por Douglas Vieira

Há 16 anos no Brasil, produtor americano Victor Rice fala do disco Smoke e da vontade de passar mais tempo no palco e menos no estúdio

Há 16 anos, em 2002, o nova-iorquino Victor Rice deixou sua cidade natal, onde já era um dos produtores mais requisitados de música jamaicana no mundo (trabalhou com uma gama de artistas históricos da ilha, de Skatalites a Laurel Aitken), e entrou no Copan pela primeira vez. E lá ficou. Poucos anos antes, em 1998, ele tinha vindo ao Brasil pela primeira vez, para tocar com a banda norte-americana The Toasters, visita em que passou em frente ao icônico edifício projetado por Oscar Niemeyer e perguntou: “Alguém mora aí?”. “Sim.” “Vou morar aí um dia.”

E morou por quase uma década, até que saiu e deixou lá apenas seu estúdio, onde tem mixado ou produzido artistas como Curumim, Anelis Assumpção, Bixiga 70, Elza Soares (a mixagem de A mulher do fim do mundo lhe rendeu um Grammy Latino em 2017), incorporando uma parte importante da cena musical brasileira ao seu trabalho, que era marcado pela conexão com a música jamaicana. “Foi com [o engenheiro de som e músico] Fernando Sanches que chegaram essas outras músicas aqui que não eram muito minha praia. O começo disso eu lembro claramente, foi quando ele me indicou para mixar um disco do Marcelo Camelo, Nós. Nos demos muito bem e ele disse que me queria na próxima produção, que era o disco da Mallu Magalhães”, conta, destacando que a partir desse momento passou a receber convites de vários outros músicos brasileiros.

LEIA TAMBÉM: Com o Gueto Pro Gueto Sistema de Som, Lei Di Dai usa o dancehall para levar entretenimento, autoestima e fazer circular renda nas periferias de São Paulo

As novas conexões musicais fizeram seu ritmo de trabalho ficar alucinante —  “Chego meio-dia aqui, fico até meia-noite” — , mas deve ficar diferente nos próximos meses. “Quero ficar menos no estúdio e passar mais tempo no palco”, explica sobre o momento atual, que começa marcado por Smoke (2018), seu primeiro disco autoral desde In America (2003) e o primeiro em que apresenta as composições resultantes de uma pesquisa que faz desde que chegou ao Brasil. “Pesquiso o ponto em que o samba rock encontra o rocksteady, da Jamaica. São gêneros da mesma época e que têm muitas similaridades”, conta. "A missão sambarocksteady nunca acaba. Eu entendi há 4 ou 5 anos que é impossível chegar numa batida que o brasileiro dance samba-rock e o jamaicano, rocksteady. O suíngue é diferente, o balanço é outro. Na dança, vai sempre puxar prum lado ou pro outro. Eu parei de pensar no samba-rocksteady como um destino e comecei a pensar como um norte, uma orientação. E tudo que render no caminho está valendo."

"Tem duas faixas em Smoke que são as que chegaram mais perto desse resultado: "Lou", que abre o disco, e "Fumaça". A primeira vez que achei que tinha chegado nesse som foi em uma batida minha com Curumin, "Carregar", que eu falei pra mim mesmo 'olha, isso é samba-rocksteady'".

A materialização dessa pesquisa marca um momento diferente em sua carreira desde que chegou ao Brasil. Ele, que sempre se referiu ao estúdio como uma igreja, sente agora a necessidade de sair um pouco deste espaço sagrado e colocar a carreira artística novamente à frente da de produtor, com mais shows. Plano que está engatilhado. “Deixei esse segundo semestre mais aberto de compromissos no estúdio”, explica. "Desde 2010, passaram entre duas e três mil faixas pra mixar aqui [no estúdio]. Então, aqui ou na Europa, estou querendo tocar e escrever mais e passar menos tempo mixando discos."

Estar mais na rua e menos na mesa de som do Copan significa fazer shows com sua banda, mas também significa datas mais frequentes para suas apresentações individuais, em que manipula e mixa ao vivo gravações em fitas de rolo que usa como se fossem os toca-discos de um DJ, um estilo que recria os primórdios dos bailes jamaicanos nos anos 60 — e assim tem sido frequente na programação da festa Marafffo, organizada pelo selo Marafo, no bar FFFront, em São Paulo, onde volta a se apresentar dia 17 de agosto. 

Nas duas frentes, com uma banda ou com suas traquitanas, teremos mais chances de ver ao vivo onde termina o samba-rock e começa o rock-steady, e vice-versa. Puxando prum lado ou pro outro, dançar é inevitável.

Créditos

Imagem principal: Caroline Bittencourt/divulgação

matérias relacionadas