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QUEM MANDA NA TV GLOBO

Li com atenção a entrevista do diretor comercial da agência de publicidade DPZ publicada ontem pelo JT

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Li com atenção a entrevista do diretor comercial da agência de publicidade DPZ publicada ontem pelo JT. Com todo respeito que merece o executivo Daniel Barbará, esperava mais. Talvez por sua origem, nos departamentos de mídia, Barbará tenha restringido sua análise das mutações da televisão aos números e pesquisas, fechando o foco sobre índices como IBOPE e número de televisores adquiridos no período pós-real.
Assim, sob este prisma, tornam-se destaques e ganham projeção os fenômenos mais visíveis como Ratinho e seus recursos à margem da ética ou J. Hawila e sua Traffic tomando conta da programação da TV Bandeirantes depois de ter construído um império comercializando placas em estádios e realizando outras ações com meios permanentemente questionados pelos jornalistas mais bem informados sobre os becos escuros da cartolagem e da politicagem do futebol.
Barbará corre o risco assim, de reforçar e alimentar o já conhecido estigma curiosamente rotulado com o diagnóstico de ‘miopia do mídia’, uma patologia que causa problemas sérios de visão e que faz seus portadores incapazes de enxergar aquilo que não seja muito grande ou que não esteja muito próximo de seus olhos.
Há que se dar razão ao executivo, quando observa que a tendência inegável da televisão aberta mundial é a de abrir mão da qualidade, do bom senso e da educação em favor do esdrúxulo, do sensacionalismo, da depravação e do simples, porém não menos nocivo mau-gosto. As observações do executivo não só fazem retrato fiel do que se constata nos maiores mercados do planeta hoje, como já foram motivo de vários artigos neste espaço.
O que talvez caiba colocar diante do exposto, é algo que ele como nomeado profissional de mídia certamente conhece, mas talvez tenha deixado escapar em sua entrevista: todas as pesquisas e até os mais pertinentes números podem perder grande parte de sua utilidade e sentido quando não são devidamente interpretados.
Se afastássemos um pouco mais as objetivas, subindo o ângulo de observação do gráfico, talvez surgissem nuances que escapam nas análises mais técnicas. Recentemente mencionei neste espaço, o relatório anual da Shell, um dos maiores conglomerados capitalistas do planeta. Tratava-se de um verdadeiro atlas da conservação ambiental, um questionamento profundo da missão social da empresa no final do milênio, algo que confundia até o mais maniqueísta dos observadores sobre quem são hoje em dia os mocinhos e os bandidos nesta história. Este é apenas um dos milhares de sinais que apontam no sentido de que a busca da ética, da educação e da qualidade de vida para todos, deixa aos poucos de ser exclusividade de puritanos ou hippies desavisados e anacrônicos e passa lentamente a definir quem vai sobreviver na guerra capitalista. Empresas socialmente comprometidas são hoje nos mercados mais sofisticadas sinônimo de lucro e longevidade de marca. Como se sabe, há hoje no mercado marcas que valem mais do que as empresas que as detém, vendem e faturam. É lícito dizer que investir na boa percepção de uma marca é hoje tão ou mais importante que esvaziar estoques e prateleiras. Na questão da queda da qualidade e do lixo em que aos poucos vão se transformando as concessões do governo às empresas de comunicação chamadas televisões abertas, assim como as crises no sistema educacional, de saúde e outras mazelas definem-se cada vez mais como algo que só encontrará saída através da mobilização das pessoas e das organizações privadas, muito especialmente as empresas. Isso felizmente parece ocorrer em velocidade superior à desejada pelos que torcem para que tudo continue como está, com a população pobre rindo da própria desgraça diante de aparelhos de tv, grupo do qual certamente não faz parte o senhor Barbará, mas que pode, involuntariamente estar auxiliando.
Senão, sem entrar no mérito desta iniciativa, porque estaria uma candidata que tem como ponto importante de sua plataforma a criação de critérios éticos para regulamentar a programação das televisões abertas, liderando as pesquisas em São Paulo?
Porque empresas da área financeira estariam cada vez mais apoiando causas sociais importantes? Vejamos por exemplo alguns dos patrocinadores ou apoiadores da Fundação ABRINQ, uma das mais sérias organizações brasileiras pela cidadania: Banco Bradesco, Citybank, Itaú, Banco Pontual, Banco Real e Coopers & Librand.
É fundamental lembrar ainda, que as televisões abertas e as concessionárias destes serviços só têm, pelo menos em tese, uma fonte de receita: a verba de publicidade das empresas que delas se utilizam para vender e construir suas marcas. Está, então, diretamente nas mãos de seus diretores e de suas agências de propaganda, decidir onde estarão aplicando seus recursos e que marca, que mundo e que país querem entregar para os que virão depois. São eles que, através de seus planos de mídia, têm, em última análise, o poder e a missão social de determinar, levando em conta não somente os índices frios de audiência, o que deve sobreviver, Gugu Liberato e suas pegadinhas ou o telejornalismo de Boris Casoy, os 28 pontos da teledramaturgia da Globo ou o baixo custo de Chiquititas, o jornalismo no Globo Repórter ou o ‘talento’do ‘artista’ Ratinho, as entrevistas e atrações de Serginho Groismann ou o cansado desfile de bobagens do Faustão. A própria empresa de Daniel Barbará parece perceber este movimento, quando é, ela mesma, uma das apoiadoras da própria ABRINQ, mas, de outro lado, rema nos sentido oposto, quando se responsabiliza pelas campanhas publicitárias da marca de cigarros Hollywood, uma das mais fortes representantes da indústria que segundo a OMS, matará dezenas de milhões de pessoas no mundo até o ano de 2025. É mais do que claro as programações de televisão e principalmente nossos destinos, em verdade estão nas nossas mãos e, principalmente nas mãos de pessoas íntegras como o Sr. Barbará, cujas visões aos poucos focarão o real sentido de nossas existências.

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