Pitty: as alegrias e os perrengues de se tornar mãe

por Natacha Cortêz
Tpm #166

Grávida da primeira filha e aconselhada a ficar em repouso, a cantora sente as doçuras de gerar uma vida. Leia entrevista completa

Há pouco mais de um ano Pitty falou à Tpm. Aquele era um tempo de juntar os cacos e sair renascida de anos infernais, marcados por traição, morte e uma doença que por pouco não a matou. Agora, voltamos a falar, mas desta vez por Skype. Vestindo uma camiseta da banda americana Queens of the Stone Age, ela está engolida pelo sofá em uma tarde gelada do inverno paulistano, sozinha em casa. Ou nem tão sozinha assim. Grávida de sete meses, aos 38 anos, Pitty “forma” dentro de si – como gosta de dizer – uma menina, sua primeira filha.

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A gestação delicada a obriga ao repouso: não deve botar os pés na rua e, de preferência, deve ficar deitada. Nada de palco, nada de estrada e de turnê. Os dias e os hábitos de rock star estão proibidos. O motivo do repouso é um encurtamento do colo do útero. E ela não esconde que, quando soube da necessidade de quietude, ficou brava. Pitty gosta de estar no controle e se sente descaracterizada sem ele. Sem o trabalho, sua fonte de energia, ela teve que repensar um bando de coisas. Mas está feliz.

A criança que espera é um desejo batalhado, a cantora vinha tentando engravidar há algum tempo. De forma um pouco indisciplinada, mas vinha. Mesmo assim, a notícia a pegou desprevenida, em um momento em que a carreira era a prioridade. A cantora seguia em turnê do álbum SETEVIDAS e pretendia ficar nela até o segundo semestre de 2016. Além disso, tinha fechado com uma marca um projeto de sete shows por todo o país ao lado de Nando Reis, Paralamas do Sucesso e Paula Toller. Mudança de planos e de humor. “Agora, tudo o que importa é a bebê”, diz orgulhosa, mirando a webcam para barriga.

Nesta entrevista, Pitty fala de quando se entendeu mãe, do “bagulho poderoso e misterioso” que é gerar uma pessoa e, por outro lado, do fato de trazer uma menina para um mundo de Bolsonaros e Felicianos. Centrada, fala sobre abrir mão do próprio corpo e do autocontrole para dar lugar a outra vida.

Tpm. O perfil que publicamos sobre você na Tpm #152 levou o título de “Depois da tempestade”. Um ano se passou e você está grávida de sete meses. Foi algo como “depois da tempestade veio a bonança”?

Pitty. Olha, na minha vida nada é tão simples assim. Apesar de batalhada e desejada, foi uma gravidez que me tirou dos meus planos e me colocou dentro dela apenas. É, sim, uma bonança, até porque eu quis muito, mas não é uma bonança de conto de fadas.

Como foi o dia em que você descobriu que estava grávida? Eu estava sozinha em casa e fiz um exame e farmácia. Mas eu já desconfiava. O corpo dá sinais, o cheiro do xixi fica diferente. O curioso é que aquele nem foi o mês em que eu e Dani mais tentamos. [Pitty está com Daniel Weksler, baterista do NX Zero, há 11 anos.]

A idade a preocupou em algum momento? Sentiu uma pressão para engravidar? Nunca dei ouvidos pro que os outros pensam. Mas isso não quer dizer que as pessoas deixem de opinar. No meio disso tudo, tive dúvida se eu ia gostar de ficar grávida, se era isso mesmo. E cheguei a pensar: e se eu demorar muito e depois não conseguir? A gravidez não é um processo de quero ou não quero. Tem o seu querer, mas ainda há as questões que nos fogem ao controle, os mistérios, as coisas da natureza.

E agora, grávida, você está amando. Pois é, mulher! Chegou uma hora da gestação que me peguei olhando no espelho por 5 minutos e achando tudo incrível, a barriga crescendo e tal. A coisa me tomou de uma forma poderosa. E daí rolou isso do sagrado feminino, de sentir todo o poder que uma gestação traz. Estou achando um bagulho poderoso. Digo isso, mas não esqueço das mulheres que não querem ter filho, pra que não se sintam obrigadas. Porque, nos momentos em que eu tinha dúvida se queria ou não, tinha essa pressão dos outros de que você só é de fato mulher quando tem filho, e eu achava isso horrível e castrador. É preciso respeitar as mulheres que não querem ter filhos, é preciso respeitar as mulheres que tiveram filhos, mas não acharam tão incrível. A mulher se realiza de diversas formas e a maternidade é só uma delas.

Dizem que todo mundo tem uma opinião, um pitaco, durante a gravidez. Isso tá rolando contigo? Não gosto muito desse papo “ih, sua vida acabou”. “Ih, você nunca mais vai ouvir uma música que você gosta, só vai ouvir as Galinhas Pintadinhas da vida.” Ou então “ih, se prepare pra nunca mais dormir”. Todas as vezes que pensei em não ter filhos é porque me apegava a esse tipo de pensamento. Mas precisamos encontrar um ponto pra falar disso, nem tão uma coisa nem tão outra, e ser honestos. Não dá pra apavorar, nem pra idealizar. Acredito em encontrar um ponto entre falar das dificuldades do puerpério e da delícia de arrumar o enxoval.

“Entoar o mantra 'eu sou amor da cabeça aos pés'bem alto é catártico e necessáro num momento como este”
Pitty

Você está em repouso. Como tem sido isso? Foi um processo de aceitação de sair do meu curso. E toda essa loucura de “como vou ficar tanto tempo presa em casa, como vou ficar sem grana?”. Quem é autônomo só ganha quando trabalha, não tem essa de licença-maternidade. Mas pensei: pelo menos posso fazer isso. Tem muita mulher que não pode. Estou em casa desde abril, parei de trabalhar com três meses de gravidez. Tem dia que fico tipo um bicho enjaulado. Meu trabalho exige muitas horas de viagem, muito sobe e desce de avião, muito tempo em hotel e ônibus. Não é um trabalho que eu chamaria de tranquilo. O próprio palco exige uma entrega, uma adrenalina. Como tenho um encurtamento do colo do útero, meu médico disse que ia ser melhor ficar quieta.

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Como tem sido ficar longe dos palcos? Difícil! Os primeiros três meses foram só privação, uma renúncia do estilo de vida. Se você gosta de sair, se você gosta de beber, se seu trabalho é mais agitado, precisa rever todas essas coisas em nome de novos cuidados. Ao mesmo tempo que isso acontece, você não tem seu corpo de fato grávido, porque a barriga ainda não apareceu. Foi duro aceitar os três primeiros meses, e todas suas restrições, sabendo que a recompensa viria no futuro. Sou uma pessoa imediatista. O lado mãe só bateu mesmo quando senti a barriga mexer e quando vi que ela tinha crescido.

No Twitter você disse: “Assisti ao Olmo e a gaivota aquela mulher sou eu”. Há muitas semelhanças entre você e Olívia? Acho que, se eu tivesse visto sem estar grávida, não teria batido tanto. Mas ela sou eu, sim, fiquei chocada! Primeiro pelas circunstâncias: ela é uma artista que precisa deixar de trabalhar pra ficar de repouso – minha história –; segundo, pela personalidade dela, as coisas que fala. O jeito que vive as angústias, os pontos de vista, o jeito que ela descreve a si mesma como esse bicho livre da noite. A renúncia do próprio corpo e do estilo de vida que ela tinha antes da gravidez. Tudo, tudo igual. E foi bom ver isso em um filme. Porque, na nossa sociedade, grávida não pode sofrer. Como se fosse uma mácula do sagrado. Você tem que estar grata o tempo inteiro por estar grávida. Sim, estou grata, mas isso não me exime de certas angústias. E elas existem, têm que existir, fazem parte das nuances de sermos humanos. Com o filme, me senti absolvida. Tudo bem ficar puta porque você não pode sair de casa.

Você teve um aborto espontâneo em 2006. Dez anos depois, está grávida. Como foi esse intervalo? Esperei o meu tempo. Quis e não quis estar grávida. Tinha épocas que queria mais, épocas que queria menos. Sempre ficava uma dúvida, eu nunca sabia qual era a hora certa. Porque talvez não exista a hora certa. Porque talvez sempre vá rolar algum medo. A gravidez é uma coisa desconhecida. E, para quem tem uma onda com controle, é pior. A gravidez é um descontrole completo, um bagulho meio misterioso. Existem mulheres fazendo tratamentos caríssimos que não conseguem engravidar. E mulheres usando DIU ou tomando pílula que acabam engravidando. Então, lidar com isso enquanto mulher é um puta aprendizado. Você se entrega a essa natureza, a esse descontrole. Se você é uma pessoa muito vaidosa, por exemplo, sofre mais, porque o corpo muda mesmo. É muito complexo. E também muito bonito e transformador.

Teve isso de vaidade contigo? Tem sido um tempo de rever vaidade, rever egoísmo. Se no começo você fica “ai, meu deus, a estria!”, agora não, as preocupações vão mudando. Não que você tenha que esquecer de você, mas precisa dar espaço pra outro ser.

E como é pensar em colocar um filho neste mundo? Se eu tinha algum nível de empatia antes, agora estou sentindo todas as dores do mundo. É uma sensibilidade enorme. Ler as notícias é diferente agora. Como eu vou colocar um filho no mundo e, principalmente, uma mulher?! Os ataques sexistas que recebi quando me manifestei no Twitter eram absurdos, ofensas terríveis, agressivas. As pessoas acham mesmo que têm o direito de te reprimir porque você é mulher. O que eu entendi é que essas coisas precisam ser menos motivo de medo e mais motivo de luta. Prefiro transformar esse medo em vontade de lutar e melhorar as coisas. E vibrar na frequência do amor, das pessoas que se respeitam e respeitam o outro, e criar minha filha dentro disso, sem ela nunca questionar por que existem casais do mesmo sexo, por exemplo.

Então mexeu com você descobrir que era uma menina. Na verdade, foi importante pra mim. E entendi o por quê. O fato de eu ter me aproximado do feminino nos últimos anos, o meu encontro com o feminino em mim, meu encontro com o feminino fora de mim através das outras mulheres, a relação com a minha mãe, que sempre foi complicada. E depois de tudo isso estou gerando uma mulher. Saca? Quando engravidei, fiquei com muita vontade de conversar mais ainda com mulher. Com muita vontade de estar perto de outras mulheres. Uma coisa de “elas vão entender o que eu tô passando”. Os homens são solidários, meu marido é incrível, sensível, ele enjoou comigo, mas o que rola entre mulheres nessa fase é muito singular.

Vivemos um cenário político atípico, a gravidez mexeu de alguma forma com o seu modo de ver as coisas? Primeiramente, fora Temer. Depois, a gente saiu de uma coisa que tava estranhíssima pra algo muito pior. Não tem santo nessa história. Agora temos um governo interino com um monte de ministro caindo, sem representatividade de mulheres e negros, sem representatividade de toda a diversidade que a gente tem no Brasil. O processo político é mais complicado que direita e esquerda. E o que mais me preocupa de fato nesse processo é a questão dos direitos humanos, a questão da coligação com forças conservadoras e fundamentalistas religiosos. Pra mim, política é feita de pessoas e para pessoas. O meu medo é um retrocesso nesses aspectos, e isso está acontecendo. Entramos numa onda mais liberal, que pensa mais em mercado e comércio do que em pessoas. Uma onda que encara assistencialismo como esmola.

“A mulher se realiza de diversas formas e a maternidade é só uma delas. É preciso respeitar as mulheres que não querem ter filhos”
Pitty

Cantar “Não se assuste, pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa”, é importante neste momento? (no DVD da turnê Sete vidas, Pitty gravou uma versão de “Dê um rolê”, dos Novos Baianos). Com certeza. Entoar o mantra “eu sou amor da cabeça aos pés” bem alto, num palco e fora dele, é catártico e absolutamente necessário num momento como este. Essa música vem de uma memória de infância. Sempre bateu forte em mim. Já adolescente, pesquisando psicodelia brasileira, encontrei uma versão ao vivo de Gal, num disco de 71, se não me engano. Visceral, rasgada, urgente. É nessa versão que me baseio. O que está no DVD é uma tocada só; essa foi a única vez que tocamos essa música durante a turnê.

No DVD rola uma conversa com a plateia durante um show em Salvador. Você diz: “Parem de me chamar de gostosa”. Por que você decidiu ter essa conversa? Estava me incomodando. Entendo que o objetivo deles era elogiar, mas o objetivo não estava sendo cumprido. Em vez de eu ficar feliz, ficava constrangida. Aquele comportamento é uma extensão do que acontece na rua. Não acho bom quando acontece na rua, não podia achar bom daquela forma também. E eles não são meus inimigos, são meu público, nós nos amamos. Eu tinha que falar.

Créditos

Imagem principal: Jorge Bispo

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