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VOCÊ PODE SER GAY

Quero retomar um episódio que já foi atirado à vala comum do esquecimento midiático. A do garoto que quase foi linchado moralmente quando resolveu assumir e declarar sua paixão por um estudante dos mesmos sexo e colégio que ele.

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Enquanto todo mundo se dedica a tentar entender o que levou este idiota de nome Mateus a metralhar inocentes, quero retomar um episódio que já foi atirado à vala comum do esquecimento midiático. A do garoto que quase foi linchado moralmente quando resolveu assumir e declarar sua paixão por um estudante dos mesmos sexo e colégio que ele.
Estamos preparando uma matéria sobre isso na revista que editamos chamada Jovem Pan e que fala com 300 mil adolescentes brasileiros todo mês. Acho que a relevância do tema merece esta antecipação no JT.
Primeiro alguns dados científicos que levantamos. Depois a carta que recebemos de um outro garoto de 17 anos. A reportagem foi feita por Bia Sant’Anna.

‘… Um dos trabalhos pioneiros no campo da sexualidade, realizado pelo zoólogo americano Alfred Kinsey, nas décadas de 40 e 50, propõe que o comportamento sexual humano varia dentro de uma escala.
De acordo com a Escala Kinsey, utilizada até hoje por psicólogos e cientistas, as pessoas podem variar de exclusivamente heterossexuais (50%) a exclusivamente homossexuais(4%). Entre esses dois extremos estão as predominantemente heterossexuais, as bissexuais e as predominantemente homossexuais.
Segundo essa pesquisa, realizada com 18 mil indivíduos, 46% das pessoas estariam nas escalas intermediárias, podendo variar a orientação sexual durante a vida, influenciadas pelo momento psicológico ou pelas circunstâncias em que vivem.
A principal pesquisa na área ainda é do geneticista americano Dean Hamer, realizada no Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, em 1991 e publicada em 93.
Ele selecionou 76 homens gays que tinham pelo menos dois casos de homossexualismo na família. Com a pesquisa ele levantou a possibilidade da ligação genética ser materna, já que a coincidência hereditária era maior nesse lado da família. A característica estaria relacionada com o cromossomo X, mais precisamente numa região conhecida como Xq28, comum a todos os entrevistados e seus familiares.
Mas ainda é muito cedo para tirar qualquer conclusão. Apesar de muitas outras pesquisas terem tentado derrubar as descobertas de Hamer sem sucesso, até hoje nenhum grupo de genes ligados à homossexualidade foi isolado.
 Cerca de 11% da população mundial são homossexuais
 Provavelmente, devido ao preconceito, nos EUA, o número de adolescentes homossexuais que cometem suicídio é até 6 vezes maior do que o de heterossexuais
 Em 1997, foram registrados cerca de 130 casos de assassinatos de homossexuais no Brasil

A CARTA

‘Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, é muito difícil descobrir e aceitar que você pode ser ou é gay. Todo mundo cresce aprendendo o que é certo e o que é errado nos padrões da sociedade e quando alguma coisa sai diferente logo vem o medo, a culpa e um monte de dúvidas.
Comigo, elas começaram a surgir há uns dois anos. Todos os caras da minha classe só falavam em meninas, era sempre o mesmo papo. Eu até já tinha saído com algumas legais e tinha transado com uma. Mas sei lá, não tinha muita graça.
Foi aí que percebi que estava olhando pra esses mesmos amigos de um jeito diferente. Não era só aquela coisa de vestiário de clube, pra saber quem tem o pau maior, eu sentia desejo também. Muito mais desejo e tesão do que curiosidade.
Aí veio a pressão. Eu não sabia com quem podia conversar, me abrir. Na minha casa então, era pior, eu tenho mais três irmãos e não imaginava como iam reagir.
Resolvi que primeiro ia ficar com algum menino, pra ver o que eu sentia de verdade. Mas claro que essa tarefa também não era das mais fáceis. Hoje em dia, eu olho pra uma pessoa e falo ‘esse aí é gay’, mas naquela época eu não sabia de quem deveria me aproximar.
Foi aí que conheci um cara numa festa. Ele chegou junto e começou a puxar papo. Eu nem me liguei no que estava acontecendo de verdade. Depois de algum tempo nós dois já tínhamos bebido alguma coisa, rolaram uns olhares. Fiquei nervoso mas deixei rolar. Ele falou pra gente ir pra casa dele. No carro a gente já se beijou. Achei estranho e acho que até senti um pouco de nojo. Ele era um pouco mais velho, tinha uns 19 anos. Fomos pro apartamento dele e transamos. Saí de lá logo em seguida, meio atordoado, confuso, mas satisfeito.
No dia seguinte acordei com o maior peso na consciência. Estava feliz, claro, e queria contar aquilo pra alguém. Mas ao mesmo tempo parecia que todo mundo sabia o que tinha acontecido e me olhava com reprovação.
Demorou mais uns quatro meses até eu ficar com outro cara de novo e pelo menos mais um ano e meio até eu abrir o jogo com a minha família. Conversei primeiro com uma amiga, que foi super legal, depois fui conversar com a minha mãe. Ela, óbvio, ficou chocada. Me colocou na terapia. O mais engraçado é que as pessoas acham que se você entender que é ‘errado’ passa.
Depois de um mês conversei com ela de novo. Ficou um clima estranhíssimo lá em casa durante meses. Meu pai não falou comigo e ninguém falava no assunto.
Talvez, aos poucos, as pessoas vão começar a entender que como qualquer outro cara da minha idade eu também beijo, me apaixono, sofro, transo e curto a vida. Só que cada um tem seu jeito de fazer isso e eu não me sinto mais ‘diferente’ ou culpado de fazer isso com outro homem.’

Cassiano, 17 anos

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