por Lia Bock
Tpm #165

Há a que canta, a que atua e a que escreve. E há, no mínimo, mais duas: uma que ama viver e ser jovem e outra que já pensou em não levantar da cama nunca mais

Há uma Clarice Falcão que garante ser uma péssima pessoa e outra que se engaja nas causas em que acredita. Há a que canta, a que atua e a que escreve. E há, no mínimo, mais duas: uma que ama viver e ser jovem e outra que já pensou em não levantar da cama nunca mais. Clarice seria fofa, se não fosse todo o resto. Clarice não é nada disso. Está em obras, rabiscando uma transformação que talvez aos 30 anos esteja definida. Ou não.  

Tpm. Muita correria com a turnê do disco Problema meu?

Clarice Falcão. É doido porque quando o show começa, o trabalho praticamente termina, sabe? A preparação é muito mais trabalhosa, ocupa muito mais tempo e dedicação emocional do que fazer o show em si. E também, como não me apresento todo fim de semana, não tem aquela correria. Acaba que quando tem show é uma alegria, fico: “Hoje tem show! Que legal!”. É um evento.

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Qual a diferença da Clarice do primeiro disco pra esse? Acho que hoje estou um pouco menos agoniada com o que os outros estão pensando. Até o nome do disco vem daí: Problema meu. O primeiro disco é mais narrativo, ele é uma grande história em pequenos capítulos, peguei um pedaço de mim e botei uma lente de aumento. Nesse agora sinto que há uma história para cada música. Canto vários lados meus, há várias Clarices.

Hoje o cenário da música é bem diferente do de décadas atrás. Como você vê o mercado atual? As coisas mudaram, mas não acho que foi pra melhor ou pra pior. Ganhamos algumas coisas e perdemos outras. A gente ganhou uma possibilidade de mostrar o trabalho sem ter panelinha, sem o cara da gravadora se apaixonar por você e sem jabá, por exemplo. Mostrei meu trabalho com violão para as gravadoras há alguns anos e ninguém quis saber. O que eu fiz? Botei na internet e foi. Mas por outro lado a gente não consegue mais ganhar dinheiro com a música em si, tem que fazer show, publicidade, enfim, tem que se virar – a não ser que você seja o Roberto Carlos ou a Beyoncé, claro. E como as pessoas têm uma infinidade de bandas para escolher, a briga é bem maior. Mas ao menos é briga em que todo mundo pode entrar.

As críticas te abalam? Sempre. Estou um pouco melhor agora. Mas no começo sim. Eu ficava péssima, eu queria mandar flores pra cada pessoa e falar: “Eu sou legal. Acho que você vai gostar de mim se me conhecer”. Até porque eu comecei na internet e internet é um lugar muito cruel pra qualquer artista, pra mulher então... Seção de comentário é o lugar mais deprê do mundo.

Você lê os comentários? Não mais. Se tem uma coisa que eu aprendi nesta vida é a não ler os comentários. Internet é fogo, cara. Na época do Porta dos Fundos era muito doido ver a diferença dos comentários para as atrizes e para os atores. Todo vídeo tinha alguém dizendo: “Ué, Clarice está grávida?” ou algo pior. Digamos que eu estava lá, tranquila, lendo minha seção de comentários, comendo pipoca e daqui a pouco começaram a vir umas paradas pesadas, agressivas. Sou carente, fico querendo que todos me amem [risos]. Foi duro ver que não dá pra agradar todo mundo.

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Mas o meio artístico colabora com isso criando padrões bizarros. Os comentários são só uma parte da questão, não? Com certeza. Por mais que eu seja magra, branca e de olhos claros, por incrível que pareça, para o meio artístico de entretenimento estou fora do padrão. “Você é feia, você é horrorosa, você é gorda.” Quando eu escuto esse tipo de coisa, a primeira reação é: “Que merda, eu sou tudo isso mesmo”. Só depois que vem o “não, espera aí!”. Que mundo é este onde a gente vive? Que padrão é esse que não cabe em ninguém? Imagina o que não deve ser pra uma pessoa que tem cem quilos a mais ou para as negras… É bem absurdo. Meu próprio sofrimento me mostra o quanto deve ser foda. Porque eu sofro com isso... Muitas vezes me sinto na cota. Já ouvi: “A gente te chamou porque você é diferente”. Aí rola um tapinha nas costas de: “Olha, a gente botou uma pessoa que está fora do padrão”. É bem cruel.

O que você pensa dessa fixação por beleza no Brasil? Eu acho muito danosa, principalmente pra mulher. É doido como a gente gasta tempo e dinheiro com isso. É chocante. E quanta energia emocional, né? Eu falo pra mim mesma coisas que eu nunca falaria para os outros. É uma merda. É como se a gente andasse com uma daquelas bolas de preso amarradas no pé. Olha… se eu gastasse o tempo que passo pensando no meu corpo em outras coisas, acho que falaria umas cinco línguas e teria lido todos os livros do mundo. Eu seria tão maravilhosa que vocês iam fazer todas as capas comigo [Risos].

Você recebeu algumas críticas quando fez o clipe de “Survivor”. Como foi isso? Cara, entendi total essas críticas. E na real, eu nunca quis ser um ícone feminista. Ainda mais depois de ler sobre feminismo intersecional. Quando fiz o clipe não estava pensando num manifesto feminista. Fiz o que eu achei que podia ser bonito. Pensei, “pô, vou chamar várias mulheres que eu conheço e admiro e algumas mulheres que eu não conheço também”. E eu e Célio, que dirigiu o clipe comigo, achamos maneira a ideia de dar o batom pra que cada uma delas fizesse o que quisesse. Quando o clipe saiu foi chamado de manifesto feminista. A princípio eu falei: “Pô, que legal que fizeram do meu clipe um manifesto”. Porque não era intenção. Depois, quando saíram as críticas eu concordei, e, quer saber, fiquei mal de ter achado legal dizerem que era um manifesto. Porque real-mente eu não tenho nem a carteirada da Academia nem uma vivência que justifique um lugar de destaque dentro do feminismo. Eu posso falar dos comentários da internet no meu vídeo, mas isso é um problema muito pequeno comparado com o que existe por aí. Problemas de pessoas que não são brancas e de classe média alta, héteros, cis.

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E isso mexeu com você? Claro. É difícil ser atacada pelo lado em que você está, né? Estou acostumada a ser atacada pelo de lá. Ser chamada de vagabunda por quem tem avatar que diz “Diga sim ao golpe”. E, sinceramente, esses aí podem me chamar do que quiserem, não quero mesmo estar do lado deles. Mas é estranho ser criticada pelas pessoas com quem você concorda. Foi difícil, mas eu gostei de ouvir, porque aprendi, pensei em coisas que não tinha pensado antes. Mas eu tenho meu ponto: discordo da militância que afasta. A gente milita pra agregar um movimento, e não pra afastar as pessoas. Entendo a militância agressiva, entendo o motivo de ter raiva, só acho que não é o jeito mais produtivo. É preciso compaixão e paciên-cia pra explicar. Fico pensando, a pessoa cometeu um erro, o que o outro quer? Que ela mude e passe a enxergar certo ou que ela morra? Muitas vezes não consigo entender qual dessas opções a pessoa quer que aconteça.

Existem muitas críticas aos esquetes machistas do Porta. Isso te incomodava? O Porta é gerenciado por cinco homens. Os roteiristas são todos homens e o elenco é majoritariamente masculino. Por um lado, me incomodava sim e eu, Letícia e Júlia estávamos sempre cutucando: “Pô, vê se a gente consegue uns personagens femininos mais legais”. E eles ouviam. Mas sei lá, dá pra entender, porque é a vivência deles, né? Eu poderia ter escrito? Sim. Espaço sempre teve. Mas além de não ter muita mão pra escrever esquete (é muita liberdade, fico um pouco desesperada, me perco), sempre tive meu trabalho paralelo. Então, se eu estava inspirada, ia escrever uma música pro meu CD.

Você imaginava que o Porta daria tão certo? De jeito nenhum. Eu achava que não ia dar em nada. Pensava “meu Deus, toda essa presepada e ninguém vai ver isso”. Mas o Ian tinha certeza de que seria o maior canal do Brasil. E eu: “Ai, meu Deus, lá vêm os macho tudo achando que vão arrasar”. E não é que arrasaram? Dá até raiva, né? [Risos]

Você tem 26 anos e já foi atriz de novela, de teatro, roteirista, humorista e agora está na carreira solo de cantora. Tá tentando viver 60 anos em 30? Cara, acho que estou tentando. O pior é que eu tenho muito tempo livre pra fazer besteira, pra fazer Snapchat. [Risos]

Tem uma coisa da sua geração de não se apegar a uma profissão. Você vê esse movimento? Vejo. E sempre penso que tem o perigo da superficialidade, de você só beirar as coisas. Mas também penso que uma coisa enriquece muito a outra. Cada vez que eu estou no palco cantando acho que estou aprendendo como atriz e até como roteirista, como contadora de história. E bom... Pelo menos já sei que há lugares por onde passei para onde não quero voltar! Novela, por exemplo. Realmente foi algo que não bateu pra mim.

Desde quando você mora sozinha, paga as suas contas? Quando eu fiz a novela A favorita, com 18 anos, comecei a pagar minhas contas. Ganhava R$ 2 mil por mês e morava na casa da minha mãe. Aos 23, quando saí da casa dela e casei, quer dizer, juntei, já tinha dinheiro para pagar o aluguel e minhas contas.

E você já voltou pra casa da sua mãe alguma vez? Dei uma voltada quando separei, mas não fiz meu quarto, não assentei, só voltei pra me reorganizar. Fiquei seis meses na casa dela pra me entender e resolvi morar com amigos. Desde junho do ano passado eu moro com dois amigos. Sem namorado, sem mãe… foi a primeira vez. E mudei de bairro também, hoje eu moro em Botafogo. E é outra coisa, estou muito feliz. Antes morava com a minha mãe no Leblon, e quando casei fui pro Alto Leblon, que é um mundo meio paralelo, sabe?

E é animada sua casa, tem muita festa? Tem. Ontem teve. Tem festa demais até. Tem que parar. [Risos] Tão acabando com a minha vida.

Você faz 27 anos daqui poucos meses, já pensa na chegada dos 30? Como saí da casa da minha mãe aos 20 e poucos pra morar com o namorado, acho que troquei uma época pela outra. Neste momento estou saindo todo dia, voltando às 6 da manhã. Basicamente estou me sentindo com 19 anos. Aquela energia: “Serei jovem para sempre, uhu!”. Então me dá uma certa tranquilidade pensar que os 30 estão próximos. Penso que daí vai ser Netflix todo dia! [Risos] Hoje, pra mim, os 30 anos são como uma miragem, uma luz no fim do túnel da juventude, porque acho que uma hora vou cansar. Tá bem intensa minha vida.

Mas aí com os 30 vêm as tias perguntando: “E aí, não vai ter neném?”. Ai, meu Deus. Não sei se eu quero. Mas acho que deve ser muito maneiro fazer 30 anos. Pretendo até lá ficar mais à vontade comigo mesma. Vai ser bom em algum momento falar: “É isso que eu sou, não vou melhorar. Parei aqui e tá ótimo”. Quem sabe até lá eu também decida sobre os filhos. Porque hoje fico muito em dúvida. Agora, estou no momento “não”. Mas às vezes eu tenho o momento “sim”. Gosto muito de crianças, mas em doses homeo-páticas. Gosto de pegar as crianças dos outros emprestadas.

Como foi sua criação? Nasci no Recife, com 4 anos vim pra São Paulo. Quando eu tinha 5 anos fomos pro Rio, aí fiquei. Minha mãe era muito paranoica, quer dizer, ela era ótima, mas era meio nervosa com tudo. Isso tem muito a ver com a história dela. Quando eu saía ela fica apreensiva, superpreocupada. Tinha um certo cuidado extremo. Mas ao mesmo tempo eu era muito livre para fazer minhas escolhas. Ela nunca olhou um boletim na vida, não sei se ela sabe como é um boletim.

Os pais da sua mãe têm uma história trágica, ambos se suicidaram, é isso? Na verdade, meu avô se suicidou e minha avó morreu de overdose de remédio 12 anos depois, mas não foi suicídio. Meu avô tomou 215 comprimidos e uma garrafa de Guaraná. Minha avó ficou péssima, claro, e decretou: “Nunca mais tomo Guaraná porque essa coisa não faz bem”. Mas ela continuou tomando os remédios e terminou morrendo por causa disso.

Como essa história influenciou você? Minha mãe estava grávida da minha irmã, dez anos mais velha que eu, quando meu avô se suicidou. Quando minha avó morreu, eu tinha 1 ano e pouco. Não me lembro de nada, mas a história me toca primeiro pela genética, já que minha avó tinha muita insônia, minha mãe tem muita insônia e eu tenho insônia. Também, como ela, tenho tendência a crises de ansiedade e síndrome do pânico. E segundo porque essa história toda fez da minha mãe uma pessoa superprotetora. Ela passou a vida tomando conta das pessoas. Minha avó tinha muitas crises. Ela era uma pessoa supercriativa e espirituosa que trabalhava como funcionária pública, acho que não tinha onde depositar a doidice, sabe? E naquela época essas doenças não tinham nem nome e nem remédio. Enfim, minha mãe tinha que mediar as constantes brigas dos pais e até segurar minha avó quando ela ameaçava se jogar pela janela. Não era fácil. Minha avó ameaçou se matar diversas vezes. Inclusive, não tinha um dedão porque uma vez ameaçou atear fogo a si mesma com ál-cool e fósforo e acabou pondo fogo na mão. Nesse contexto, acho que minha mãe ficou muito com a sensação de que precisava tomar conta de todo mundo pra que nada de mal acontecesse. Isso me atingiu indiretamente.

Você já pensou em se matar? Sou muito medrosa pra isso. Mas já pensei em nunca mais sair da cama, o que é uma forma covarde de se matar, tipo: “Não quero mais viver, então vou esperar a morte paradinha aqui”.

No seriado O fantástico mundo de Gregorio (2012), um dos capítulos gira em torno de você ser fofa. Isso era, ou ainda é, uma questão pra você? Durante muito tempo foi, sim, uma questão. Eu sen--tia que por alguma razão as pessoas acha-vam que eu era fofa. Mas nunca me achei fofa. Sou escorpiana, sou uma péssima pessoa, mas ninguém acredita. No primeiro CD até usei esse personagem porque achei que seria engraçado uma menina fofa falando absurdos, achei que a piada funcionaria melhor e o show também. Era tudo branco e eu falando “vou te matar”. Mas definitivamente: não sou fofa!

Sua trajetória profissional e a do Gregorio foram construídas juntas. Ainda é difícil falar Clarice e não citar Gregorio. Isso te incomoda? Não me incomoda no sentido de que como artista realmente a gente aprendeu e descobriu muita coisa junto. Essa coisa de entender qual voz queremos ter, o jeito que queremos falar, a gente foi entendo isso junto. Começamos o Porta juntos, fizemos uma peça, um filme, escrevemos juntos… Isso não me incomoda. Mas é chato quando passa pro pessoal. Por exemplo, no Instagram eu posto foto de um amigo meu e: “Ué, e o Gregorio?”. Cara, eu já terminei há um ano e meio... Já aconteceu de eu estar andando na rua e escutar “Gregorio”. Por que? Eu não sou o Gregorio, não estou com o Gregorio, não namoro o Gregorio, não sei por que você está gritando “Gregorio”. Acho que às vezes as pessoas fazem só pra irritar. Isso me dá raiva. Nesse ponto é chato. Mas profissionalmente eu entendo, temos mesmo muita coisa juntos. Aliás, este ano ainda vamos lançar um filme que fizemos e quem sabe no futuro a gente não volte a trabalhar junto? Gosto de trabalhar com ele.

Você acha que tem uma dificuldade das pessoas de aceitar a separação? Pode ser. Mas puxa, deu tão certo, foi tão legal. Fiquemos com isso né, pessoal?

Créditos

Foto principal: Pablo Saborido

Estilo Marcio Banfi

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