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VIAGEM NO TEMPO

Não me lembro de ter me dado conta antes de como certas viagens têm o poder da boa regressão

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Não me lembro de ter me dado conta antes de como certas viagens têm o poder da boa regressão. A melhor explicação que tinha até hoje para o fascínio das viagens era a idéia de que, além de lidar com a mecânica deliciosa e mágica do imprevisível a cada minuto, nos relacionamentos que se colocam à nossa frente durante essas experiências estamos, para o bem geral, desarmados de todas as defesas e prerrogativas de que dispomos em casa.

Assim, não temos história, um passado que pese a favor ou contra, não somos amigos de ninguém que possa fazer alguma diferença, não trabalhamos com algo que faça algum sentido especial – e não importa de quem sejamos irmãos, filhos ou primos.

Vai contar a favor ou contra o êxito das amizades, contatos efêmeros ou grandes paixões que possamos encontrar: apenas o olhar, a capacidade de emitir algum tipo de força, de comunicar o que se é e sente. Em poucas palavras: é você que virá à tona, sem molduras especiais. Só o quadro, a pintura mais primitiva do seu retrato.

Se isso é verdade, multiplique-se por 100 e eleve-se à milésima potência quando o destino desta viagem é, para nós ocidentais desta geléia fora de ponto brasileira, alguma parte do Oriente. Acrescente dois graus a mais na temperatura da reação química se você resolver fazer o que estou fazendo neste momento: passar dez dias sozinho em Tóquio.

A todo o processo de regressão saudável que acontece naturalmente em qualquer viagem, junte-se a ausência de história e passado, o teste da habilidade em lidar com excesso de liberdade e excesso de você mesmo, o fato de que você não sabe falar, não entende as palavras que os outros dizem, não sabe ler nem escrever, é completamente estranho e diferente fisicamente, não conhece códigos e referências básicas para efetuar associações livres de idéias, ignora o sabor das comidas e, pior ainda, não sabe seus nomes.

Entre as pouquíssimas coisas que o diferem de uma criança de um ano e meio, o cartão de crédito talvez seja a mais relevante – além de uma razoável autonomia para ir ao banheiro e vestir-se sozinho. O resultado da experiência? Se houvesse no peito um relógio marcando a intensidade do prazer em estar vivo, o ponteiro estaria batendo no talo durante as vinte e quatro horas do dia.

Só porque é fascinante viver na prática algo que sabemos na teoria: não há nada melhor do que exercitar a humildade em constatar, em cada segundo, um bit novo de informação que vai mexer com todas as células do seu corpo e, conseqüência natural, com todo o resto do planeta. E você é instrumento dessa passagem. Quanto mais você tiver consciência de sua incapacidade, mais divertido será relaxar e lidar com ela – porque o tempo está a seu favor.

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