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Na cama com Madonna

por Camila Eiroa

Intenso e de voz poderosa, Johnny Hooker faz barulho na cena musical nacional e prova que representatividade importa

Fila na porta da Galeria Olido, no centro de São Paulo, e ingressos esgotados em seis minutos. Johnny Hooker já é uma estrela, mas chega de maneira discreta na passagem de som: jeans, óculos intelectual, tênis e camiseta básica. Quando toca o terceiro sinal no teatro, vem a transformação. O cantor é recebido por um público disposto a brigar pelo melhor lugar na plateia aos gritos de "destruidora", "poderoso" e "eu te amo". Agora o figurino é cheio de brilhos, meia calça com direito à calcinha fio dental aparecendo e muita maquiagem.

Johnny nasceu no Recife e ainda pequeno foi para Candeias, bairro de Jaboatão dos Guararapes (PE). Lá, começou a arriscar suas primeiras composições. "Eu soube que eu queria fazer música com oito ou nove anos, quando assisti o VHS do filme Na cama com Madonna. Decidi que era aquela vida eu eu queria; viajar pelo mundo com minha trupe cigana fazendo shows", conta. Filho de fotógrafos, cresceu rodeado de referências como David Bowie, que tocava em "qualquer almoço de família". Hoje aos 28 anos, diz que "Bowie é o painho, Madonna é a mainha e Caetano Veloso é o espírito santo. É a tríade que me forma como artista".

"Se querem chamar ela de puta, vão ter que me chamar de puta também"

John Donovan de registro, adotou o Hooker [prostituta em inglês] na pré-adolescência. Para a Tpm, ele conta que era uma "criança meio adulta", e que fazia parte do grupinho dos excluídos. "No colégio, me apaixonei perdidamente por uma menina que sofria bullying por ser sexualmente muito livre. Minha admiração por ela era tanta que a pedi em namoro e falei: se querem chamar ela de puta, vão ter que me chamar de puta também." Foi nessa época, aos 14, que surgiu a primeira banda e algumas músicas que estão no repertório até hoje, como Amor marginal.

Like a rolling stone
A carreira como cantor ganhou forma em pequenas apresentações que fez em festivais regionais. Em 2009, participou do show de talentos Geléia do Rock, do Multishow, e então veio o primeiro grande convite: escrever a trilha do filme Tatuagem, dirigido por Hilton Lacerda e que viria a ser lançado em 2013. Volta ganhou clipe ao mesmo tempo de o filme bombar no circuito independente nacional. Em seguida, foi convidado para o seu primeiro papel na dramaturgia, o personagem Thales da novela global Geração Brasil — mais uma vez com música na trama, agora com Alma Sebosa.

Era a hora de correr para gravar o disco. Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito foi lançado em fevereiro de 2015, sem apoio e com o dinheiro do próprio bolso. Ainda sem versão física, o material online foi para o primeiro lugar do Deezer e do iTunes na semana do lançamento. Hoje, pouco menos de um ano depois, a primeira faixa já tem mais de 1,5 milhão de plays no Spotify.

"Queria lançar um disco típico de dor de cotovelo, como o Back to black da Amy ou as próprias músicas do Lupicínio Rodrigues. Aquele disco da separação, sabe? [risos]", conta Johnny. Suas canções, embora tristes, não são autobiográficas. A paixão que nutre pelo cinema faz com que o repertório como um todo seja uma grande história fragmentada em pequenos episódios. "Sem dúvida a gente tem que sentir essa dor para saber como transmitir isso nas músicas. Eu tive separações bem traumáticas, mas me inspiro no que vejo por aí", afirma.

O sucesso foi tanto que ele ganhou o 26º Prêmio de Música Brasileira como melhor cantor em 2015, se apresentou ao lado de Alcione e Fafá de Belém regravou o hit Volta. "Devo confessar que me assustei quando os shows começaram a lotar. A primeira vez que a gente veio tocar em São Paulo, tinham 1200 pessoas. Quando subi no palco, gelei! Demorei umas três músicas pra recuperar o fôlego", lembra.

O clipe de Amor Marginal, recém lançado, foi dirigido pelo seu namorado e o próximo single a ganhar vídeo é Segunda chance, com direção de Marina Person — de quem é fã — e lançamento previsto para o começo de 2016. Um próximo disco também já está sendo pensado para 2017. "Tem uma música chamada Caetano Veloso. Informação exclusiva, hein?", brinca o cantor.

Representatividade importa

Além do papel de ídolo, Johnny tem outra responsabilidade com seus fãs: com letras que contemplam romances gays e nenhum motivo para deixar isso de fora dos clipes, é notável a representatividade que meninos e meninas enxergam e depositam nele. "Tento empoderar as pessoas com meu discurso. Hoje, tenho essa responsabilidade e é incrível mudar a vida dessas pessoas. Meu primeiro namoro foi com uma menina, mas nunca tive uma obrigação de me apaixonar por meninos ou meninas. Não descarto a possibilidade de me apaixonar por uma outra mulher, mas acho muito difícil [risos]", diz.

"A gente deixou muita gente podre entrar no poder [...] Eles são poucos, o problema é que são barulhentos"

Ele considera que seu trabalho tem certo papel político, mas acredita que não é preciso ter medo de qualquer retrocesso que se ameaça no cenário atual. Para Johnny, o segredo é ter menos ódio e deixar que as pautas das minorias caminhem lado a lado para que ganhem coro. "A gente deixou muita gente podre entrar no poder, mas não vejo uma onda reacionária chegando com força. Eles são poucos, o problema é que são barulhentos".

Durante a conversa com a reportagem, Johnny cita de astrologia a orixás e além disso, algumas de suas canções fazem referência a religiões africanas. Mas quando perguntado sobre suas crenças, nega seguir alguma religião. "Não sigo nenhuma doutrina, mas me identifico muito com o Candomblé e seus deuses. Eles têm uma coisa muito bonita que são os aspectos humanos; desejo, amor. São divindades, mas são humanos, entendem o sofrimento mortal", diz.

Toda essa mistura faz do cantor uma pessoa muito intensa. Em suas palavras, "Johnny Hooker é uma mulher em fúria dentro do corpo de um homem com os olhos marejados de lágrimas". E, por estar nesses dois personagens ao mesmo tempo, é mais do que um novo nome da música brasileira. Johnny se assume, se joga, se arrisca e acolhe antigos e novos fãs de um cancioneiro romântico que fala do que todos sentem, sem medos ou rodeios. 

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