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Um pai é pai de todas as crianças. Deus me perdoe

Mais um pouco de realidade

em 21 de setembro de 2005

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Estou insistindo no tema violência. Acho que não é preciso explicar a razão.

Mesmo assim, quero reafirmar que, numa época em que todos os pré-candidatos ao comando do País parecem ter se tornado fantoches do mesmo marqueteiro, talvez um pouco de realidade nas veias seja útil. Leia, em primeira mão, mais uma das cartas de Luiz Mendes, autor do livro ‘Memórias de um Sobrevivente’ (Cia. das Letras), escrita para sua coluna mensal, e que só será publicada na edição de junho da Revista TRIP.

Mendes está preso há 29 anos.

Você está fugindo da polícia depois de um assalto frustrado quando encontra com uma criança no caminho. É ela ou você. E aí?

por Luiz A. Mendes

Eu corria, subindo as calçadas, atropelando pessoas, quebrando retrovisores e ultrapassando tudo a minha frente. A moto, embora não fosse possante, era rápida e bastante maleável. Sabia, a polícia vinha logo atrás. O vento trazia o escândalo que faziam, ruas atrás. O trânsito estava congestionado.

Os carros se arrastavam qual baratas pelas ruas e avenidas centrais de São Paulo.

Suava. Os soldados chegariam atirando para matar. Precisava fugir do trânsito e tomar outro veículo. Carro. Estaria mais protegido e teria melhores chances. O assalto fora frustrado. O segurança do doleiro que fôramos roubar reagira. O tiroteio se dera em plena Avenida Paulista. Meu parceiro caíra baleado. Provavelmente morto. Policiais militares foram chegando. Fui obrigado a fugir na primeira moto que vi por perto, debaixo da chuva de balas.

Uma fuga fugaz

Fora ferido, sentia. Minha perna queimava, as costas ardiam. Não parecia grave. Não dava para ter certeza. Pelo menos, não quebrara nada. Tudo estava funcionando bem. Pronto, já saíra do centro novo da cidade. Seguia a Avenida Angélica. As sirenes gritavam ao longe. Qualquer carro já me interessava. Um colégio, carros estacionando. Escolhi um, o que me pareceu mais veloz.

Subi na calçada, derrubei um casal e segui. Não olhei para trás.

A mulher acabou de estacionar o Monza branco. Quando foi tirar a chave, quase caí da moto na janela do carro, de arma já apontada para sua cara.

Estava treinada. Quando anunciei o assalto, deu com a chave no contato. Insisti veementemente. Precisava do carro. Ela parou, como que transpassada por uma corrente elétrica. Só então vi o menininho. Tinha cerca de 3 a 4 anos e estava colado na porta do passageiro. Seus olhos eram redondos, o pavor o tomava. Tremia e parecia querer entrar para dentro da porta. Senti meu pé afundar no sangue do tênis, ao buscar equilíbrio. Meu coração estava explodindo, aquilo tudo me doía. A perna, as costas, os olhos daquela criança, a mulher querendo protegê-lo. Desisti, não podia.

Dei no pedal, a cabeça fez uma volta, quase caí, mas acelerei e segui em frente, calçada acima. Sabia que minhas chances haviam diminuído. Perdia forças. Na moto, dificilmente escaparia. Algo me levava, eu me sentia leve, era como uma brisa a me soprar para a frente.

Um olhar a cada dia
Quando acordei, estava no hospital, cheio de dores e algemado à cama. Vivo. Estava vivo. Os anos se passaram. Hoje, uma década e meia depois, após uma transferência abrupta de prisão e mês inteiro de saudades, fui receber meus filhos. Haviam vindo me visitar. Ao adentrar à gaiola formada por ferros, o menor assustou-se. Aproximei-me, sem que pudéssemos perceber. De repente, eram aqueles mesmos olhos redondos, apavorados, que me perseguiram por dentro da consciência, anos a fio.

Meu coração apertou, uma mágoa me subiu. Nisso, a porta da gaiola foi aberta. Ele me avistou, começou a chorar e correu para meus braços. Recebi-o no ar. Encostei-o ao rosto e fiquei ali, estupidificado, querendo chorar e sem conseguir, tamanha a dor. Meu filho e aquele menino que eu assustara eram a mesma criança. Um pai é pai de todas as crianças do mundo. Deus me perdoe.

Luiz A. Mendes (mendes@revistatrip.com.br), 49, tem dois filhos, está preso há 29 anos e escreve com a alma.

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