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SOCIEDADE DOS OTÁRIOS VIVOS

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Cena 1. Eminente psicólogo brasileiro é convidado a ministrar um curso especial numa universidade em Nova York. Apesar do esforço e do transtorno que uma viagem internacional inesperada costuma acarretar, o professor pensa no orgulho de poder representar a ciência do país numa arena tão intensa quanto Nova York.
Dirige-se com sua esposa, advogada e socióloga mais a filhinha de 1 ano de idade à fila da divisão de emissão de passaporte da Polícia Federal. Começa a agressão. Funcionários com semblante pesado iniciam o sádico exercício da desconfiança e utilizam o conhecimento das entranhas da burocracia para fazê-los ir e voltar a guichês, reconhecer firmas, colher carimbos, datilografar guias. A família é submetida a um desgaste físico e psicológico revoltante.
Cena 2. Profissional liberal e pequeno empresário, daqueles que recolhem caminhões de impostos, atento à saúde e à boa forma, dirige-se à portaria principal do Estádio Municipal do Pacaembu, em cuja pista de atletismo costuma correr 50 minutos, 3 ou 4 vezes por semana em folgas apertadas de sua agenda. Um guarda obeso e mal-encarado sentado sobre sua carcaça gigantesca, suando na farda de tergal mal-custurada, armado com cacetete e sua insigna prateada no peito, aguarda ansioso a próxima vítima. Mal se aproxima e o ‘segurança’ balança a cabeça em sinal negativo sem sequer levantar o olhar na direção do cidadão que exibe, sem sucesso, a carterinha que deveria lhe dar acesso àquela praça pública de esportes. Orgulhoso de sua autoridade rasteira e temporária, o porcão dispara : ‘Hoje não tem corrida, vai ter show evangélico. Só semana que vem’.
Corte seco. Qualquer pessoa que viva por aqui tem pelo menos 1 ou 2 cenas destas editadas em sua vida a cada semana. São Paulo (e boa parte do Brasil) vê uma guerra civil fria e permanente.
Este conflito se chama RESPONSABILIDADE MÍNIMA x AUTORIDADE MÁXIMA.
É a reverberação da mentalidade portuguesa dos tempos da colônia. Vem desta época, o senso comum entre os membros mais diversos da oligarquia que os leva a enxergar a massa produtiva como gado e, ainda por cima, um gado suspeito, traiçoeiro e culpado até prova em contrário.
Não há dúvida quanto à origem deste problema, perpetuado pelo sistema de ensino de 4º mundo que tira dinheiro de merendas e professores e fortalece faculdades particulares que competem com Shopping Centers em faturamento e falta de conteúdo.
Deixando o discurso de lado e propondo algo concreto (para destoar do que fazem em Brasília), uma técnica eficiente que surte efeito rápido: uma revisão rigorosa das normas constitucionais, objetivando equilibrar os pesos entre responsabilidade e autoridade. Nada mudará se os diretores do Banespa não responderem com seus bens pessoais ou sua própria liberdade pela sangria ostensiva e desavergonhada.
Se o ‘segurança’ do Pacaembu não tiver contra ele um sistema corregedor pronto a multá-lo, descredenciá-lo ou até puni-lo severamente pelo desacato ao contribuinte e mais ainda, pelo desleixo profissional no cumprimento de suas obrigações, seu recalque continuará a ser arremessado sobre nossas cabeças, assim como o da funcionária do setor de passaporte do guichê do Detran e até da vendedora de Zona Azul.
Quando bem exercido, o poder coercitivo do Estado aliado a técnicas básicas de Marketing moderno fazem milagres. Basta olhar pros lados durante sua próxima incursão pelo ‘front’ da operação bélica em que se transformou o transito de São Paulo para perceber que, incrivelmente, 90% dos motoristas estão de cinto de segurança num exemplo rarícimo de lei coerente bem aplicada vinda de uma das fontes mais inesperadas. Polícia para as ‘otoridades’. Para que não sejamos vítimas diárias de uniformes de tergal e distintivos de lata que, mesmo sem saber, perpetuam o baile da ilha fiscal transformando-o em Festival Permanente de desrespeito à cidadania.

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