por Cristiane Ramalho
Tpm #98

Alice Miceli resolveu encarar o risco da radiação e faz arte na cidade fantasma Chernobyl

Carioca, 30 anos, bonita, inteligente, viajada. Depois de ter estudado cinema em Paris e artes no Rio, Alice Miceli poderia levar uma vida mansa. Mas quis fazer arte em um dos lugares mais desolados do planeta: a zona de exclusão de Chernobyl, entre a Ucrânia e Belarus

Criada numa família de intelectuais de esquerda do Rio, entre livros de arte, boas escolas e a brisa da praia, Alice Miceli, 30, poderia escolher caminhos fáceis. Mas a artista carioca é do tipo que gosta de um desafio. Em meio à neve e ao frio cortante do inverno de Berlim, onde mora sozinha há três anos, ela não desiste de andar de bicicleta. Nem de correr, seu esporte favorito. Sua arte segue a mesma trilha. Para fazer seu mais recente trabalho, ainda inédito no Brasil, Alice mergulhou na zona de exclusão de Chernobyl - região até hoje contaminada pelo maior acidente nuclear de todos os tempos.

Embora não seja o melhor lugar do mundo para estar, ela foi oito vezes à região, levada pela obsessão de registrar o invisível: os rastros da radioatividade. "O lugar é lindo. É como se fosse uma reserva natural. Só que está tudo envenenado e isso você não sente, não cheira e não vê." A não ser, conta Alice, pelas casas abandonadas com restos de louça, roupa, brinquedos, livros e jornais. "E pelos inúmeros casos de câncer que ainda são registrados", lembra a artista, que pendurou na parede da sala fotos em preto e branco que fez na região.

Nos últimos dez anos, Alice passou temporadas entre idas e vindas e rodou 150 mil quilômetros para estudar ou fazer arte. Seus destinos incluem França, Camboja, Indonésia, Finlândia e Belarus (antiga Bielo-Rússia) - onde fica parte da zona de exclusão de Chernobyl.

Formada em cinema em Paris, pela Escola Superior de Estudos Cinematográficos, foi assistente de direção de cinema e vídeo no Brasil. Trabalhou com diretores como Sandra Kogut, Silvio Tendler e Maurice Capovilla. Mas foi se aproximando, cada vez mais, da videoarte. O que se reflete na pós-graduação que escolheu fazer na PUC-RJ: história da arte e arquitetura.

Aos poucos, Alice vem conquistando espaço na Europa. Além de mostrar seu trabalho em países como Bélgica, Holanda e Espanha, já participou de quatro edições do badalado festival Transmediale, talvez o mais antigo festival de artes e novas mídias da Alemanha, criado nos anos 80.

"O lugar é lindo, parece uma reserva natural. Só que está tudo envenenado e isso você não sente, não cheira, não vê"

Extremamente conceitual, sua obra nem sempre é popular. Mas agrada a alemães como Stephen Kovats, diretor artístico do Transmediale. "O trabalho dela tem uma poética forte e, junto com metodologias e processos científicos, revela problemáticas políticas e sociais que são universais", explica. Chernobyl começou a surgir durante um grupo de estudos, coordenado pelo professor Charles Watson, na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro. Quando propôs o silêncio como tema, Alice pensou imediatamente na região.

Mas, até lá, seria um longo caminho. Para registrar a radioatividade, teve que desenvolver, com a ajuda de cientistas, uma série de experimentos. Começou com uma rudimentar câmera pin hole. Mas acabou adotando as "autorradiografias" - filmes de 30 x 40 centímetros capazes de registrar a contaminação do ambiente depois de um longo tempo de exposição. "O resultado é uma espécie de Santo Sudário", compara Alice. Nada a ver com fotografia, portanto. "Não vai dar para identificar se as imagens vêm de um prédio ou de uma árvore. Mas elas terão a forma da respectiva contaminação", explica a artista, que deu início ao projeto em 2006, ao ganhar o prêmio Sérgio Motta de Arte e Tecnologia.

Alice teve ajuda de pesquisadores do Instituto de Radioproteção e Dosimetria do Rio, assim como apoio do Instituto de Radiação Otto Hug, de Munique, que desde 1990 trabalha na região com diagnóstico e tratamento de pacientes com câncer - e abriu as portas de Chernobyl para ela.

"Ajudar Alice é uma forma de mostrar o que realmente significa a energia nuclear, pois o elemento que produz as imagens no filme também muda o núcleo das nossas células, produzindo câncer", diz a alemã Christine Frenzel, cientista do Otto Hug, lembrando que "a catástrofe pode voltar a acontecer em qualquer uma das mais de 400 usinas mundo afora". Christine gostou de trabalhar com a artista: "Ela é uma jovem ativa, flexível, corajosa e determinada".

"É como subir o Himalaia"
Nas oito visitas que fez a Chernobyl, nos últimos três anos, Alice ficou exposta à radiação durante quase 70 horas. Se sentiu medo? "Um pouco." E explica: "Risco sempre tem. Mas é um risco controlado. É como subir o Himalaia. Quem está totalmente a salvo?".

Segundo a artista, o perigo está na exposição prolongada à radiação. No seu caso, foram muitas visitas, mas de apenas um dia. O importante era evitar tocar nas coisas, lavar a roupa imediatamente após sair da zona de exclusão e usar sapatos "descartáveis", como galochas. "A contaminação é uma questão de tempo. Por isso, os guardas seguem rígidos turnos de trabalho", conclui.

A região, que fica entre Belarus e a Ucrânia, é uma terra de ninguém que isola um raio de 30 quilômetros ao redor da antiga usina. As casas continuam de pé e as árvores voltaram a crescer. "Mas cada coisa foi substancialmente alterada para sempre", lembra Alice, que enfrentava as longas jornadas de trabalho em jejum, já que levar alimentos é proibido.

A cada viagem à zona de exclusão, a moça precisou de uma suada permissão do governo, que autorizou sua entrada como integrante da equipe científica. Lá dentro, passava por uma sucessão de postos de controle, até uma última barreira, a partir da qual só se prossegue com um guarda. "É tudo supervigiado, mas os guardas têm GPS e acabam servindo de guia."

Durante as viagens para Chernobyl, Alice se hospedava num hotel "bem ruinzinho", na cidade de Gomel, a duas horas da zona de exclusão, no lado de Belarus. Para ir de Berlim a Minsk, capital de Belarus, pegava o trem russo Berlim-Moscou Express: "A viagem é uma tortura que pode durar até 25 horas".

Por tortura, entenda-se intimidade forçada - já que não há cabine privativa -, um banheiro imundo, uma luz branca de neon e nenhum vagão-restaurante. "Esses trens russos são ruins, velhos e cheiram mal", confessa a artista, que já precisou dividir uma cabine com uma avó, a mãe e um bebê. "A menina tinha um peixinho que cantava sem parar, a mãe trocava fraldas naquele espaço mínimo e com as janelas fechadas, e tínhamos que nos apertar em meio à tralha da família." Sem saída, a carioca socializou e acabou aceitando o frango frito oferecido pelas russas. Uma refeição bem-vinda para quem levava apenas barrinhas de cereais.

Ao chegar a primeira vez a Minsk, a impressão foi péssima. "Quase ninguém fala uma língua estrangeira [ela sabe francês, inglês, arranha alemão, espanhol e italiano] e não há cultura de turismo. Ninguém te ajuda", relata a artista, que passou a carregar um bloquinho com palavras básicas do alfabeto cirílico.

À medida que se vai para o campo, o clima muda. "Os camponeses ficavam agradecidos quando descobriam o que eu estava fazendo." Como Larissa e seus dois filhos, que Alice conheceu num jantar em Gomel, oferecido pelo alemão Scumeck Sabottka, dono da Agência MCT - um dos financiadores do projeto. "A Larissa é uma mulher de 40 e poucos anos e já viúva", conta. O filho mais velho era bebê quando o reator nuclear explodiu, em abril de 1986. "A mãe se assustou e saiu de casa correndo com o menino no colo. Até hoje, ele apresenta comprometimentos do raciocínio e da fala", conta a artista. O mais novo, beirando os 20, ainda se recupera de um câncer. Eles têm noção de que sofreram uma injustiça tremenda. Mas não são amargos nem acomodados", lembra.

Mídia arcaica
Alice tinha 6 anos quando o reator explodiu. A nuvem radioativa, além de contaminar regiões da antiga União Soviética, espalhou-se por Europa e Escandinávia. "Houve um pesar na minha casa, até pela simpatia que meus pais tinham pelos comunistas", diz a carioca, filha de antropólogos de esquerda - ex-guerrilheiro da VAR-Palmares, seu pai é professor de história da PUC-RJ. "Lembro das imagens na TV, que mostravam um lugar assombrado. Aquilo me marcou."

Alice se esquiva de ser enquadrada como uma artista engajada. "O trabalho, evidentemente, toca em questões políticas. E revela consequências do que está envolvido na geração gananciosa e irresponsável da energia nuclear. Mas não me cabe prever o impacto que terá sobre as pessoas." Acostumada a transitar pela videoarte, Alice é identificada na Alemanha com o grupo de "new media arts" (artes de novas mídias). Mas rejeita rótulos e lembra que a mídia usada em Chernobyl "é arcaica: novo foi pensar nela desse jeito".

O projeto teve estreia mundial em outubro de 2009, no México. Agora, o Brasil pode conferir o trabalho, na Bienal Internacional de Artes de São Paulo, prevista para começar em setembro.

 

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