PONTO DE PARTIDA
Com 20 anos de idade, ?vazio e sem futuro?, nosso colunista entrava na Penitenciária do Estado de São Paulo para cumprir o primeiro dia de seus 30 anos de pena
A tarde chegou como o vento, lambendo a vida de ansiedade. Eu estava dentro de um carro de presos, adentrando a Penitenciária do Estado de São Paulo. Tudo me preocupava. Haviam me falado daquele funesto estabelecimento penal. Havia melhores e piores notícias. As melhores não eram tão melhores assim. As piores, bem, eu achava que não podia ficar pior do que estava. Completaria 21 anos de idade. Vazio e sem futuro, estava condenado a quase 100 anos de prisão. O que podia haver de pior? Mas sempre há, a vida me ensinaria depois.
O sino bateu. Era tradição da Casa. Ao adentrar preso, o sino era acionado. Descemos do carro. O sol empurrava uma luz crua que me semicerrava os olhos. Estava assustado. Éramos um grupo de seis presos provenientes da Casa de Detenção de São Paulo, para cumprimento de pena. Fomos rodeados por uns homens enormes armados de porretes e canos de ferro na mão. Mãos para trás, olhos para o chão, ameaças mil. Tudo era intimidação. Alguns de nós já tomaram umas lambidas de porretes pelas costas. O clima era de terror. Ao mesmo tempo em que estava com medo, precisava manter a compostura. Afinal, era com aqueles caras duros que eu teria que viver pelo resto de meus dias. Seria importante o conceito que eles fizessem de mim.
Fiz cara de bravo e caminhei ao comando dos guardas do choque. Eles estavam acostumados a pegar ladrão à unha. No setor de inclusão, exigiram que nos despíssemos. Nus, estaríamos desmoralizados. Com nossos corpos expostos, todos nossos gestos cintilavam no ar. Estávamos conscientes de nossa fragilidade, do risco e da violência que se expandiam no ar. Não havia máscaras. Era nossa cara mesmo que se arrancava da pele.
Após a revista de nossos pertences, os guardas queriam que virássemos a bunda para eles. A bunda era tabu. A honra estava na bunda. Virar seria autocondenação à pária na prisão. E ter uma identidade era fundamental. Afinal, seriam décadas preso. Não, não viraríamos. A confusão estava formada. Suava poeira e angústia. Teria que fabricar uma coragem das paredes limosas que me rodeavam. Choveram funcionários. A alma reduziu-se menor que o corpo. Eles iriam nos virar na marra, imaginei. Preparei o lombo para porretadas, será que agüentaria? Já havia ultrapassado todos meus limites.
Cela-destino
Então, o inusitado. Um homem pequeno com rosto avermelhado adentrou a sala. Quando consegui erguer o olhar de onde estava afundado, percebi que em mim já não havia mais ninguém. O homem olhou-nos. O imóvel de seus olhos assustava. A hora era grande, percebi. Confabulou com os guardas e saiu sem deixar de nos fitar. Soube depois que era o chefe de disciplina. Parecia nos ver mortos. Nos deram uniformes e mandaram que os vestíssemos. Ameaças cessaram. Fomos conduzidos a setores que tomaram nossos dados trocentas vezes. Cansei de dizer nome, endereço, data de nascimento e nome dos pais. Tornei-me sombra de um vulto inexistente.
Porretada
Escurecia, estávamos cansados. Havia uma multidão de movimentos em cada ato simples. Sempre acompanhados de dezenas de guardas de presídio, fomos conduzidos por um corredor escuro, fúnebre e interminável, até uma gaiola. Uma enorme gaiola de barras de ferro. Dentro, um guarda. Estávamos no segundo pavilhão, nosso destino. Fui colocado em uma cela. Quando pensei que iria começar uma nova vida, entrou cerca de meia dúzia de funcionários armados de porretes. Nem conversaram. Foram enfiando o pau sem dó. Lutei, tentei escapar, mas só foi pior, eles me caçaram na cela. Quando vi não havia jeito, ensandecido no desespero, encostei num canto e me encolhi ao máximo. Formei-me uma bolinha de papel amassado. Então eles pararam. Era apenas amostra grátis para que eu ficasse esperto. Eles mandavam e eu obedecia, estava claro? Sim, estava muito claro. Bateram a porta com violência e foram embora. Senti meus destroços esparramados pela cela toda. As lágrimas caíram aos pedaços. De dó de mim. De ódio deles. Alguém pagaria por aquilo, jurava.
Levantei e doía tudo. As costas ardiam, a canela sangrava, braços e pernas cheios de vergões pretos. Tempos de pedra, quando a lei do porrete e do cano de ferro imperava nas prisões. Havia caído ao lado de uma privada; em cima, uma pia. Uma louça amarelo velho, quase ferrugem. Cor de asco. Lavei o rosto, gemi das pancadas e olhei em torno. Uma cama de ferro e madeira e mais nada. Em cima do colchão, lençol grosseiro e um cobertor.
A janela me atraiu. Abri-la foi como destapar o tubo das vozes. Em frente, o terceiro pavilhão. No céu, nascia uma lua que se perdia por dentro dos meus olhos. Algo doía mais que as pancadas. Parecia um punho entrando boca adentro, pressionando a vida goela abaixo. Em frente, gritos. Percebi assim, entre espantado e feliz, que havia vida lá fora. Muita vida. E aquela vida me chamava. Mergulhei naquela tumba de ar comprimido. Tentei responder, a voz engasgou-se na garganta seca. Tudo me parecia rasgado de céus e infernos. Mas havia uma brecha e consegui responder.
Era um amigo esquecido por entre as muralhas. Queria notícias. Reclamei de dores, filha-da-putamos os guardas e passei as novidades, aos gritos. Outros companheiros me ligaram e tentei lembrar todos, pois era muito conhecido ali. Estava me julgando o mais só dos seres humanos. Aquilo aquecia a alma que o vento, cheio de silêncios secos, ameaçava congelar em mim.
Voltei-me à cela. As paredes estavam cheias de gravações em baixo-relevo. Nomes seguidos por bairros e zonas de São Paulo. Outras sentenças, pérolas da sabedoria carcerária. Desenhos de facas e armas de fogo. Havia até um esboço de Nossa Senhora Aparecida, aquele manto da cabeça aos pés. Tudo parecia uma tempestade apenas anunciada. Era assustador.
Mulher de preso é preso
De repente caiu o guichê para dentro da porta. Estava no meio da grossa porta de carvalho. Uma enorme cara preta tomou a abertura toda. Os olhos vermelhos me olhavam duros, congelados. Era muito novo, estava assustado e precavido com os comedores de bunda. A pederastia imperava na prisão àquela época. Não havia visita íntima. Mulher de preso era preso mesmo. Os mais frágeis e fracos sofriam nas mãos dos valentões.
A boca vermelha abriu-se. Voz fininha e efeminada, viera a mando de um amigo que morava em outro pavilhão saber do que eu estava precisando. Era a Demônia, célebre homossexual de quem eu tanto ouvira falar na Casa de Detenção. Não, eu não estava querendo nada. Não precisava de nada. Na prisão era assim. Tudo tinha um preço e era melhor nada dever para nada ser cobrado. Olhei para fora do guichê. O negão era enorme, feio de doer. Condizia com seu apelido. Tentou conversar comigo. Respondi por monossílabos. Não queria graça. Suspirou, deu uma lambida de olhos em meu corpo e se foi, contrafeito. Soube depois, aquela conversa no pé do guichê podia ser interpretada como um namoro. Andei da porta à janela e da janela à porta, pensando. Começaria ali o vício que se demoraria por décadas. Não há estímulo maior ao pensamento do que andar. Era noite quando um sino me despertou de meu mundo mental. Badalava uma, duas, três vezes. Depois de novo, por nove vezes. Era nove e meia da noite, a hora do silêncio. As luzes foram apagadas. Fui à janela, sonhos confusos sob a débil claridade da lua, fina como um fio de prata. Abri a boca, deu o maior sono, acabava o ruído de espadas se entrechocando que vinha da alma.
Estiquei a roupa de cama, tirei o uniforme duro de tecido grosseiro. Deitei e, depois de anos, lembrei uma música que minha mãe me ensinara. Desmaiei, foram muitas emoções.
*Luiz A. Mendes, 51 anos, é escritor e praticamente já cumpriu sua pena. Seu e-mail é mendes@revistatrip.com.br
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