por Ariane Abdallah
Tpm #116

A garota da periferia de Belém que está decidida a ganhar o mundo sem sair do seu bairro

“Diva do tecnobrega” e “Beyoncé do Pará”, a cantora Gaby Amarantos, 33 anos, ganhou fama ao improvisar uma versão de “Single Ladies” e colocar no ar UM clipe que conta sua própria história: a garota da periferia do norte do Brasil que lança disco solo e está decidida a ganhar o mundo sem sair do bairro do Jurunas, em Belém

Em um mesmo dia, Gaby Amarantos vai da periferia de Belém, mais precisamente no bairro do Jurunas, onde nasceu, a um dos restaurantes mais sofisticados da cidade. E sem mudar o figurino: vestido tomara que caia rosa, óculos escuros Prada e bolsa com estampa da Mulher Maravilha. “Musa do tecnobrega”, atraiu ouvidos desacostumados ao sotaque paraense ao ser chamada de “Beyoncé brasileira”, num dos principais festivais do Recife, o Rec-Beat, ao improvisar uma versão em português de “Single ladies” (“Hoje eu tô solteira”), sucesso da cantora norte-americana, em 2010.

De lá pra cá, Gaby fez show no Studio SP, dividiu o palco com a Orquestra Imperial e se apresentou no Video Music Brasil 2011, da MTV, exibindo seus 72 quilos e 1,65 de altura em um maiô cheio de neon, LED e alto-falantes na altura dos seios (que, funcionavam perfeitamente – os alto-falantes, claro).

O mundo do meu quintal

Além disso, seu clipe da música “Xirley Xarque”, que conta a história de uma garota da periferia que vira pop star, é “um dos melhores de todos os tempos”, segundo o antropólogo e crítico de música Hermano Vianna (até o fechamento desta edição, o clipe teve 83.145 acessos no YouTube). Agora, em janeiro, ela lança seu primeiro disco solo, Treme, com música assinada pelas amigas Thalma de Freitas e Iara Rennó, participação de Fernanda Takai e elogios de especialistas como o jornalista Nelson Motta.

Filha de ribeirinhos e descendente de escravos por parte de pai e de portugueses pela mãe, Gaby ralou muito antes de ter seu talento reconhecido além das fronteiras do norte do país. Hoje, se vê no papel de tornar a música paraense conhecida nacional e – por que não – internacionalmente.

Quinze anos atrás, quando começou cantando na igreja do bairro, nem imaginava tal sucesso. Por causa das roupas curtas e do excesso de animação, teve que deixar o coro um ano depois. Passou então a se apresentar em bares, com um repertório que ia de Marisa Monte a Maria Bethânia, até que, em 2002, fundou a banda TecnoShow. Com o grupo, deu início aos shows nas aparelhagens, festas que existem há mais de três décadas no Pará e chegam a reunir 40 mil pessoas em uma única noite.

Se você nunca ouviu falar em aparelhagem, imagine um baile funk, com algumas diferenças: em vez de ser no morro carioca, acontece na periferia de Belém. No lugar de proibidão, o som é tecnobrega: mistura da música popular que tem sua origem em cantores como Reginaldo Rossi e Roberto Carlos, com a batida de DJs com seus pickups, teclados e amplificadores. São os próprios artistas, assim como Gaby Amarantos fez durante oito anos com a TecnoShow, que gravam, copiam e distribuem aos camelôs seus sucessos.

E não é só no Brasil que o nome dela começa a ser reconhecido. Sua versão para “Águas de março”, lançada na Europa por meio do álbum L.O.V.E. Banana, do DJ João Brasil, rendeu a ela um perfil no portal americano The Huffington Post, em novembro passado. No texto, a “queen of tecnobrega” é elogiada por sua interpretação do clássico de Tom Jobim. Ainda neste ano, ela cantou Clara Nunes para a câmera do cineasta francês Vincent Moon, que também registrou artistas como Ney Matogrosso e Tom Zé na etapa brasileira de seu concerto itinerante Temporary. Para esse trabalho, que pretende, em breve, lançar em DVD (dirigido pelo francês em parceria com Priscilla Brasil), Gaby improvisou um palco em frente à sua casa, e o público era formado pelos vizinhos de periferia.

Mesmo hoje com a ascensão social (faz cerca de 12 shows mensais e cobra entre 
R$ 25 e 50 mil), diz não ter planos de sair da casa onde mora no Jurunas com a família: o pai, a mãe, o casal de irmãos mais novos, o cunhado, a sobrinha e o filho, Davi, 2 anos.

A seguir, conheça a história real da menina da periferia que virou pop star – mas se recusa a tirar os pés do chão.

Tpm. O que você acha do rótulo de “Beyoncé do Pará”?
Gaby Amarantos: Não foi programado, mas me meti nessa brincadeira porque sabia que me abriria portas. O que aconteceu foi que, no Rec-Beat 2010, meu teclado queimou e, com isso, perdi 11 músicas do repertório que estavam arquivadas ali. Um desespero. Na hora do show, só tinha quatro músicas prontas para tocar e, entre elas, a versão de “Single ladies”, da Beyoncé. Por acaso, eu estava com um maiô preto, parecido com o que ela usa no clipe. Quando vi nos jornais “Beyoncé do Pará”, “O Brasil tem sua Beyoncé”, tive medo de as pessoas acharem que eu era uma cover, de que toda a minha história fosse jogada no lixo. Mas falei: “Vou encarar porque sei do meu potencial!”. E as pessoas agora já sabem quem é Gaby Amarantos. Percebi que, se quiser que o resto do Brasil conheça a música paraense, sou eu a pessoa para dar esse passo, sem falsa modéstia. Sou a artista principal desse movimento, fui eu que comecei isso, com a fundação da TecnoShow [banda que existiu por oito anos].

Você continua morando na periferia, mas hoje frequenta a elite. Dá um nó na sua cabeça conciliar esses diferentes mundos? 
Já deu. Mas hoje consigo transitar por todos esses universos. Isso me faz ser uma camaleoa, que pode se sair bem em qualquer situação. A pessoa da periferia é muito bem preparada porque enfrenta mais dificuldades, então aprende a lidar com várias situações. Você já viu de perto a fome, a criminalidade, o preconceito, a falta de saneamento, de condições para ter uma boa educação. Então, o que vier, pode jogar no peito que eu me garanto. Ser da periferia me preparou para o showbusiness. As pessoas falam: “Nesse mundo da música é cobra comendo cobra”. Mas, cara, não acho isso. Todos me tratam bem. Claro que tem gente que não gosta do meu trabalho, mas não dou importância. A pessoa da periferia é tão acostumada com o negativo, que quando tem uma oportunidade vai dar importância para o que tem de bom.

 

Nas festas de aparelhagem, as mulheres não parecem tão preocupadas se estão acima do peso, se têm uma barriguinha saliente, usam roupas justas... 
Acho que é a liberdade que a periferia tem, uma coisa do povão. A vida é sua, você não tem que se preocupar se está acima do peso ou se seu cabelo está com a raiz preta e a ponta loira. Ninguém quer nem saber. As mulheres têm celulite, têm barriguinha, fazem chapinha no cabelo, e se não tem chapinha passam o ferro quente! Mas vão para a festa do mesmo jeito, vão se divertir da mesma forma, não tem essa cobrança. Não tem ninguém anoréxica, bulímica. Elas são felizes do jeito que são e se acham gostosas.

Você se acha bonita? 
Me acho, sou megavaidosa, adoro me cuidar, usar maquiagem. Gosto de ficar me olhando no espelho, me acho gostosa [risos]. E quando você se valoriza é contagioso, recebo muitos elogios. Adoro botar uma foto na internet e as pessoas curtirem. Tem gente que tem raiva de quem tem a autoestima alta, de pessoa feliz. E tem tanta mulher linda que fica procurando defeito: “Vou fazer uma lipo aqui”, “tenho que tirar não sei o quê”, “meu nariz não está bom”. São mulheres que não se aceitam do jeito que são.

Você se aceita do jeito que é? 
Agora sim. Mas foi uma coisa que adquiri com o tempo. Antes de ser mãe, tinha um megacomplexo de inferioridade. Me achava gorda, não me sentia bonita. É impressionante como a maternidade fez aflorar uma beleza que eu desconhecia. Antes ficava chorando, e olha que era muito mais magra do que sou hoje...

Já fez plástica? 
Fiz uma lipo depois da gravidez. Mas não quero ser uma mulher magra, gosto do meu biótipo, apesar de querer perder uns 6 quilos para ficar... ah, tranquila. Adoro comer. Agora tenho o patrocínio de uma clínica estética. Faço basicamente limpeza de pele e hidratação no cabelo. Mas já gastei muito dinheiro com drenagem linfática, carboxiterapia, hidrolipoclasia.

E preconceito, já sofreu? 
Uma vez, uma banda não me quis porque eu sou negra e porque me achavam gorda. Soube disso depois e fiquei muito triste. E, em outra vez, fui gravar um DVD com a TecnoShow num clube de classe A de Belém, e a produtora me discriminou porque a galera não queria tecnobrega na casa. Pediram para eu parar meu show porque ali não tocava aquele tipo de música. Falei: “Não, vou terminar!”. E terminei. Foi horrível, a pior discriminação que já sofri, na minha própria cidade, de uma elite preconceituosa. Tem uma parada aqui que são os “amigos do silêncio”: alguns desembargadores, advogados, pessoas influentes que são contra as festas de aparelhagem porque são muito barulhentas. E falam que geram droga, violência, que só têm ladrão...

E quem são, de fato, as pessoas que frequentam as festas? 
Tem de tudo: criança, gay, traficante misturado com família. A periferia é altamente tolerante. Você vai na festa e vê atitudes de pessoas livres, sem opressão. Quando o [cineasta francês] Vincent Moon fez o registro do meu show no Jurunas, teve um momento em que toquei uma música, meio lambada, e um garoto de 10 anos estava tendo uma performance totalmente homossexual. Chamei o menino para subir no palco, e ele foi, “frescando” muito, dançando. Quando acabou a música, perguntei seu nome, e ele disse: “Tiffany Wilson”. Todo mundo vibrou. Ali, as pessoas entendem que aquela criança já demonstra ter uma orientação sexual. Mas não sei como reagiriam se isso acontecesse em São Paulo, por exemplo.

Essas festas existem há mais de 30 anos, mas só agora estão ficando conhecidas pelas pessoas de fora do Pará. Por quê? 
Porque sempre foram vistas como uma coisa exótica. As pessoas vêm aqui, ouvem, acham legal, mas a música não rompe fronteiras, porque você está falando de coisas que as pessoas lá fora não sabem o que é. Foi por isso que resolvi fazer o meu disco, que tem música falando de aparelhagem, mas músicas autorais também.

 

“Sinto uma alegria fake nas pessoas, uma necessidade de uma coisa que não seja fabricada. Minha luta vem de anos. E o tecnobrega vai pegar de verdade”

 

No Rec-Beat 2010, você cantou pela primeira vez “Xirley Xarque” (de autoria do pernambucano Zé Cafofinho), que depois rendeu o clipe. Como essa música entrou no repertório? 
Por acaso. Eu tinha ouvido no rádio quando estava numa van, lá em Recife. Na hora do show, com o teclado queimado, lembrei dela e falei para o público: “Gente, ouvi uma música hoje, não sei se vou cantar direito, mas me ajudem”. Aí comecei: “Saia vermelha, camisa preta...”. Todo mundo sabia cantar porque era um sucesso regional. E ela sintetiza o universo do tecnobrega, essa coisa do “eu vou samplear, eu vou te roubar”. Porque o tecnobrega começou se apropriando de músicas internacionais, foi a gente que começou com o movimento da pirataria, de gravar o CD e levar para o camelô. Agora vários segmentos fazem igual, principalmente o forró.

O que acredita que vai acontecer com a indústria fonográfica nos próximos anos? 
Vejo o futuro sendo a internet, com a possibilidade de disponibilizar a sua música por YouTube, 4Shared... A obra é minha, faço o que quiser. Isso é a libertação! Vai ficar cada vez mais complicado para as gravadoras. Elas ainda são importantes para profissionalizar o artista, mas vejo isso, cada vez mais, como um movimento de reconhecer quem já está fazendo sucesso e não de apostar no novo. Não vai mais ser aquela mesmice, aquela repetição de uma fórmula que “deu certo”. Quando vou a festas, sinto uma alegria fake nas pessoas. Quando leio resenhas sobre mim, sinto uma necessidade das pessoas de algo novo, de um movimento que traga uma verdade. Uma coisa que não seja fabricada. Minha luta vem de anos. Não é uma gravadora ou um grande empresário que está injetando grana no meu trabalho. E o tecnobrega vai pegar de verdade. A gente está chegando dignamente, trazida por mãos preciosas.

Quando diz “a gente” está se referindo a quem mais? 
A outros artistas do Pará que acho incríveis: Felipe Cordeiro, Lia Sofia, que tem uma pegada mais parecida com a Fafá de Belém, meio MPB, misturada com carimbó, um regional que é pop. A Gangue do Eletro, que já tem mais a ver com o meu som, é um tecnobrega mais punk, mais de MC. O que está acontecendo não é um movimento só do tecnobrega, mas sim da música paraense chegando para o resto do Brasil. Uma música que tem várias vertentes. E quando falo de outros artistas não é assim: “Vamos falar que somos amigos, mas nos alfinetamos por trás”. A gente realmente se respeita, se gosta, tem amizade. Tem música do Felipe no meu disco, eu participo do show da Lia, já gravei música com a Gangue. Assim estamos criando uma rede nova de artistas paraenses.

Não rolam comparações entre vocês e até mesmo com artistas como Fafá de Belém e banda Calypso? 
Não. Eu megarrespeito artistas como a Fafá, que é maravilhosa. Acho a banda Calypso incrível. Não tenho esse pensamento de que vou tomar o lugar delas. Vou conquistar o meu espaço, e quero interagir com todo mundo, agregar. A Thalma [de Freitas, atriz e cantora], a Orquestra Imperial me ensinaram a reverenciar outros artistas. Porque, quando você faz uma participação no show deles, te tratam como uma majestade. Quando vi aquilo, acabou qualquer possibilidade de ter rivalidade com outro artista. Foi uma lição de humildade.

Você começou cantando na igreja antes de chegar à aparelhagem. Como foi sua trajetória? 
Nasci numa família de sambistas, então cresci ouvindo Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Cartola, Pixinguinha, Alcione, Beth Carvalho. Tudo isso aliado ao brega. Ouvia muita música popular: lambada, guitarrada, carimbó, todas essas sonoridades paraenses. Tinha os ícones de Belém que iam beber no bar do Brega, que ficava perto da minha casa: Juca Medalha, Teddy Max, Francis Dalva e Cícero Rossi, que era uma espécie de Reginaldo Rossi. Eu queria ser professora. E fazia um trabalho social na igreja de Santa Teresinha, no Jurunas. Era do movimento jovem, militante, sempre fui líder. É uma característica minha, de 
leonina. Até que, quando tinha uns 15 anos, inventaram de fazer um karaoke na igreja, e cada grupo tinha que escolher um representante. Me colocaram pra cantar de brincadeira. Quando comecei “Sou caipira, pira pora...” falaram: “Ela canta!”. Foi uma surpresa pra mim também. Aí me convidaram para cantar na igreja.

Católica? Sim. Mas nessa época não tinha padre Marcelo Rossi, não podia fazer movimentos como erguer os braços. Era totalmente sacro, canto gregoriano. E eu já chegava falando: “Vamos lá, gente, levantem os braços!”. Usava umas roupas mais curtinhas, já queria causar na igreja [risos]. Aí o pessoal falou: “Não vai dar certo, você é muito animada...”. Me tiraram do grupo. No dia em que isso aconteceu, fiquei muito triste e fui tomar um sorvete com uma amiga. Na sorveteria, tinha um músico tocando voz e violão, que me conhecia. Ele me mandou um bilhetinho: “Quer cantar uma?”. Nessa época, Marisa Monte era a descoberta da vez, e cantei “Ainda lembro”. Sabia também músicas da Bethânia, da Elis... Mas depois de um tempo falei para o cantor: “Você toca brega? Vamos animar isso aqui!”. As pessoas começaram a levantar pra dançar. A partir daí, formamos um trio com outro cara e tocávamos pop, soul, tudo.

 

“Tuitei que estava ouvindo The Who e 90 pessoas comentaram, dizendo que não é possível eu gostar de rock. Gente, gosto de Pantera, de Slipknot, de thrash metal”

 

Dali você fundou a banda TecnoShow? 
Sim. Fiquei oito anos com ela. Mas, no fim, já estava pensando em voltar a cantar MPB em bar...

Por quê? 
Porque fiquei três anos puxando a banda sozinha. Chegamos a morar todos juntos numa casa, tipo Novos Baianos. Namorei por cinco anos o produtor. Depois terminou, os outros músicos foram saindo da casa também. Pensei em desistir do tecnobrega. Estava cansada de lutar por uma coisa e ela não crescer. Estava numa vibe ruim.

 

Foi nessa época que engravidou? 
Sim. Me envolvi com um amigo e acabei engravidando por acidente. Quando contei, o cara falou: “Não quero isso”. Mas eu queria e resolvi assumir a parada. Nunca mais falei com ele. No início sofri muito, chorava todo dia. A gravidez foi muito solitária. Pensava: “Como vou segurar essa barra sozinha? Minha carreira vai acabar! Como fazer show com essa criança? Como vou sustentar esse filho?”. Foi muito punk. Mas depois que o moleque nasceu comecei a receber propostas para cantar de novo. Fui no Faustão, participei do Rec-Beat. O Davi trouxe uma onda de energia para minha vida. Aí foi um boom na minha carreira. Eu estava mentalmente, espiritualmente mais madura para receber isso.

O que mudou? 
A maternidade me trouxe uma centralização. Agora tenho foco, tenho essa pessoa que depende de mim, tenho que dar o melhor para ele. Se não tivesse rolado esse filho, acredito que estaria numa vibe de farra, sem um trabalho profissional, ainda brincando de banda.

Você viaja muito e ele passa a maior parte do tempo com sua mãe. Você considera que o Davi é criado pela avó? 
Minha mãe é como se fosse mãe dele, e eu faço o papel do pai: vou pra rua trabalhar, vou atrás do dinheiro, de dar estabilidade. Esse é o papel que meu pai fazia.

Como foi a sua infância? 
Minha mãe costurava, lavava roupa pra fora, era consultora da Avon, fazia bonecos, vendia salgados... Fez tudo o que pôde para pagar escola particular para a gente. Meu pai era guarda de um banco. Foi promovido pra caixa, depois pra gerente e acabou sendo demitido porque não admitiam um negro gerente. Fizeram uma armação para ele perder o emprego depois de 28 anos de banco. Foi a única vez que vi meu pai chorar. Nós morávamos numa quitinete. Teve uma época em que dormíamos os cinco na mesma cama de casal: eu, meu pai, minha mãe com minha irmã, que era bebê, no colo, e ela, grávida, dormia sentada. A gente nunca passou necessidade, mas sempre foi apertado. Meus pais iam trabalhar e trancavam a gente em casa. Eu tinha uns 6 anos, era a mais velha, então tinha que cuidar dos dois menores [Gabriele, hoje com 29 anos, e Gabriel, 31]. Preparava o almoço, dava banho, víamos TV. Lembro de quando vi Flashdance, passei um ano usando polaina e maiô, imitando aquelas coreografias.

Hoje em dia, o que gosta de escutar, o que inspira você? Outro dia, tuitei que estava ouvindo The Who e 90 pessoas comentaram indignadas, dizendo que não é possível uma cantora de tecnobrega gostar de rock. Eu falo: “Gente, gosto de Pantera, de Slipknot, de thrash metal”. Led Zeppelin, Black Sabbath, são coisas que escuto só para conhecer, mas gosto de música de doido, de bate-cabeça. E pesquiso muito músicas de outras periferias, do Brasil, da Argentina, do Peru, da Jamaica. Meu hobby é ouvir música o dia inteiro.

Você ficou rica com a música? 
[Pausa] Fiquei. Para o que era... Quando criança, tinha uma calça jeans, um tênis, umas três blusinhas. Era a mesma roupa para ir para a escola, para um aniversário e para a missa.

Como gasta seu dinheiro? 
Sou o esteio da minha família. Meu pai ganha dois salários mínimos num almoxarifado, e minha mãe parou de trabalhar. Se precisa ir ao médico, comprar óculos de grau, se falta alguma coisa, sou eu que compro. E investi muito para terminar a casa, que era o sonho dela.

Você estava usando óculos Prada outro dia. É consumista? 
Sempre fui razoavelmente consumista. Adoro óculos escuros e comprava uns de camelô muito toscos. Mas minha vista ficava doendo, era uma coisa que me fazia mal. É mais por aí do que pela marca. Não sou it girl. E meu figurino para shows é uma coisa muito minha. Gosto de moda. Outro dia comprei um livro de um estilista que amo, o Thierry Mugler, que é dos anos 90, e já fazia figurinos modernos como os que Lady Gaga, Beyoncé, Madonna usam.

 

“Não sou mulher de ficar cobrando. Mas sinto mais no sexo feminino esse grude, essa vontade de estar com o cara o tempo todo”

 

Tem vontade de casar, formar uma família? 
Não sei se casar, mas quero ter uma família, sim. Se o pai do próximo filho pelo menos for companheiro, segurar as pontas comigo, já está ótimo.

O fato de ser mãe faz com que os homens tenham mais receio de se aproximar de você? 
Não sinto isso. Ao contrário, os namorados que tive depois que o Davi nasceu curtem. Isso é um reflexo dos novos tempos. Tem muita mãe solteira por aí. E rola uma parada legal: antes eu sofria muito com fim de relacionamento. Depois do Davi, isso deixou de ser a coisa mais importante do mundo. O meu sentimentalismo mudou, meus valores mudaram. Não vou perder tempo sofrendo por um cara se tenho o sorriso lindo do meu filho, ele me completa de alguma forma. Sou feliz se estiver com um cara, mas não precisa estar 24 horas grudada. Ficar fuçando em celular, em Facebook... desencanei total. Quero é ser feliz. E acho importante a mulher ter um comportamento diferente do comportamento do homem, porque a natureza dela é diferente, não adianta querer forçar uma natureza masculina.

Como assim? 
Não é uma posição machista, ao contrário, é feminista, de acreditar que a mulher deve se assumir como mulher: cuidar do companheiro, ser amorosa, não cobrar. Não sou mulher de ficar cobrando o cara, sou muito tranquila.

Não cobrar em que sentido? 
Deixar o cara ter a liberdade dele. Se quer jogar bola, se quer viajar sozinho, se quer tomar cerveja com os amigos. Tem mulher que fala: “Tem que me levar”. Deixa o cara, ele precisa do espaço dele. Acredito em casais que dormem em quartos separados. Tem o momento em que quero ficar junto, dormir de conchinha, e tem o momento em que quero me esparramar. Sou da madrugada, fico compondo, pego meu teclado ou meu violão e fico fazendo barulho. Gosto de ter meu momento íntimo de inspiração, de ler. Mas sinto mais no sexo feminino esse grude, essa vontade de estar com o cara o tempo todo. Ao mesmo tempo, adoro romantismo. A gente precisa uns dos outros para se estimular, para a vida ficar mais leve.

Pensa em se mudar da periferia? 
Não. Vou ficar no Jurunas, no meu bairro. Moro numa casa boa. E quero fazer um trabalho social lá. Sou a voz da periferia. Tenho a missão de divulgar não só o cenário do tecnobrega, mas a música paraense para o mundo. Daqui a alguns anos, acredito que vou estar agenciando outros artistas. Hoje tudo isso é novo. É muito difícil alguém que pegue na sua mão e diga: “Vou te ajudar”. Mas quero continuar quebrando fronteiras, acabando com essa coisa das tribos: indie, rock, sertanejo, MPB... Vamos misturar esse negócio, é tudo música brasileira, e elas podem dialogar. Me vejo fazendo tudo isso do Jurunas. Posso até passar uma temporada fora do país, mas lá é minha casa, é meu alimento, minha fonte de energia. É para onde volto para lembrar quem sou.

Diga-me com quem andas...
Gaby sob o olhar de colegas veteranos (colaborou Amanda Nogueira) 

“É um dos grandes talentos brasileiros recentes, como cantora e figura pop. Em 2006, a vi em um show da [banda paraense] La Pupuña. Gaby entrou com uma roupa prateada, ninguém conseguia parar de olhar para ela. Já participou de shows da Orquestra Imperial e canta gafieira, pop americano, tecnobrega. Ela é musicalmente superdotada. Difícil retomar o show depois de sua entrada.”

Kassin, produtor e músico da Orquestra Imperial

“Conheci Gaby durante o VMB, na MTV, mas já sabia de seu trabalho por amigos. Ela tem luz, uma força de cantora, de artista, uma voz e uma atitude muito bacanas. Estava faltando alguém como ela na nossa MPB. Acho que a gente combina.”
Otto, cantor

“A Gaby tem uma voz poderosa, carisma e presença de palco. Traz a música da periferia com força e propriedade. O norte fica lá em cima, e cada pessoa de lá que chega por aqui é mais um de nós falando sobre nossa terra e pluralidade cultural. Bem-vinda, Gaby!”
Fafá de Belém, cantora

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