva.

O “X” DA QUESTÃO

É preciso ter intimidade com ciclos para saber quando é chegado o tempo de mudar... Poderíamos dizer que a mulher que escolhe o caminho interno acende em si o potencial de tornar-se uma guardiã da mudança. Quando nomeio na instabilidade um direito feminino, eu diria que no mínimo é o direito ao reencontro com a parte nossa que assusta, mas que é generativa e potente.

Sim, geradora – e sustentadora de vida. Sinta se não é assim: tudo o que nos torna mais vivas, sustentamos sem esforço. É assim, pois a vida em si já vibra, ali... E muitas vezes precisa de um empurrãozinho para vir ao mundo, que não vê o que você vê, não sente o que você sente. Agradeça ao teu sagrado incômodo, que te dá o precioso empurrãozinho... E antes dele, à instabilidade que te deu Ph.D. em discernimento sensível. Não parimos só gente. Parimos vida. Em espiral.

*Por Mariana Cogswell, publicitária pós-graduada em Coaching Ontológico, com especialização em Diálogo. Organizou por 3 anos o TEDxDaLuz e é criadora da Jornada Heroína.

Créditos

Imagem principal: Mariane Ayrosa

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