por Pedro Carvalho

Trip examina o impacto que as ondas feitas pelo homem – como a criada por Kelly Slater na Califórnia e recém-incluída no circuito mundial de surf de 2018 – terão sobre o futuro do esporte

Allentown, Pensilvânia, 1985. Os melhores surfistas do mundo topam participar de uma competição em uma piscina de ondas, dentro de um parque aquático da cidade. Nas arquibancadas construídas à beira d’água, uma plateia sem intimidade alguma com o assunto via os atletas se esforçarem para manobrar em marolas irregulares e disformes, que quebravam na altura de suas cinturas. A revista Surfer tratou com fina acidez aquilo que talvez tenha sido o ponto mais baixo da história do surf competitivo: “No final da tarde de domingo, todos queriam surfar. Ondas de verdade”.

Um tom bem diferente seria usado pela mesma Surfer em um texto publicado em novembro passado, anunciando que, em 2018, outra piscina será palco de uma etapa do campeonato mundial de surf. “A nova – e mais atraente – parada do Tour: a piscina de ondas de Kelly Slater, em Lemoore, Califórnia”, dizia a notícia.

Milhões de litros de água clorada passaram debaixo da ponte nos 30 anos que separam o campeonato fracassado de Allentown e o anúncio feito por Kelly Slater em 18 de dezembro de 2015, que provocou uma onda de choque no mundo do surf. Um vídeo postado naquele dia pelo eneacampeão não deixou margens para dúvida: uma onda criada pelo homem – e, aqui, “pelo homem” pode ter dois sentidos: por mãos humanas e, também, por “o” cara, o homem – enfim se equiparava às ondas feitas pela natureza. Na verdade, ele as superava. Após quase dez anos de cálculos e experiências, Kelly e uma equipe de pesquisadores tinham produzido uma onda basicamente perfeita, que se desenrolava por quase 1 minuto sem uma gota fora do lugar, alternando tubos e paredes lapidadas para manobras.

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Quase instantaneamente, os olhos da comunidade global de surfistas se voltaram a Lemoore, uma cidadezinha rural de 25 mil moradores mais ou menos no centro geométrico da Califórnia. Era ali que uma antiga pista de esqui aquático desativada tinha sido transformada em uma gigantesca piscina, com 700 metros de comprimento e 75 de largura. Por sua “raia central”, corria em alta velocidade, puxada por um cabo de aço, uma estrutura metálica equipada com pás nas laterais (chamada de hydrofoil), que empurra volumes d’água calculados para formar ondas irretocáveis.

A sequência de eventos que levaria uma onda feita em laboratório ao circuito profissional é intrigante. Menos de seis meses depois da postagem de Kelly, a World Surf League (WSL), empresa que é dona do campeonato mundial de surf, comprou a Kelly Slater Wave Co por um valor não revelado. Outros seis meses se passaram e, em novembro, a mesma WSL anunciou que o rancho de Lemoore iria sediar uma etapa do Tour em 2018 – uma combinação conveniente para o bilionário americano Dirk Ziff, dono da WSL e também da onda revolucionária. Revolucionária, sem dúvida, mas não a primeira a usar a ideia do hydrofoil.

Corrida espacial

Desde a marola pioneira da Wembley Swimming Pool, inaugurada em 1934, em Londres, dezenas de tentativas de produzir uma piscina para surfar resultaram em ondas fracas, sem qualidade, piores do que as encontradas na praia em um dia regular. Esses ancestrais da piscina de Kelly normalmente usavam pistões elétricos que se moviam para deslocar a água e produzir algo parecido com ondulações.

Nos anos 80, duas novas tecnologias começaram a se difundir. Numa delas, uma das extremidades da piscina recebia câmaras ocas que expeliam ar ou água em alta velocidade para criar as ondulações artificiais. Era a base da ADG, empresa que construiu dezenas de piscinas pelo mundo – incluindo a de Allentown. O outro método consistia na instalação de câmaras parecidas, porém elevadas, que soltavam água na piscina. A Murphy’s Waves construiu com essa técnica, entre outras, uma famosa piscina de ondas (de qualidade duvidosa) na Disneylândia, em 1989, chamada Typhoon Lagoon. Kelly Slater venceu um torneio ali em 1997.

Outra porção de campeonatos dos anos 90 foi sediada em ondas artificiais japonesas. O destaque era a Ocean Dome, na cidade de Miyazaki, que chegou a ser considerada a melhor piscina de ondas de seu tempo. Em 1994, o brasileiro Fabio Gouveia levantou um troféu por lá. “Era uma onda meio rústica, mas que dava para dar três manobras, tinha até um tubinho”, ele relembra. A “The Dome”, como era chamada, fechou em 2007 – talvez porque custasse uma fortuna para ser operada e ficasse quase em frente à praia de Miyazaki, que oferece, bem... ondas bacanas a custo zero.

O salto de qualidade aconteceria nos anos 2000, num duelo tecnológico à moda da corrida espacial dos anos da Guerra Fria. Em 2008, surgiu a Kelly Slater Wave Co. A primeira investida da empresa era uma onda que corria por uma espécie de anel circular, supostamente oferecendo a possibilidade de ser surfada por tempo indeterminado. O projeto resultou em uma batalha legal contra Greg Webber, um shaper australiano que afirmava ter tido a ideia primeiro – e que também corria para colocá-la em prática. Pouco depois, porém, a briga deixaria de fazer sentido: as duas partes abandonaram a exótica onda infinita no momento em que outra empresa, a Wavegarden, trouxe à tona o revolucionário conceito do hydrofoil, em 2011.

Sediada no País Basco, região na fronteira entre a costa atlântica da Espanha e da França, a Wavegarden é a principal concorrente da Kelly Slater Wave Co. As duas empresas fazem as melhores ondas artificiais do mundo – e usam, basicamente, a mesma tecnologia para isso, o hydrofoil. Nos bastidores do surf, se diz que os sócios da Wavegarden se ressentem de Kelly, por se considerarem pioneiros no método. “Surfei nas duas ondas e elas têm exatamente a mesma lógica”, diz o brasileiro Miguel Pupo, que compete na WSL. “A diferença é que, na do Kelly, a onda é o dobro.”

Andando na lua

Pupo é amigo do filho de um dos sócios da Wavegarden e surfou nas piscinas que a empresa mantém em um campo de testes na Espanha, na região do País Basco, em Donostia – onde só entram convidados – desde a primeira versão da onda, em 2011. Era uma marola de 30 centímetros que se estendia por pouco mais de 15 metros. Ano após ano, os detalhes foram melhorados – o fundo, as bordas, a lâmina que move a água. A atual versão (chamada Cove) permite 26 tipos diferentes de ondas programáveis na mesma piscina. “A maior onda lá tem entre meio metrão e 1 metro. É bem parecida com uma onda do mar e você consegue dar umas quatro manobras, mas não tem tubo”, diz Pupo.

A vantagem, em relação à onda de Kelly, é a frequência: enquanto a piscina do americano produz uma onda a cada três minutos, a Cove manda uma a cada dez segundos. “Surfamos em oito pessoas e sobrou onda”, conta o brasileiro. Outro detalhe comercialmente relevante: até o ano passado, a sede da Wavegarden usava uma piscina longa e equipada com um hydrofoil, mas que agora está seca e desativada. A Cove, ao lado, é menor – pensada para caber nas cidades – e, para isso, usa um sistema diferente, mantido em sigilo pela empresa. “É como uma série de pás que se movem em sequência, feito um órgão elétrico [musical]”, Fabio Gouveia descreve.

Outra parte da Wavegarden são as piscinas de uso comercial que ela tem vendido pelo mundo. No momento, são duas em funcionamento: uma no Texas e outra no País de Gales – ambas usam o sistema “antigo” da marca, de hydrofoil. A empresa anuncia que outras 15 réplicas serão construídas em breve: três na Austrália, duas na Espanha, três nos Estados Unidos, uma no Chile, uma em Israel, uma no Marrocos e as outras espalhadas pela Europa. “Na onda do País de Gales [chamada Surf Snowdonia], a sessão dura uma hora. Podem ficar até três pessoas de cada lado da piscina. Quando a máquina vai, produz uma direita, depois de um minuto e meio, ela volta e faz uma esquerda”, conta o engenheiro químico Gilberto Camargo, 35, que surfa desde os 12 e experimentou a novidade em agosto de 2016. “Surfar ali foi melhor do que muita sessão que fiz no mar, e foi pior do que muita sessão que fiz no mar. Mas fico imaginando que se treinasse ali todo dia, em três meses estaria dando aéreo.”

E, então, tem a piscina do Kelly. Trip perguntou ao brasileiro Christian Beserra, presidente da World Pro Surfers, que surfou nela recentemente, se ele conseguiria definir em poucas palavras o que sentiu ao pegar sua primeira onda ali. “Sim, consigo definir em... cinco palavras”, ele respondeu prontamente. “É como pisar na Lua.”

A máquina perfeita

A obra-prima de Kelly é a onda artificial mais longa – e a melhor – já construída. São 58 segundos de absoluta perfeição, do tipo que a imensa maioria dos surfistas (de oceano) não terá a chance de experimentar na vida. Desde a inauguração, o fundo foi aprimorado e isso agora permite um pequeno milagre: a direita e a esquerda quebram no mesmo lugar (conforme a máquina vai ou volta) e são basicamente idênticas. “Foi um dos melhores dias da minha vida, parecia um sonho”, resume Pupo – os atletas que competem na WSL receberam um passe livre para treinar ali ao longo de 2017.

A verdade é que nem é preciso descrever muito a onda, porque a essa altura qualquer surfista que não more em Marte assistiu a vários vídeos nos quais ela, mais do que quem está surfando, é a estrela. Claro, os pesquisadores locais ainda terão de lidar com a frequência das ondas. Isso é vital para que a equação financeira das piscinas funcione tão bem quanto os tubos que elas produzem. No momento, a Kelly Slater Wave Co ainda é apenas um protótipo em Lemoore, mas, em uma postagem de 26 de outubro no Instagram, o surfista americano anunciou ter obtido uma permissão para construir a primeira onda comercial da marca em Palm Beach, na Flórida.

As consequências dessa evidente revolução ainda são exercício de criatividade. No universo das competições, isso começará a virar realidade a partir de 5 de setembro de 2018, na etapa de Lemoore. Mas é possível tentar enxergar além. “É inevitável que venham a existir uma série de campeonatos em piscinas de onda. A WSL quer tornar os campeonatos rentáveis [a empresa não teve lucro em 2016] e um grande fator para isso é poder passar as competições na TV. O mar é imprevisível. Com as piscinas, você pode dizer para um canal: a bateria final será no dia tal, na hora tal”, diz Beserra.

É possível imaginar até novos formatos de torneio – algo próximo da ginástica artística, em que os competidores precisam cumprir um circuito de movimentos obrigatórios. Ou campeonatos feitos em grandes arenas, com telões para exibir o replay, pipoca e refrigerante nas arquibancadas, outdoors atrás das ondas... Adicione a isso o fato de que, em 2020, o surf passa a ser parte dos Jogos Olímpicos. “Acredito que vá surgir uma nova geração de competidores focados nesse tipo de onda”, avalia Pupo. “Serão mais sangues-frios, focados em executar as manobras com perfeição.”

Tanta mudança teria impacto no jeito de surfar? Fabio Gouveia, talvez o brasileiro de estilo mais polido em todos os tempos, faz uma análise técnica sobre a questão. “Acho que a base das pernas vai ficar mais aberta. Porque essas piscinas vão ser um grande campo de treino para manobras futuristas, e não tem como aterrissar de um aéreo estratosférico com as pernas juntinhas”, ele diz. “O tamanho das pranchas vai diminuir um pouco, também”, completa. “Mas o maior impacto da onda artificial, eu acredito, é que dá para fazer em qualquer lugar. Imagina isso na China, na Índia...”

Nada será como antes

Bem, o que queremos imaginar, na verdade, é uma dessas em São Paulo, em Porto Alegre, em Brasília... Desde agora, a corrida expansionista entre a Kelly Slater Wave Co e a Wavegarden – e outras marcas em fase de teste – deixa a impressão de que não é uma questão de “se”, mas de “quando” existirá uma onda artificial por aqui. A resposta, provavelmente, tem a ver com dinheiro. A onda vai existir quando for um empreendimento viável, e a lucratividade tem sido a principal dificuldade para os que se aventuram nesse universo. Lucro, no caso, será uma função entre o custo de construir e operar a onda e a sua capacidade de receber surfistas. Além, claro, de sua qualidade, o que daria sentido ao ato de pagar para surfar.

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Esse problema, Kelly parece ter resolvido. Entre as outras muitas perguntas sobre a mesa, uma parece ter resposta certa: nada será como antes no mundo do surf. Houve apenas uma frase que foi repetida por todos os entrevistados dessa reportagem – e, em todos os casos, dita com ênfase e certeza: a onda artificial é o futuro. Ao mesmo tempo, todos concordam que ela nunca substituirá a sensação de surfar em água salgada. “Se eu fosse à Wavegarden três dias seguidos, acho que iria enjoar um pouco”, diz Pupo. “Nada substitui o feeling do mar.” O amigo dele, filho do sócio da piscina, pode surfar nela todos os dias. E, segundo o colega brasileiro, ele prefere a praia.

Créditos

Imagem principal: Richard Johnson / Red Bull Content Pool / Divulgação

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