por Guilherme Henrique

Artistas da cena atual homenageiam álbuns de Caetano e Gal, Milton, Gil, Jorge Ben e Roberto Carlos lançados há 50 anos

Talvez a canção que melhor explique o que foi o ano de 1967 para a música popular brasileira seja Superbacana, de Caetano Veloso, lançada no LP Tropicália, em 1968. “Estilhaços sobre Copacabana/ O mundo em Copacabana/ Tudo em Copacabana”, diz a letra. Os estilhaços vinham de fora, de discos como Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, além dos primeiros álbuns de Jimi Hendrix (Are You Experienced) e The Doors (The Doors), todos de 1967.

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Esses fragmentos exteriores, que ajudaram a compor produções nacionais em níveis distintos, ajudaram a formar o conceito do que seria a MPB. Em meio à disputa das canções em festivais e da formatação de uma nova estética pós-Bossa Nova, cinco discos, lançados em 1967 por artistas que estavam consolidando suas carreiras, mostram a multiplicidade de temas e arranjos surgidos naquele período.

Passados 50 anos desde o lançamento desses álbuns, a Trip resolveu analisar cada um deles. Para isso, convidou cinco artistas contemporâneos que opinaram sobre a obra de Caetano Veloso/Gal Costa, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor, Milton Nascimento e Roberto Carlos. Os LPs escolhidos foram: Domingo (Tulipa Ruiz), Louvação (Anelis Assumpção), Bidu: silêncio no Brooklin (Jorge Du Peixe), Travessia (Tiago Iorc) e Em Ritmo de Aventura (Fernando Catatau)

Leia ao som de uma playlist que mistura sons de ontem e hoje, inspirados na conversa abaixo. 

Domingo, de Caetano Veloso e Gal Costa, por Tulipa Ruiz

É curioso notar que Domingo, disco de estreia de Caetano Veloso e Gal (o Costa viria anos depois), tenha sido lançado em 1967. O próprio Caetano, em texto publicado na contracapa do LP, afirma que “sua inspiração não queria mais viver da nostalgia de tempos e lugares, mas incorporar essa saudade num projeto futuro”. Naquele mesmo ano, ele lançaria "Alegria, Alegria", com uma mistura sonora caracterizadora do Tropicalismo.

Domingo, contudo, traz "Coração vagabundo", clássico que resiste ao tempo e à produção subsequente de Caetano. "Avarandado" e "Quem me dera" também são lembradas. “Herdei do meu pai o gosto por Remelexo’. Mas tem ainda ‘Zabelê’, ‘Minha senhora’, ‘Candeia’. Tem Torquato Neto. Para minha geração, pelo menos para mim, parece até um disco de acalantos da Gal”, pondera a compositora Tulipa Ruiz, que está no quarto trabalho da carreira, intitulado Tu.

Ainda na contracapa do álbum, Caetano diz que Domingo poderia ser um “Gal interpreta Caetano”, dada a desenvoltura da parceira na obra. “Gal já era a grande e maravilhosa Gal nesse disco”, comenta Tulipa Ruiz. “O que eu ouço de diferente dos discos da época é a delicadeza. É bossa, mas é recôncavo.”

Louvação, de Gilberto Gil, por Anelis Assumpção

“Vejam quantas coisas novas vamos contar”, anuncia "Rancho da rosa encarnada", oitava música de Louvação. A cantiga – uma marcha orquestrada, romântica, fruto da parceira entre Gilberto Gil e o poeta Torquato Neto – indica a multiplicidade de arranjos e temas dispostos no álbum de estreia do baiano. “É o disco que realiza a miscelânea que a urgência daquele Brasil significava. O baião, a alegria do nordeste, o romance, a poesia e o samba do morro”, observa a compositora paulista Anelis Assumpção.

Em 14 músicas, Gilberto Gil une o culto à Bahia ("Beira-Mar"), a vida no sertão ("Procissão"), a desigualdade social ("Roda") e as influências de Luiz Gonzaga ("Viramundo") e João Gilberto ("Mancada").

“Gil trouxe uma possibilidade de falar de religião e política que, até então, se apresentava de forma tímida na música brasileira”, comenta Anelis. “O disco tem uma qualidade técnica inquestionável. Para a época e formatos de registro, fica evidente a desenvoltura técnica de Gil ao violão e cantando. Uma aula. Gosto dos timbres de bateria, com tons buscados por músicos até hoje. Louvação abriu caminhos”, completa.

Bidu: silêncio no Brooklin, de Jorge Ben, por Jorge Du Peixe (Nação Zumbi)

Ao relembrar o cenário musical da Tropicália, Caetano Veloso diz que a música "Si manda", do ainda Jorge Ben, era a canção que os tropicalistas não conseguiram fazer. A música, uma mistura de samba e uma espécie de marcha-funk, está em Bidu: silêncio no Brooklin. "É um disco embalado pelo groove, com a presença do The Fevers", diz Jorge Du Peixe.

A banda citada pelo vocalista da Nação Zumbi era presença constante nas produções da Jovem Guarda. O LP, produzido em São Paulo, foi lançado pelo selo pernambucano Rozenblit, que não se opôs à inventividade de Ben. “Ele queria dar uma renovada, soar o samba da maneira dele”, salienta Du Peixe, que vê o álbum como um elo entre Tropicália, Bossa Nova e Jovem Guarda.  

Ben queria criar livremente, sem prestar contas a ninguém. Tal posicionamento aparece na terceira música do disco, intitulada "Jovem Samba". “Nessa canção ele resume a proposta de um samba diferente, cheio de requinte, trazendo a bossa nova, mas dentro de algo novo”, enaltece Du Peixe. "Acho 'Toda colorida' foda. A letra e a métrica são absurdas, o arranjo lindo e há muita elegância. 'Rosa mas que nada' também é lindíssima”, finaliza.

Travessia, de Milton Nascimento, por Tiago Iorc

O cantor paulistano Tiago Iorc é suspeito para falar de Milton Nascimento. No final de novembro, os dois estrearam o show Mais bonito não há em São Paulo, que reúne as recentes canções de sucesso do primeiro e os clássicos do segundo. “Uma das primeiras músicas que aprendi a tocar no violão foi 'Maria, Maria', com oito anos de idade, mas por muito tempo fiquei apenas na superfície do trabalho de Milton”, diz Iorc. “Foi só depois que o conheci pessoalmente que senti a urgência de cruzar essa superfície. Hoje já tenho familiaridade com muita coisa dele, mas ainda me falta muito", admite.

A mesma São Paulo, que recebeu o show da dupla, foi onde Milton viu sua carreira ter início, quando a já consagrada Elis Regina gravou “Canção do sal”, em 1966. No ano seguinte, ele mesmo veria sua interpretação de "Travessia", de Fernando Brant, ficar na terceira posição no Festival Internacional da Canção.

Travessia foi lançado no final daquele ano, pela gravadora Codil, com participação da banda Tamba Trio. Criado em Minas Gerais, Milton trazia um elemento interiorano a uma música ainda muito urbana, como é o caso de "Três Pontas". O disco ainda trazia canções como "Morro velho", um tratado sociológico sobre a escravidão.

Para Iorc, discos como Travessia são raros hoje em dia. “Alguém se aprofundar com carinho e chegar à essência de algo é luxo raro. A obra de Milton é fascinante. Ele, sim, mergulha com imensidão na essência da música, e do que ele se propõe a manifestar. Travessia é de uma riqueza musical muito característica de uma geração que buscava a excelência, e isso é absurdamente inspirador", completa.

Em Ritmo de Aventura, de Roberto Carlos, por Fernando Catatau (Cidadão Instigado)

Um ano depois de gravar Roberto Carlos, em 1966, com a música "Namoradinha de um amigo meu", entendida como provocação de Roberto a Erasmo Carlos, com quem havia brigado, o Rei lançou um marco da indústria cultural brasileira e que sacramentaria a paz entre os dois: Em ritmo de aventura, que trazia "Eu sou terrível", escrita por ambos.

Gravado entre agosto e outubro nos estúdios da CBS, trazia a banda Renato e seus Blue Caps, o teclado de Lafayette e a guitarra de José Provetti, o “Gato”.

Para além da volta da amizade, Fernando Catatau, vocalista e guitarrista do Cidadão Instigado, enfatiza a ideia que o disco trouxe à cena audiovisual. Em 1968, ele foi a trilha do filme de mesmo nome dirigido por Roberto Farias e estrelado pelo próprio cantor. “Foi influenciado pelo filme Help, dos Beatles”, analisa. “A própria capa, com ele dentro do helicóptero, é histórica”, completa.

Apesar de canções conhecidas, como "Por isso corro demais" e "De que vale tudo isso", Catatau enaltece a presença de um dos grandes clássicos de Roberto no disco: "Como é grande o meu amor por você", regravada à exaustão. “Todos nós que somos brasileiros temos essa música conosco”, finaliza.

 

Créditos

Imagem principal: Creative Commons

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