Logo Trip

Uma reflexão sobre a beleza física

em 19 de julho de 2010

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

Vivemos uma civilização do culto ao corpo como valor imponente de sociabilidade. Em dois trabalhos publicados no Brasil, especialistas em Antropologia (Goldenberg 2002) e em análise de imagens na publicidade (Hoff 2005) investigam as repercussões desse valor na criação de alguns mitos contemporâneos relativos ao corpo, em especial no ambiente da mídia. Entre eles, o fato de que alguns padrões estéticos precisariam ser atingidos pelos indivíduos sob pena da não realização social plena. Encarcerada nesta concepção, a própria idéia de beleza física passa a se constituir como um fragmento de um todo mais complexo que é a existência humana tornando metonimicamente esta parte (o aspecto físico do belo) pelo todo (a vida, o bem-estar, a sua realização profissional e pessoal, a segurança etc.). Desta maneira, a existência física é que condiciona as demais formas de existência (moral, profissional, espiritual…). E o que é mais curioso: cada vez mais, ser belo efetivamente parece importar menos do que parecer belo. Além disso, como se trata de uma sociedade de consumo, em que o valor da posse (ter) é a medida principal para o valor da existência (ser), ter um corpo belo passa a ser uma exigência imperativa desta realização social. Metonimicamente falando, é a condição para ser belo.

 

Se isto é uma verdade para a sociedade metropolitana em geral, a questão da beleza física assume proporções bem mais acentuadas com relação ao universo feminino, já que este, pelas próprias convenções sociais vigentes na atualidade, é o público mais suscetível a essas pressões (claro que não exclusivamente). Um truísmo muito presente hoje é a constatação de que a beleza veiculada pela mídia não é nem natural, nem alcançável. Mulheres sempre magras, silhuetas e rostos tão precisamente simétricos como que traçados pelas hábeis mãos do mais talentoso artista plástico, expressando uma elegância próxima à perfeição platônica. Além disso, esta imagem de beleza “artificial” – porque construída por técnicas estéticas e cosméticas, sem mencionar as alimentares (de salubridade duvidosa) – está quase sempre associada a ideais de qualidade de vida, bem-estar, sucesso e, por fim, à felicidade última. Tudo se passa como se, ao atingir tal beleza, poder-se-ia atingir a plenitude da felicidade. Ou, o que muitas vezes é pior: para se atingir a felicidade plena, é preciso atingir tal perfeição estética. Como resultado da difusão generalizada em escala global desses valores inalcançáveis e sua conseqüente frustração, no cenário de uma sociedade em que, como se afirmou, o culto ao corpo torna-se uma febre cada vez mais consolidada, sobretudo nas grandes metrópoles, pode-se asseverar que a angústia proveniente do conflito entre a imagem ideal de corpo construída por padrões sociais e reforçada pela mídia está se tornando um dos grandes problemas que aflige a mulher moderna.

 

Uma reflexão sobre a beleza do corpo nos leva a pensar na relação das pessoas com seu próprio corpo. “Elo de ligação entre o indivíduo e o coletivo, capaz de fortalecer os vínculos sociais tanto quanto a própria saúde e beleza do indivíduo” (Santanna 2005:122), o corpo é a condição e a principal marca da presença do indivíduo no mundo. Esta reflexão pode nos levar a refletir sobre as formas em que se dá esta presença e esta singularidade. A historicidade do corpo está repleta da historicidade do próprio indivíduo. O corpo humano assume, desta maneira, um caráter menos biológico e mais social e diria até mesmo existencial.

 

Uma das questões mais evidentes que podem surgir dessas considerações é aquela que diz respeito à maneira como se dá esta relação entre o que o indivíduo e o coletivo, por meio da comparação entre o que ele pensa, acredita e percebe sobre o seu próprio corpo e o que o grupo social no qual ele está inserido pensa, acredita e percebe. Em qualquer época e sociedade, conceitos e padrões de beleza do corpo são freqüentemente estabelecidos. Herdeiros da tradição grega, para nossa cultura, a beleza do corpo passa a ser uma manifestação da própria beleza e equilíbrio do ser como um todo: a beleza expressaria saúde, enquanto que a feiúra, doença, ou no mínimo, desequilíbrio. E essas idéias estão muito fortemente fixadas no imaginário social.1

Por outro lado, relacionados à pulsão sexual, esses padrões de beleza são associados a determinadas possibilidades de satisfação dessas mesmas pulsões, o que, em última instância, remete à própria satisfação pessoal. E isso adquire força e importância maiores numa sociedade em que, como a contemporânea, a construção da imagem tem um papel central na definição da identidade do indivíduo.

Ao se constatar que a imagem do belo criada e veiculada por meio da mídia não corresponde de fato àquela presente no cotidiano das pessoas (e ainda mais, a que desejariam ver retratadas) vê-se comprovada este hipótese. Desta maneira, existe uma relação real e concreta da mulher com sua própria beleza e os ideais de beleza que possuem tais como: a sua a relação com sua própria beleza, sua auto-avaliação da beleza e aparência física, seu grau de satisfação pessoal com a sua beleza, sua aparência física e sua vida em geral, suas percepções de como a beleza é tratada na cultura popular; sua visão do quê faz as mulheres se sentirem bonitas, suas visões sobre beleza, atratividade física e o papel do cuidado com a aparência e da cirurgia plástica, suas opiniões sobre a verdade sobre a beleza, suas visões sobre o quê as mulheres querem, confrontando a mídia e a verdade sobre a beleza.

Se, de início, as pessoas comuns têm dificuldade em associar a palavra bonita consigo mesmas, pode-se constatar que isso se deve ao fato de elas não conseguirem valorizar o lado natural da beleza, mas terem como referência o lado padronizado de uma beleza inatingível. Seguramente, um dos grandes ganhos de uma crítica à veiculação de certos padrões de beleza pela mídia seja o de levar as pessoas a refletirem sobre estes (e, quiçá, outros) padrões estabelecidos pela sociedade e veiculados pela mídia.

As pessoas que conseguem abraçar um conceito mais amplo de beleza certamente são mais propícias a estarem satisfeitas com suas vidas e seu bem estar.

1 Conferir a esse respeito as discussões feitas por Hoff, 2005, baseada na concepção de corpo no pensamento de Michel Foucault.HHans

 

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon