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por Tania Menai

’’Por que as peças feitas para meninos montam espaçonaves e as das meninas montam das casinhas cor-de-rosa com tábua de passar roupa?’’

Segurando a boneca Cinderela em uma mão, e a Sininho na outra, a pequena Sara Messer, de 4 anos, questiona: “mamãe, duas amigas podem casar entre si?”. A frase foi postada no Facebook pela mãe de Sara, Andrea, uma designer carioca residente de Manhattan. “Quando você acha que está pronta para responder `a qualquer coisa, vem mais esta!”, escreveu ela. Na mesma semana, a psicóloga americana Jennifer Bryan deixava seu lar em Northampton, Massachusetts, para conceder workshops e palestras em diversas escolas independentes nova-iorquinas sobre o tema: qual o papel do homem, qual o papel da mulher? Como lidar em casos onde crianças que tem duas mães ou dois pais? Como  agir quando a sua filha só quer saber de caminhão e futebol? E quando a sua mãe vira pai? Por que meninas podem vestir azul marinho, e meninos não podem vestir rosa?  Meninos podem usar tutu?

Há 25 anos dedicando-se ao assunto, com mestrado, doutorado, autoria de livros e prática em terapia individual, Jennifer fechou sua clínica há três anos para ajudar exclusivamente o mundo escolar a debater as diferenças de gênero e composição familiar que pipocam cada vez mais em salas de aula. Jennifer aboliu a sigla LGBT (Lésbica, Gay, Bissexual e Transexual), ampliando o termo para GSD: Gênero, Sexualidade e Diversidade.  Sua consultoria, que já percorreu mais de cem instituições educacionais no nordeste americano, chama-se The Team Finch: em português, pintassilgo, um pássaro pequeno e colorido, conhecido pela dificuldade em identificarmos seu sexo à primeira vista.

A única palestra em escola pública aconteceu às 7 da noite de uma terça-feira, em um afluente bairro do Brooklyn. No auditório, cerca de 40 pais e mães e duas professoras, que estavam ali sem qualquer obrigação. Antes de começar, uma organizadora anunciou que o evento acomodaria apenas adultos. “Mas não se animem muito!”, brincou Jennifer.  Uma mãe se levantou para tirar seu rebento do recinto. Jennifer se apresentou ao público contando que tem cinco irmãos; por isso, o dia mais feliz da vida de sua mãe, foi quando nasceu a menininha de laçarotes da família.

No entanto, ela tinha outros planos: Jennifer é casada com uma também psicóloga, e juntas têm dois filhos, Noah de 18 anos e Claire, de 14.  Quando eles eram pequenos, ela escreveu o livro O Dragão Diferente, cujo protagonista tem duas mamães, para ajudá-los a entender que nem todo dragão precisa ser malvado; alguns preferem a delicadeza. Jennifer não cansa de bater na tecla do estereótipo de gêneros ao qual as crianças são bombardeadas desde que usam fraldas (que, por sinal, vêm com desenhos florais ou de carrinho). “O desacordo já começa no jardim de infância, quando se brinca de casinha: quem leva a bolsa e quem carrega a mala?”, diz ela. Num slide, Jennifer mostra a carta que uma menina escreveu para a empresa de brinquedos Lego: “por que as peças feitas para meninos montam espaçonaves e as das meninas montam das casinhas cor-de-rosa com tábua de passar roupa?” 

Ela contou ainda, em entrevista exclusiva, sobre um menino de terceira série que reclamou da falta de opção de fantasias de Halloween: “De um lado da loja, há roupas das princesas. De outro, monstros carrancudos. Ele não queria nada daquilo”, conta. “Antigamente, fazíamos as nossas fantasias; fantasmas ou espantalhos eram apropriados pra ambos sexos”, alega. “Em tempo, adivinhe de que lado da loja fica a fantasia de médico?”.  O assunto é tão relevante, que o site do The New York Times acaba de criar uma seção chamada “Transgender Today” (Transexual Hoje) dedicada ao assunto, para onde famílias de crianças transexuais e adultos que passaram pela mesma trajetória escrevem seus relatos de vida. Muitos sobreviveram à tentativa de suicídio, algo comum entre jovens que têm de enfrentar esta batalha.

A capa da revista dominical do New York Times chegou a trazer o caso do Wellesley College, a oeste de Boston, uma faculdade exclusivamente feminina, onde mais de 20 mulheres se matricularam como tal, mas poucos anos e algumas doses de testosterona mais tarde, apareceram na formatura de  gravata, voz firme, além de nome e pronome trocados. São os chamados “trans homens”, que tem gerado calorosos debates no campus, incluindo o direto em liderar organizações estudantis tradicionalmente femininas, ou o uso de banheiro dedicado às damas. Até as lésbicas alegam que os trans homens passaram a gerar uma concorrência desleal na busca por namoradas.

“A faculdade Mills, na Califórnia, por exemplo, já permite que trans homens se matriculem em seu programa”, disse Jennifer. “Mas não o contrário”.  Já a pequena faculdade Hollins, na Virginia,  só dá o diploma nas mãos de mulheres – e ajuda as que decidiram mudar de sexo, mudar de faculdade também. Jennifer diz que o debate do banheiro público vem lentamente trazendo mudanças; já vê-se banheiros unissex em alguns restaurantes e aeroportos americanos . Ao mesmo tempo, o estado de Nova York está na vanguarda ao empurrar uma  nova legislação que concede o direito de uma pessoas mudar de sexo também na carteira de identidade. A resolução é baseada em como a pessoa se sente, e não como ela nasceu, após atestado de uma equipe médica e psicoterapêutica envolvida.

Em sua apresentação no Brooklyn, Jennifer distribui uma lista de 125 livros infantis e infanto-juvenis americanos, que abordam os temas sexualidade e composição familiar direta ou indiretamente. Lá se encontram títulos como Mamãe, Mama e Eu ou Papai, Papa e Eu, para crianças de 2 a 4 anos. Para faixa etária de 3 a 7 anos, há opções como Rei & Rei, O Vestido de Jacob, Nem todas as princesas vestem rosa, Eu pareço uma menina, Meu menino princesa, e Quando Kayla era Kyle. Jeniffer sabe que o resultado de seu trabalho não acontece do dia para noite. Sabe ainda que há 20 anos ninguém estaria pronto para escutá-la, assim como algumas partes dos EUA ainda não estão. 

Ela é procurada por escolas – incluindo algumas católicas e episcopais – por razões emergenciais, e educacionais. Em um episódio que ele considera profundo, Jennifer ajudou professores e alunos a se situarem no caso de uma professora que lecionava na escola por 10 anos, era casada legalmente com uma mulher e mãe de três crianças matriculadas na própria escola. Durante os dois meses das férias de verão,  esta professora transformou-se em homem, e apareceu no começo do ano letivo com novo rosto, novo corpo e novo nome. “A escola me procurou de uma forma proativa, antes da mudança”, diz ela. “Ajudei a comunidade, os professores e os filhos do casal, que cursavam a segunda, quinta e nona séries”, lembra Jeniffer. “Eu sabia de antemão que eles escutariam algo como: ‘você tinha duas mães, mas agora tem uma mãe e um pai, e o pai era uma mãe?’  Quanto `a pergunta do Facebook, aquela do primeiro parágrafo, Jennifer dá seu parecer: “aos quatro anos, crianças querem explorar. Provavelmente na semana seguinte, ela estará brincando com o príncipe novamente. O que não pode acontecer, é ter os pais podando a riqueza da brincadeira do faz-de-conta.”

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