Enfim uma nova cantora que não faz a linha fofa: ”Nunca vou deixar de fazer o que quero porque é mais certinho de outro jeito”

Karina Buhr, você está aí? Você está lendo isto? Vai saber... Você jura que prefere não espiar o resultado depois de dar uma entrevista. Tudo tão cortado, editado, tão fora de contexto que parece que nem foi você quem falou aquelas coisas todas. Daí vem uma frase solta, inexata, sem prefácio ou entonação, e você chega a discordar de si mesma. Vez ou outra se vê na imprensa em uma versão chata, besta ou metida. Já desistiu também (sábia decisão) de buscar seu próprio nome no Twitter, de vasculhar comentários na internet. “É loucura demais”, resumiste assim o tiroteio de rótulos e vereditos que jogam pra cima de sua pessoa por causa de umas frases, uns shows, uns desenhos, um disco, uma roupa e maquiagem doidas, um mísero tweet.

Talvez você prefira não ler a presente matéria, mas, se estiver com esta Tpm na mão, saiba que deixou para mim toda a sarna pra coçar. Porque agora é minha a tarefa ingrata de resumir quem cargas d’água você é. E, me corrija se estiver errado, não seria muito legal da minha parte fazer isso enumerando adjetivos. Afinal, se entendi alguma coisa de nossas algumas conversas, umas mais e outras menos ébrias, é que esse negócio de adjetivo não está com nada para explicar pessoas. Aliás, “explicar pessoas” não está com nada, né não? Mas há de ser feito.

Ainda mais no seu caso, que põe teu nome na capa do disco mas não fica confortável em ser chamada de... cantora. Não acha que tem assim uma grande voz, mesmo depois de entrar em trocentos rankings da nova música brasileira, depois de tocar no Brasil, nos EUA, na Europa, no rádio e no Carnaval? Vão te chamar de que, se em 2010, com o primeiro álbum, Eu menti pra você, tocou no Brasil todo, levou o prêmio de Artista do Ano pela APCA? Não é cantora? Mesmo depois do Longe de onde, disco que lançaste no fim do ano passado? Pouquíssimo tempo na prateleira e entrou em praticamente todas as listas de melhores de 2011. E que, como você mesma disse (ou vai negar?), colocou sua carreira em um outro patamar.

Mas entendo teu lado. Friamente não nega: se canta como profissão é cantora. Ponto. O problema é o que essa palavra significa. Pela sutil e não declarada distinção que o público, a crítica e até artistas fazem entre os músicos e as... cantoras. Sempre vistas como parte de safras, sempre interpretadas como uma categoria da MPB, sempre comparadas umas com as outras. E nem é o caso de se sentir diminuída, você fez questão de dizer... mas estranhamente separada. Nunca em pé de igualdade. E aí chegamos em um ponto importante para te “explicar” nesta revista.

“É igual ou não é, porra?”, você pergunta toda retórica no bar ao falar sobre como a questão feminina está nos bastidores de sua longa e bem variada carreira. Desde criança, quando queria andar sem camisa e os adultos não deixavam. Ou quando aos 16 anos, começo dos anos 90, decidiu bater tambor nos blocos de maracatu de Recife. Pra que foi encasquetar, se era simplesmente proibido para moças? Zanzando pelos blocos, inconformada no papel de fã, tanto encheu os caras que chegou a tocar no Estrela Brilhante do Recife, Piaba de Ouro, Cavalo Marinho... Mas era comum, quando conseguia um ganzá para chacoalhar no bloco, algum homem tomar da tua mão sem dizer uma palavra. Ou te deixavam tocar em um ensaio, mas tinha que largar o bumbo assim que o mestre do grupo chegasse. Ou podia até desfilar no Carnaval com um tambor, mas dentro da “cota”, na ala feminina.

Você queria entrar pro bloco, teu pai, que fosse juíza. Passaste nas faculdades de direito, letras e artes plásticas. Não fez nenhuma. E, quando entrou em um conservatório para estudar bateria, todo dia o professor chegava com uma revista de balé na tentativa de, digamos, iluminar vossa cabecinha dura. Tua explicação é tão óbvia quanto verdadeira: “É um pensamento pesado, arraigado, de que mulher é pra namorar, casar, dançar balé... mas não é igual”. E de onde vem isso, você tem uma pista?

“Machismo do caralho, né? Mas dá vontade de dar outro nome até... porque chamar só de machismo parece que não explica!”

Em vez de explicar, tu simplesmente não aceitaste. Largou o conservatório, dispensou a sapatilha e foi tocar percussão e cantar com meio mundo no Recife daqueles tempos. Bonsucesso Samba Clube, DJ Dolores e Orquestra Santa Massa, passou uns três anos com a Banda Eddie. E, em 1997, montou seu primeiro grupo como protagonista, Comadre Fulozinha. Sem homem nenhum. Só mulheres. Gravou disco, lançou suas letras como compositora, desenhou as capas e ganhou autonomia de palco. Tocou no Brasil, rodou a Europa...

Diz se tá certo: foi com o Fulozinha que começou a ganhar outras pechas chatas, como “regionalista”, coisas assim. E também com ele que começou a se libertar mais como percussionista e compositora. A se libertar mais como artista e performer. Tua colega de profissão, outra “cantora da tua geração” (ai, ai, ai...), a Tulipa Ruiz, faz coro: “Gosto da liberdade que a Karina tem nas coisas que faz. No canto, no desenho, na performance, no batuque e nas palavras. Isso inspira, instiga, alfineta. Dá vontade de sair correndo com ela”. Outro que também quis sair correndo contigo foi o Zé Celso Martinez, depois de te ver em um show do Comadre Fulozinha em Recife, em 1998. Saiu correndo para o camarim e te convidou para entrar na companhia do Oficina em São Paulo, fazer parte do literalmente dionisíaco dia a dia do grupo de teatro mais libertário do país. “Eu nem sabia o que era Oficina naquela época”, conta e confessa, “e não gostava de quase nada de teatro...” Mas ficou com aquilo na cabeça e, três anos depois, em 2001, mudou-se para São Paulo e entrou no elenco de Bacantes. Quando deu por si, estava sendo parida, três vezes por semana, por Paulo César Peréio no papel de Zeus. E, pouco depois, a coisa foi ainda mais intensa...

“Ainda estou me recuperando”, você diz. E acredito. Deve ser puxado até pro carma fazer parte de uma das mais heroicas montagens teatrais de todos os tempos: Os sertões, a versão integral, segundo Zé Celso, da obra de Euclides da Cunha sobre a revolta de Canudos. A peça foi dividida em cinco partes, de 2001 a 2006, mais de seis, sete horas de espetáculo para cada uma das partes. Isso em São Paulo, depois pelo Brasil, até desaguar em uma montagem em Quixeramobim (a cidade natal de Conselheiro) e em plena Canudos, no palco histórico do episódio. “A cidade enlouqueceu. E eu também”, você lembra e vaticina, “mas quando voltei de lá não dava mais para continuar. Saí do Oficina e voltei pra música.”

Foi quando você começou a preparar o primeiro disco e virou a chefa de uma banda só de homens. Aí você lembra que, um dia na plateia de um show, um guitarrista arrebatado se voluntariou para entrar nos créditos. O plano era manter apenas bateria, baixo, trompete e teclado no palco. Mas não dava para falar “não” para Edgard Scandurra, dos melhores e mais consagrados guitarristas do rock nacional. Ele explica seus motivos: “Quando vi pela primeira vez um show da Karina Buhr, percebi na hora que minha guitarra seria perfeita para a viagem musical que ela propunha. Seu som visceral, sem afetações nem estrelismos, com pegada rock (herança direta do pós-punk), tem muito a ver com o que penso sobre a música vista como arte e não como uma máquina comercial de fazer sucessos. Karina é uma mulher forte, agressiva em suas atitudes, mas muito doce e sentimental. Se ela se irrita com as mesmices e mediocridades do show business e da sociedade, carregando nas provocações a sua poesia, ao mesmo tempo encanta todos que a conhecem. Sinto orgulho em poder colaborar com essa artista tão humana, verdadeira e talentosa”.

Logo que lançou o Eu menti pra você, teu nome começou a despontar. Vira e mexe como “cantora da nova geração”, “segunda leva do manguebeat”, “pernambucana” (embora tenha nascido em Salvador)... Essas reduções precárias que hoje, depois de tanto show, de um segundo disco e de canções que transcendem prateleiras conceituais, vão se perdendo com as carapuças que se recusou a vestir. Aliás, falando em vestir, vamos falar de quando se despiu há pouco tempo.

Nosso último papo foi em um bar. E logo na porta, antes de entrar, uma amiga tua se levanta para um abraço. “Adorei as fotos, Karina. Ficaram o máximo. Me senti super-representada!”, ela disse, lembra? As tais fotos (www.sexoagil.com) estavam no ar havia dois dias e haviam circulado horrores. Eram mais do que fotos, na verdade. Um trabalho mezzo arte, mezzo manifesto. Fez um texto, a capa, e chamou a baterista e cantora Nana Rizzini, a atriz Mariah Teixeira, a cantora Marina Gasolina, ex-Bonde do Rolê, e Adriano Cintra, guitarrista e recém-cansado de ser do Cansei de Ser Sexy. Todos sem camisa, estampando no corpo as frases que você bolou: “Não dê uma rosa, coma”, ou “Dia Internacional é a cabeça do meu pau”. Fez tudo menos de 24 horas antes de lançar na rede no Dia Internacional da Mulher. O motivo te deixo explicar:

“Quis fazer alguma coisa porque sempre odiei o 8 de março. Não faz sentido. A realidade é uma bosta, e chega nessa data e você ganha uma florzinha"

E continuou: “Passei uma semana no Marrocos. E usei as minhas roupas... Foi muito parecido com o que eu sinto aqui. Você sai e escuta um monte de merda. E como se você não usar a roupa certa desse o direito de o cara te olhar de um jeito agressivo”. O que te deu a ideia de uma das frases do ensaio: “Sua blusa é uma miniburca, a burca dela é só um blusão”.

E aí foi ficando claro o silencioso incômodo que paira no Dia da Mulher entre buquês e declarações melosas nas redes sociais... o de que até o dia 8 de março é do machismo, ou melhor, do paternalismo masculino, a versão mais carinhosa do patriarcado. E que se manifesta, física e culturalmente, no corpo. Se o mero substantivo “mulher” se torna um adjetivo cheio de amarras na vida real, ficou bem mais fácil para mim entender tua fobia por definições herméticas, rótulos, planos ou a informação fria de que tens 37 anos... “Fiz as coisas de um jeito irresponsável no bom sentido da expressão”, você disse,

 “Não vou nunca, em nenhum setor da minha vida, deixar de fazer algo que eu quero porque é mais certinho fazer de tal jeito ou vai me dar segurança, seja de grana, de reputação ou de qualquer coisa.”

Nessa altura só posso dizer que é um tanto mareante te entrevistar. Essa tua aversão aos clichês pode ser a fonte perfeita para canções, mas é uma desgraça para sínteses em um perfil. Não tem nem a conveniente vaidade dos artistas que chegam com uma biografia encadeada, anedótica. Você fica mais confortável falando sobre a história da tua família alemã na Segunda Guerra migrando para o Brasil do que sobre como Edgard Scandurra entrou na sua banda meio por acaso. Fica tímida para falar sobre como tua agenda está cada vez mais cheia e os shows, mais lotados. Mas se alonga animada quando fala de candomblé ou sobre as aparições metafísicas que já viu em tempos mais mediúnicos da vida.

A pauta implode sem que se note, e só resta te resumir a partir do inespecífico. Do que você não diz, mas está presente nas tuas letras e por trás do teu profundo incômodo de reduzir música, estilo, fase da vida, feminismo, relacionamento em poucas palavras. O problema para um jornalista, nesse caso, é dizer a que veio uma pessoa que, por mais teatral, performática ou maquiada que possa parecer, se recusa a aceitar um papel. Que não o de si mesma.

Karina Buhr, você está aí?

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