Logo Trip

SEXO PARA VIAGEM

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

Durante missão profissional na região de Bayonne, litoral francês, numa daquelas noites em que aceitamos ir a uma boate meio sem saber por que, um amigo meu conhecera uma garota parisiense que não lhe saia mais da cabeça. A descrição, que me foi feita no mínimo uma dúzia de vezes, era exatamente igual à que costumamos fazer sobre as mulheres por quem nos apaixonamos. Com direito a todas as etapas de praxe: ‘Essa é especial…’ ‘Você precisava ver os cabelos, o olhar, sentir o cheiro…’ ‘Cada vez que ela me olhava, e encostava a boca na minha, sentia o chão rodar e a música da boate virava uma batida seca de tambor selvagem indo direto nas minhas entranhas…’ O rosário do pobre homem enfeitiçado ia adiante de modo que se relatado preencheria todo o jornal, incluindo as páginas de publicidade.
Não discuti por três motivos: primeiro porque seria inútil. Segundo porque seu relato fora tão convincente que minha vontade de conferir essa Catherine Deneuve atualizada falava bem alto. Por último por que rever Paris em boa companhia, mesmo na iminência de desempenhar o papel de candelabro, segurando velas intermináveis, é sempre delicioso.
No caminho além de mais alguns relatos detalhados sobre a consistência dos seios, pele e cabelos da jovem parisiense, ouvi depoimento levemente preocupante. Meu amigo deixou escapar que encontrar novamente aquela mulher seria muito mais que dar espaço a uma paixão irresistível. Seria um teste de fogo já que o pobrezinho namorava uma garota adorável, com quem pensava em viver, decisão aliás que não havia sido tomada muito em função do fantasma daquela morena maravilhosa e dona de coxas de levantadora do Pirelli que rondava sua cabeça de dia e fixava residência em seu travesseiro à noite.
Confesso que a história foi ganhando colorido intenso na minha imaginação. Como seria essa tal Jane (veja você que nome delicioso). Teria ela uma colega de quarto tão bonita quanto, que se apaixonaria por um pobre candelabro brasileiro? Seria sua irmã uma versão mais jovem de Jaqueline Bisset? Pisamos em solo francês ansiosos e cheios de bagagem, incluindo aí duas pranchas de surf, objetos tão estranhos em Paris quanto uma girafa na festa de entrega do Oscar.
Nada porém deveríamos temer. Jane havia combinado com meu amigo e nos apanharia no aeroporto. Bastava aguardar no local combinado. Fomos para lá e não demorou muito. Como numa cena de ‘O Acossado’, uma morena que conseguia o incrível feito de superar as descrições de um homem apaixonado encosta um carro conversível vermelho numa manobra ágil e arriscada, pula para fora da cabine, salta na direção do meu atônito amigo, beija-o na boca e dispara ON I VÁ??
Bem, essa foi a parte boa, que lembrava filmes de Godard. Vamos agora à parte ruim, pelo, menos para mim, e que me fez sentir no papel de Jerry Lewis acompanhando Dean Martin no filme em que este último torna-se campeão de golfe do dia para a noite e seu ex-companheiro é colocado para dormir na cocheira, na companhia de um cavalo e dois cachorros bravos. Explico: Jane dirigia um daqueles carros que só existem na Europa e nas historinhas do Pato Donald.
O chassis do carro da moça fora projetado por um engenheiro apaixonado que não tinha cabeça para coisas como malas, bagagem, nem muito menos pranchas de surf de sete pés. Meu grande companheiro só teve tempo de se virar para mim e dizer ‘Cara, eu sei que você entende, eu faria isso por você. Tá aqui o número do telefone. Leva a minha prancha e essa mala de mão pra mim, tá? Me liga daqui a uns dois ou três dias. Ok?’
Que fazer se não contemplar o mini conversível zarpar com meu amigo beijando o pescoço fino da gata e me deixando com o equivalente a uns três cadáveres de PC Farias nas mãos?
Por medo de atentados terroristas, o aeroporto de Paris (ao menos então), recusava-se a oferecer serviço de guarda-volumes. Naquela época, já se vão quase dez anos, viajávamos com a grana contada e não havia sequer a mordomia de hoje dos cartões de crédito internacionais. O Jerry Lewis aqui teve que ajeitar o chumbo nas corcovas e seguir como um dromedário por trens, metrôs e caminhadas até a parte mais civilizada da cidade. Suando em bicas, fui recusado em dois ou três hotéis, talvez por lotação, talvez pela minha aparência descomposta. Lembro-me de amaldiçoar com todas as forças Mister Sam Sonite ou quem quer que tenha inventado as malas com rodas que quebram quando mais precisamos delas. Finalmente, depois de peregrinação equivalente a dois ironmen e uma São Silvestre, cheguei a um hotel meio pulgueiro na região de Les Halles. Uma escadaria enorme desembocava numa espécie de balcãozinho que dava direto no quarto da proprietária. Uma senhora gorda, sempre de avental de cozinha e dona de um mau humor crônico. Já havia me hospedado ali uma vez e tentei ser simpático demonstrando ser freguês.
Num primeiro momento, a velha ignorou-me solenemente resmungando ‘Pas de chambre’ três ou quatro vezes. Botei minhas malas, pranchas e dignidade no chão e implorei com meu francês sofrível, apelando aos sentimentos da velha, que se existiam, estavam adormecidos desde o terciário.
Por um desses motivos que convertem ateus, a velha resmungou jogando uma chave no balcão, algo que decifrei como sendo ‘tenho um quarto no sótão com teto baixo, sem janela e sem banheiro. Ah, é um pouco pequeno…’.
Não tive dúvidas em agarrar a chave e arrastar meu fardo até o tal quarto. A única diferença entre aquele cubículo e uma cela solitária de cadeia era o fato de que a chave ficava em meu poder.
Se não fosse desgraça suficiente, somavam-se ainda as imagens que minha imaginação se encarregava de montar no meu hard disk. Meu amigo e aquela princesa se amando numa cama branca no centro de um enorme apartamento branco tendo apenas uma garrafa de champagne e dois copos pela metade como testemunha.
Exausto, com essa imagem na cabeça adormeci por umas duas ou três horas. Resolvi me reerguer, fui ao banheiro no meio do corredor, tomei um banho com os malditos esquichos que os franceses insistem em não aposentar e saí fazendo a coisa que mais gosto de fazer quando viajo: vagar pelas ruas. Aos poucos, o colorido das roupas, a beleza das pessoas foi afastando minha revolta e me devolvendo o prazer de estar vivo e livre.
Como combinado, liguei para o apartamento da tal Jane deixando na secretária o número de telefone do hotel em que me encontrava.
Jantei sozinho num daqueles restaurantes anônimos que existem às centenas em Paris. Totalmente relaxado voltei para meu pequeno calabouço e dormi o sono dos justos.
Dia seguinte, umas nove da manhã, acordo com a voz inconfundível da velha esmurrando a porta do quarto: ‘Monsieur Limá, monsieur Limá, télephone pour tois!!’ Desci descabelado e atendi o aparelho enquanto a velha me mostrava uma plaquinha que dizia 3 minutos = 5 dólares.
Para minha surpresa, do outro lado, a voz do meu amigo que, imaginava eu, recém saíra de uma noite de sexo selvagem e champanhe. ‘Cara, essa mulher é louca, falou a noite inteira, ficou bêbada, começou a reclamar em francês da vida, dos americanos, dos homens em geral, conseguiu brigar comigo menos de uma hora depois que chegamos e até agora está chiando. Pelo amor de Deus, onde você está? Me espera que eu estou indo praí.’
Enquanto tomava meu chocolate com croissant, incluídos na diária, tentava entender aquela grande surpresa. Tinha certeza que apesar dos desencontros, na hora da cama a coisa tinha sido diferente. Ela era muito bonita e meu amigo estava muito fissurado.
Em menos de meia hora, vi sua silhueta subindo a escadaria do hotelzinho. ‘Cara, a mulher não toma banho. Quando ela ficou nua, tentei desencanar, mas não deu, sabe aquele constrangimento que você não consegue esconder? Na hora de transar, depois de umas três ou quatro horas de brigas, entendi o que sentem os caras que trabalham no IML, a mulher parecia estar em com coma profundo induzido. Desastre total. Vamos sair, preciso esquecer essa louca.’ Depois de algum tempo de relatos assustadoramente crus sobre a noite anterior, voltamos ao ritmo normal e aproveitamos as belezas e encantos de Paris, andando muito, visitando amigos, indo a algumas festas, etc…No final da viagem, meu amigo me confidenciou não ver a hora de voltar para a casa e rever a namorada, na qual não parava de pensar um minuto.
Mais ou menos um mês depois, já em São Paulo, estou lendo em casa. Uma da manhã e o telefone toca. ‘Cara, ainda bem que você está acordado. Me ajuda!’
‘Que foi bicho?’
‘Sabe aquela desgraçada de Paris? Me passou uma doença venérea cara! Você acredita? Não sei o que fazer. Minha namorada veio falar comigo hoje. Ela só transa comigo e descobriu que está com um negócio que nunca teve. Ela disse que ia fazer um exame. Ela está chocada. O que é que eu faço?’
Minha vontade era de chamá-lo de idiota. Mais de trinta anos nas costas e transando com uma total desconhecida sem camisinha.
Controlei-me e disse o que imaginei ser coerente àquela altura: ‘Cara, só tem um jeito. Diz para ela exatamente o que aconteceu e o quanto você gosta dela’.
Os dois estão casados há mais ou menos sete anos e, até onde eu sei, vivem um número bastante grande de horas de felicidade por dia. L’amour, Toujours l’amour.

PALAVRAS-CHAVE
COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon