por Mara Gabrilli

Trabalhar pela acessibilidade não é trabalhar para cadeirantes. É para garantir o direito de ir e vir de todos

As eleições chegaram ao fim e com ela uma avalanche de discursos, fake news, promessas e tentativas de fidelizar públicos e atacar adversários também tendem a cessar.

Este ano, teve candidato que prometeu trabalhar para as mulheres; outros, para as crianças, para a comunidade LGBT, para os negros, índios, pessoas com deficiência, empresários, agricultores, trabalhadores... E por aí vai.

Tempos atrás, quando comecei a traçar o meu plano de trabalho para minha candidatura ao Senado, passei a ser questionada sobre minorias, algo que para mim sempre foi muito orgânico, já que sou considerada uma. "Quem você vai defender, Mara?", "os gays terão vez em seu mandato?", "e os negros?", "e para as mulheres, quais são suas propostas?".

Minha resposta para todas essas perguntas foi uma só: vou trabalhar pelas pessoas. Pelo direito de todas as pessoas. Essa sempre foi minha conduta desde que entrei para a vida púbica. E no Senado não será diferente.

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A verdade é que nunca fiz questão de trabalhar um rótulo. A cadeira faz parte de mim, mas ela não representa a amplitude do nosso trabalho.

Costumo dizer muito que a cidade que é boa para quem tem algum tipo de mobilidade reduzida ou qualquer deficiência, seja temporária ou não, é muito melhor para quem não tem. Então trabalhar pela acessibilidade não é trabalhar para cadeirantes. É para garantir o direito de ir e vir de todos. Segmentar trabalho não é comigo. Agora, igualar oportunidades sim. E quando a vida de uma pessoa com deficiência melhora, a humanidade dá um salto de qualidade. Afinal, alguém que vivia à margem de todos os direitos ganhou dignidade.

Fico pensando quando falam insistentemente em defesa de grupos. Será que estamos de fato pensando nessas pessoas ou é nova tendência de mercado se dizer um defensor das ditas minorias? Será que são minorias? Mais da metade da população é formada por mulheres, assim como mais da metade da população é negra... E a liberdade na forma de amar? Até onde eu sei, amor não se mensura. Respeitar a opção de cada um é o que unicamente deveria importar.

Sempre acreditei mais em exemplos que em discursos, mas tenho visto por aí o ódio se disseminando em falas que não estimulam a cidadania, tampouco a democracia. A cada dia, discursos vazios e cobertos de intolerância e preconceito se propagam nas redes. Eu mesma fui vítima de ataques que se propagaram nas redes com mentiras ao meu respeito. Uma tristeza enorme para mim, que sempre tive uma conduta totalmente transparente, procurando sempre ouvir as pessoas independentemente de qualquer ideologia.

Essas eleições trouxeram à tona uma indignação que muitas vezes se converteu em raiva em qualquer que fosse a discussão: se o debate tivesse como base a defesa dos homens com barba, surgiam réplicas e tréplicas carregadas de argumentos raivosos de quem preferia o bigode.

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Será que representar as pessoas não deveria ser mais simples?

Tenho em minha equipe de trabalho um recorte que considero muito real da nossa sociedade. A gente tem cego, surdo, gago, autista, gay, negro, lésbica, héteros, jovem com síndrome de Down, idosa, evangélico, católico, espírita, loira, morena, careca... E eu não preciso fazer um discurso para cada um deles para representá-los. Isso a gente faz com trabalho, honestidade e decência, sem deixar de ouvir ninguém. Isso a gente faz, inclusive, dando espaço para a diversidade na própria política, que ainda é um reduto muito homogêneo.

Mas, como não faço o tipo de política que fica prometendo coisas, continuo acreditando no ser humano e na capacidade que cada um tem de se reinventar quando tem seus direitos garantidos. Minha vida e meu trabalho personificam esse pensamento.

Para mim, os direitos de cada ser humano independem de raça, cor, etnia, idade, origem, deficiência, sexo, religião, condição econômica ou social.

Não seria tão mais simples se todos nós trabalhássemos sem deixar ninguém para trás?

Está na hora de a nossa política falar menos e ouvir mais. Um mar de minorias que são gigantes cansou de ser personagem de novos, mas velhos discursos.

Créditos

Imagem principal: Arquivo pessoal

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