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Nada integra mais o homem a si mesmo e aos outros que a arte

 

Nada integra mais o homem a si mesmo e aos outros que a arte. Foi ela que me tirou do limbo existencial a que me condenei

Tento caminhar na vida com arte. Busco, de verdade, existir com elegância. Cultuo o despojamento, o estoicismo, tento não cobrar ou exigir. Concentro-me em superar a técnica e o método com a alma e o coração. Os religiosos chamam a isso de comunhão, os artistas de arte. Para mim é religião, é arte e é vida porque habilita, preenche e constitui minha identidade.

Há dez anos iniciei a construção de uma nova história pessoal. O reconhecimento da arte como meio e fim marcou cada um dos meus passos seguintes. Criei novas ferramentas existenciais. Segui consciente de que, se nada mais desse certo, o esforço e a luta sempre valeriam a pena. No mínimo me educariam a respeito de minha estupidez natural. Possuía experiências pessoais que me atestavam: a arte modifica o presente e determina o futuro.

Dentro do campo artístico e profissional me instrumentalizei para me reencaixar socialmente. Na prática, não dei muita bola para a razão e enriqueci a vida com os riscos da imaginação. Estudei, pesquisei e inventei um novo futuro. Descobri, depois de árduas buscas: nada integra mais o homem a si mesmo e aos outros que a arte. Fazer arte nos remete diretamente ao outro. Como falar sobre o outro sem conhecê-lo? São aqueles que melhor conhecem a alma humana e que melhor interpretam os problemas de seu tempo que se tornam os melhores artistas. É óbvio.

Artista é aquele que tem clarões de percepção de como as coisas podem ser e consegue ser convincente ao expressar isso. Está condenado à reflexão contínua. Necessita ser coerente consigo mesmo em todas as suas manifestações. Sua vida não está mais em separado de sua consciência, de suas escolhas e da realização de seus fins.

STAIRWAY TO HEAVEN

Foi a arte que me tirou do limbo existencial a que me condenei. Trouxe a certeza de que tudo o que é ainda não é tudo. Sempre há espaço para o inusitado, o inaugural. O que aconteceu ou acontece merece ser ultrapassado. O meu passado, embora pareça sujo, está constituído de nobres degraus. Foi sim uma descida humilhante. Mas a subida foi limpa e honrosa. Ela me deu o que há de mais íntimo e verdadeiro em minha expressão.

Arte boa é aquela que tem vida, e vida não depende somente de viver. Pelo que percebo, depende também de observar, pensar, sentir, exercitar e estar consciente. A emoção de saber que as pessoas podem nos amar pelo que fazemos de arte ultrapassa qualquer outra. Acabamos não vendo todo esse valor que as pessoas enxergam em nós. Isso nos força à autocrítica. Ainda hoje sinto, depois de dez anos escrevendo, que aqueles que me leem e admiram são indulgentes e generosos.

Na USP, um dos maiores centros de cultura do país, dizem que o que escrevo é literatura prisional. Estão, no mínimo, um pouco defasados: faz mais de seis anos que saí da prisão. Estou publicando livro de contos em uma editora que publica literatura chamada de marginal. Vou publicar uma nova autobiografia na Companhia das Letras, que é quase uma grife de livros. Estou com um livro de poesias para publicar numa editora de um amigo que não tem distribuição. Fico sem saber se o que faço é considerado arte. Mas, com certeza, gosto muito do que faço e vou continuar fazendo.

Sempre sonhei em ter algo além das lágrimas para chorar minhas tristezas. Invejava quem tocava um violão ou pintava. Eles tinham algo mais que me fazia falta. A arte me fez perceber que meu coração é bem maior que o sofrimento que me fizeram suportar. Graças à arte, a dor não me destruiu: me fez melhor. De verdade eu sei que não podia ficar melhor que isso. Estou feliz assim.

*Luiz Alberto Mendes, 58, é autor de
Memórias de um sobrevivente, sobre os 31 anos e dez meses que passou na prisão. Seu e-mail é lmendesjunior@gmail.com

 

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