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PORRADA DE GENTE GRANDE

Leia Memórias de um Sobrevivente antes de desejar que os fugitivos do Carandiru morram no esgoto

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Não sei se e o que já falaram sobre o livro Memórias de um Sobrevivente, de Luiz Alberto Mendes, lançado pela Cia. das Letras. São quase 500 páginas que passam rápido como a fama da Tiazinha. Luiz foi preso aos 19 anos e hoje, aos 49, continua guardado. Não consta que tenha fugido com esta última leva que cavoucou um túnel preferindo chafurdar no esgoto a apodrecer no inferno.
Lendo o livro, aliás, fica mais fácil entender as razões de fugas como essas. Mas isso é pouco. Além do mais, histórias empolgantes de cadeia, inclusive do próprio Carandiru, não são exatamente novidades. O livro interessantíssimo de Dráuzio Varella é apenas um deles, e, não por acaso, esteve por meses nos primeiros lugares das listas de best-sellers.
Alguns diferenciais marcam a obra de Mendes em relação ao que existia antes sobre o assunto. O autor, segundo seu próprio depoimento, não ouviu falar e depois relatou situações. Ao contrário, viveu com toda a temperatura, a vida infernal do crime, desde a origem, nas surras sádicas e imotivadas desferidas por um pai ignorante e alcoólatra, até os latrocínios casca-grossa, em episódios envolvendo quadrilhas e um razoável nível de organização.
Por uma série de fatos relatados na obra, o ladrão inveterado acaba se tornando um auto-didata que estudou profundamente em livros de filosofia, psicologia, antropologia, romances, e toda sorte de literatura, o que lhe conferiu a condição de relatar de forma fluida e bem construída, sem descolar da linguagem crua e tensa da bandidagem. Não há, portanto, intermediários ou intérpretes, nem por isso tem-se que lidar com texto pobre e desengonçado. Ao contrário, a leitura corre sem que em nenhum momento se pare para olhar o número da página.
O exemplar que li me foi emprestado generosamente por um amigo, que se viu obrigado a compartilhá-lo com outra leitora. Eram três pessoas se revezando com o mesmo livro durante uma viagem, o que demandou certa administração para evitar conflitos, tamanha a força magnética das histórias e, mais do que isso, da existência de Luiz Alberto Mendes.
Sacanagem da grossa
Há passagens incríveis, ambientadas na São Paulo dos anos 70, na qual o centro da cidade ainda desempenhava papel-chave. Assaltos à queima-roupa, fugas da polícia por telhados, linchamentos na ladeira Porto Geral, orgias em hotéis de quinta com mulheres de sexta, cenas do mais profundo amor, sacanagem da grossa, pederastia na cadeia, tortura psicológica e maldade por atacado. Merece ser lido.
Mas o que fica mais profundamente gravado no cérebro depois de lida a página 478, na qual está impresso o ponto final, e se percebe o processo de iluminação pelo qual passou o autor com o simples contato com presos e orientadores que lhe abriram novas perspectivas através dos livros, é o quanto de sofrimento e violência não estariam sendo evitados se as instituições penais para menores como a momentaneamente esquecida Febem não fossem infernos nos quais se formam bestas feras com pós-graduação.
No caso de Luiz Alberto, que tinha inclusive um padrão de vida razoável em comparação com a maioria do povo pobre do Brasil, com direito a pai e mãe casados, empregados e vivendo juntos, casa, comida e até escola, o papel destas instituições na deformação de seu caráter e valores só encontra competidor à altura na perversidade do pai alcoólatra, responsável por surras de gente grande, que acabam por atirar um moleque no meio da rua.
Leia este livro antes de desejar que os fugitivos do Carandiru morram no esgoto. Em muitos casos, já nasceram mortos.

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