por Milly Lacombe
Tpm #180

Existe uma chance de continuarmos a existir, mas, para que isso aconteça, quem sempre falou agora precisa escutar

Outro dia, uma amiga que é defensora pública me contou o caso de uma menina de 18 anos, mãe de três filhos, que teve que sair para fazer faxina em residências porque seu companheiro estava desempregado e não conseguia trabalho. Um dia, ao voltar para casa, encontrou um dos filhos reclamando de dores no corpo. No hospital, descobriram que o companheiro, que era também o pai, havia espancado a criança, que acabou morrendo. Quem foi preso nesse caso? A mãe. Por negligência.

Esse tipo de drama está longe de ser episódio isolado no Brasil. As políticas são públicas, mas as dores são privadas. Especialmente quando, sem entender que um caso não é apenas um caso, mas resultado de um sistema de opressões que se alimenta de machismo e de racismo, uma mulher nessas condições de sofrimento extremo – a perda de um filho e da liberdade, ao mesmo tempo – acaba acreditando que talvez ela tenha mesmo fracassado como mãe, como mulher, como companheira.

“De uma mulher, a sociedade espera gentileza, doçura, servitude, graça, sexo nas condições estabelecidas pelo homem e silêncio.”
Milly Lacombe

Na Idade Média, eram apenas as mulheres que cuidavam dos partos. Além disso, elas evitavam uma gravidez com o uso de ervas e por meio do conhecimento acumulado por gerações. A história mudou com a industrialização e com a marginalização das parteiras (homens passaram a ser os responsáveis por fazer o parto e trazer crianças ao mundo) e de tudo mais que pudesse envolver uma mulher se constituir de liberdade sobre seu próprio corpo. É proibido interromper uma gravidez, é proibido falar abertamente sobre métodos contraceptivos, é proibido mostrar interesse por sexo, é proibido abrir as pernas, a não ser quando decidem por nós que podemos abrir. De uma mulher, a sociedade espera gentileza, doçura, servitude, graça, sexo nas condições estabelecidas pelo homem e silêncio.

Nosso poder erótico, considerado desde o século 4 uma força perturbadora sobre os homens, precisou ser represado por leis e ficções morais. Ele só passa a ser permitido publicamente com a chegada do capitalismo, para fins de venda de produtos. Fomos ensinadas a adotar posições corporais convenientes, “como se a feminilidade se medisse pela arte de se fazer pequena” (palavras da pesquisadora italiana Silvia Federici). E até nossas roupas e sapatos foram pensados de modo a limitar nossas ações, diminuindo nossos espaços. É a lógica da dominação como estrutura de pensamento, como diz Federici. Nesse arranjo opressor, confinar uma mulher ao lar e a trabalhos domésticos não remunerados, ou remunerados fora do lar, é o pilar sobre o qual esse sistema foi capaz de produzir enorme quantidade de força de trabalho, de exploração (do planeta e de poucos sobre muitos) e de riqueza.

Castrações

Ser mulher em uma sociedade machista, ser negro em uma sociedade racista, ser LGBT em uma sociedade hetero-normativista são, de saída, fracassos. O padrão civilizatório máximo é o homem branco cisgênero e publicamente heterossexual. Só pode ser considerado bem-sucedido aquele cujo comportamento idealizar esse modelo ou a mulher cujo ideal seja conquistar e casar com um exemplar desses. Tudo mais é fracasso, tudo mais é fraquejada.

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Olhar em volta e ver que a organização social, política e econômica criada por esse homem branco e de comportamento publicamente heterossexual está acabando com o planeta deveria ser o bastante para que começássemos a perceber que precisamos de uma transformação radical de conceitos. Estamos, em tempo histórico, a minutos de fracassarmos enquanto espécie, a minutos de sermos nosso próprio meteoro, e mesmo enxergando o abismo a nossa frente, liderados por esse sujeito cheio de poderes, saímos correndo em direção a ele em vez de dar meia volta e andar para o lado oposto.

“Como seríamos diferentes se, em vez de aprender que o Brasil foi descoberto, tivéssemos sido informados de que o país foi invadido?”
Milly Lacombe

Se existe uma saída para esse fracasso anunciado do ser humano enquanto espécie, ela passa por escutar o que dizem os povos originários e as vozes das comunidades e das periferias. Um problema criado pelo homem branco heteronormativo não vai ser solucionado por leis, estruturas econômicas e relações sociais e de trabalho estabelecidas por esse mesmo sujeito. A solução está em lutar para que todos aqueles que até aqui foram considerados objetos – as mulheres, especialmente as negras, os LGBTs, os indígenas, as operárias e operários – se constituam de poder como produtores de saberes e de conhecimentos. A solução é conferir autoridade a esses grupos, entender o que eles propõem como saída, as ideias que dão para que, nas palavras do ativista indígena Ailton Krenak, possamos adiar o fim do mundo.

Chegou a hora de recontar a história. A libertação é justamente o processo de recontar nossas histórias. Como seríamos diferentes se, em vez de aprender que o Brasil foi descoberto, tivéssemos sido informados de que o país foi invadido e que, seguiu-se a essa invasão, uma sucessão de genocídios? Como o homem branco cisgênero e publicamente heterossexual poderia se libertar se desenvolvesse a consciência de que o patriarcado exige seu silenciamento emocional e que, aprisionado, ele é também uma vítima do machismo?

Esperando o meteoro

Existe uma chance de continuarmos a existir e escrever uma história de sucesso para nossos descendentes, mas, para que isso aconteça, o feminino e o feminismo não podem fracassar. Para que isso aconteça, o feminismo precisa invadir todas as instituições, todas as corporações, todas as nações. Mas não estamos falando aqui do feminismo liberal, aquele que quer mudar o mundo uma CEO por vez. Nas palavras das autoras do manifesto Feminismo para os 99%: “Feminismo não é lutar por oportunidades iguais para dominar e oprimir”, tampouco uma luta por mulheres contra homens em nome da liberdade. Feminismo é para a liberdade de todos, de todas e de todes; liberdade é premissa, e não aspiração.

“A solução está em lutar para que todos aqueles que até aqui foram considerados objetos se constituam de poder como produtores de saberes”
Milly Lacombe

E liberdade começa com a conquista da consciência política, econômica e social; liberdade não vem com riqueza nem com a cartilha de sucesso escrita pelo capitalismo. Liberdade não é esbórnia, não é sequer individual. Liberdade é uma tarefa e ou ela atinge a todos, sem exceção, ou jamais será, de fato, liberdade.  

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