Capítulo 4: O que o futuro reservaria para as privadas?

por Milly Lacombe

Nada parecia normal na rotina de Otávio e Marina. Mas o que isso poderia significar diante da enorme lista de coisas estranhas acontecendo? Acompanhe mais um capítulo da história de Milly Lacombe

Perdeu os primeiros capítulos desta história? Leia aqui.

Quarentena, dia 7

Otávio acordava a cada dia mais cedo. Eram cinco e quarenta, seus olhos estavam abertos e seu corpo pronto para sair da cama. Mas sair para ir aonde? Fazia duas manhãs que entrava em aulas de ioga pelo Zoom e sentia dores em músculos que ele nem sabia que existiam: nas axilas, no pescoço, na planta dos pés… Será que conseguiria praticar outra vez naquela manhã? Por causa do horário, não achou que precisasse avisar Marina que ia sair do quarto, mas resolveu ser comportado e mandar uma mensagem.

Foi ao banheiro, levantou a tampa da privada, encarou aquela água ali parada esperando o descarte e decidiu que ia se sentar para fazer xixi porque, se fizesse isso, talvez pudesse lavar o banheiro de três em três dias, ou de quatro em quatro, quem sabe. Virou de costas para a privada e sentou pensando que privadas eram objetos engraçados: vasos com uma aguinha rasa parada aguardando a queda de excrementos que, por causa do fundo d’água, não se estatelariam e poderiam flutuar.

O que o futuro reservaria para as privadas? Será que um dia elas seriam vistas como hoje vemos os penicos? O jato começou a passar pela uretra; sensação estranha a de fazer xixi sentado. Não necessariamente ruim, mas estranha. Se enrolou um pouco para sacudir o pau sentado, mas imaginou que era falta de prática. Lavou as mãos porque, das poucas coisas que pescava a respeito do noticiário, lavar as mãos maniacamente era a recomendação mais recorrente. Ele de verdade não tinha esse hábito depois de urinar.

Marina andava repetindo coisas sobre sua falta de higiene. Será que ela estava certa sobre isso? Na cozinha, notou que a geladeira estava cheia. Marina devia ter pedido entrega do supermercado e ele nem tinha escutado as compras chegando. Estava dormindo muito cedo, seria isso? A que horas as compras tinham sido entregues? Não sabia direito o que estava acontecendo no mundo, o ritmo que as coisas haviam tomado. Só estava falando com sua mãe por chamada de vídeo, e ela não era muito de ficar presa ao noticiário. Fora isso, não possuía conta em rede social e há anos não lia os jornais.

Pensou que talvez devesse se informar melhor a respeito dessa pandemia. Deveria? Gastava as horas lendo livros em seu Kindle, escutando música ou tocando alguma coisa no violão, além das aulas de ioga que há dois dias faziam com que ele se dobrasse e se esticasse como nunca imaginou ser capaz. Lembrou que não bebia nada de álcool desde que tinha entrado no quarto para a quarentena e ficou feliz em saber que podia viver sem aquelas duas doses de uísque que ele tão disciplinadamente fazia durar a noite inteira. Mas decidiu que quando o sol se pusesse pediria a Marina para dar a ele uma dose.

Como ela reagiria? Ele mal tinha trocado mensagens com ela no dia anterior. Escutou Marina liderando reuniões da mesa de jantar, achou a voz dela mais tensa do que o normal e até por isso optou por não trocar muitas mensagens ou mesmo sair do quarto se não fosse de extrema importância. Quando os 10 dias se passassem, imaginou que seria educado se oferecer para ir ao supermercado. Precisaria de uma lista detalhada porque não fazia muita ideia do que comprar, era raro que ele fosse o encarregado do supermercado.

Marina normalmente pedia para que as compras fossem entregues, ela gostava de cuidar dessas coisas da casa. E nas poucas vezes em que ele precisou ir às compras voltou para casa com os produtos errados: ou a marca não era a mais adequada, ou a carne não era a da melhor qualidade, ou o queijo não era o mais fresco. Marina era bastante específica em relação às coisas que consumia e ele, desatento, acabava mais atrapalhando do que ajudando.

Marina acordou às dez e antes mesmo de levantar checou o celular. Viu uma mensagem de Otávio antes das seis da manhã e achou outra vez estranho. Mas a atual lista de coisas estranhas acontecendo era tão enorme que não perdeu tempo com isso e foi tomar um banho antes de fazer o café. Tinha suado muito durante a noite mesmo ligando o ar-condicionado a fim de deixar o quarto com a temperatura de um dia de inverno na Noruega. Diante daquela suadeira teria que lavar os lençóis, o pijama e as fronhas de dois em dois dias… Que trabalheira.

O que tinha acontecido com o mundo, com seu corpo, com seu relacionamento, com seu trabalho? Por que as coisas não poderiam apenas permanecer como antes? Um trabalho dentro do qual ela se sentisse segura, um marido que a amava, um corpo que ela podia controlar. Adorava seu corpo, adorava seu peso, adorava sua pele. Mas nos últimos meses começou a se achar mais gorda, mais flácida, mais pálida. Pensando bem, fazia semanas que dormia mal, semanas que se arrastava para fora da cama sem ânimo. Por que só agora tinha percebido isso? Foi ao banheiro e encarou seu rosto no espelho. Meu Deus, quem era aquela mulher? Esticou a pele do rosto com as duas mãos para os lados e soltou. Fez isso algumas vezes. Há quanto tempo ela não se olhava? Saiu do transe quando escutou o celular tocando.

– Oi, Joana

– Oi, Marina. Estamos aqui te esperando

– Onde?

– No Zoom

– Meu Deus, eu esqueci. Entrando em 5 minutos. Me perdoa

Definitivamente alguma coisa estava fora da ordem. Esquecer de uma reunião de sócios deixava isso cristalino. Colocou o roupão, fez uma xícara de café o mais rapidamente que pôde e entrou na reunião lembrando de deixar a câmera do computador desligada. O silêncio que saía do quarto de Otávio a deixava perturbada e nenhuma hipótese para aquela quietude a agradava: Otávio estar morto ou estar em paz.

Esta história continua. Acompanhe os próximos capítulos na Tpm.

Créditos

Imagem principal: Manhã Ortiz

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