The day before
Diretor australiano desvia das bombas e filma o diverso cotidiano de Bagdá antes e durante a guerra. O documentário Na Sombra das Palmeiras será exibido hoje
Por Redação
em 15 de dezembro de 2006
Quando o jogo da guerra do Iraque estava sendo armado, e o governo americano fraudava e avacalhava reuniões da ONU, o australiano Wayne Coles-Janess deixou sua pacata terra para cumprir um chamado interno. Partiu no final de fevereiro de 2003 para o Iraque para documentar o cotidiano do povo antes das bombas despencarem. Aterrisou em Bagdá 20 dias antes do início da ocupação americana. Com sua câmera na mão, registrou imagens históricas, a léguas dos clichês a que estamos acostumados: animados debates políticos em cafés, cristãos e muçulmanos dividindo uma mesma sala de aula, festinhas de aniversário com bolos e docinhos. Wayne “descobriu” que no Iraque tem gente comum. E gente comum que foi pelos ares quando o ocidente achou por bem. E isso Wayne também filmou. O resultado de suas andanças, o documentário Na Sombra das Palmeiras, ele exibe dia 15/12 em São Paulo no Encontros SESC Videobrasil, com direito a debate após a sessão. Trip antecipa as perguntas numa conversa por telefone com o diretor:
por Filipe Luna
Como teve a idéia do documentário? Queria falar da falta de informação sobre o oriente médio na mídia ocidental. Normalmente vemos apenas imagens de homens zangados gritando: “Jihad! Jihad!”. Queria descobrir como é o povo, a cultura, a sociedade. Documentar imagens de pessoas em vez dos clichês de sempre.
O que encontrou lá que contradisse o clichê? O fato de ser tão diverso e mais liberal e tolerante que esperava. As pessoas não eram fanáticas ou anti-ocidente de uma maneira radical. No geral eram bem abertas. Tenho mais problemas sacando uma câmera na Austrália. Querem saber o que você quer, de onde é, porque quer filmar. As pessoas lá não se importavam e não julgavam o que estava fazendo. Claro que passei por situações ruins, mas as pessoas eram bem tranqüilas. Ficou mais difícil durante e depois da guerra.
Você teve medo alguma vez? Ficava com medo de alguma hora descontarem em mim por eu ser ocidental. Mas não aconteceu e isso mostra bem que tipo de pessoas eles são. Eu dizia que, se fosse um afro-americano filmando um tumulto num subúrbio branco no sul dos EUA e a casa de alguém estivesse sendo queimada e sua família morta no incêndio, minhas chances de sair daquela situação vivo seriam mínimas.
Como são as relações entre as diversas etnias no Iraque? Eles têm um jeito diferente de existir e, se vemos as coisas de uma perspectiva ocidental, podem parecer não civilizados. Mas é assim há séculos. Claro que existe a situação no Curdistão e um monte de problemas internos, mas no geral, como pessoas, eles são bem tolerantes. Para um monte de iraquianos não havia diferença entre sunitas e xiitas.
O que eles achavam de Saddam? Muitos julgavam o governo responsável pelo sofrimento que passaram com as sanções da ONU. Porém, ao mesmo tempo, eles tinham segurança, hospitais, universidades. Tinham um tipo de sociedade que funcionava. Se você estivesse apenas vivendo sua vida não haveria nenhum problema com o governo. Você dificilmente seria preso. A não ser que você estivesse envolvido politicamente, tentando derrubar o governo, aí sua vida seria muito difícil.
O que achou da condenação de Saddam? Acho que esse julgamento deveria ter sido realizado na corte internacional em Haia para ter qualquer resultado significativo. Não numa corte montada pelas forças de ocupação. Não significa que ache ele inocente. Só acho que seria mais transparente e mais aceitável. Não acho que exista nenhum senso real de justiça numa situação dessas.
Bush foi pior que Saddam para o Iraque? Acho que sim. Para as pessoas, o custo é muito pior. 23 milhões de pessoas sem educação, aquecimento ou qualquer noção de futuro. Não estou dizendo que o governo anterior era bom. Na verdade é uma grande perda para todos. É um crime contra a humanidade permitir que esse tipo de invasão aconteça.
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