Outras Palavras: Mais ou Menos
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Caro Paulo,
Confesso que eu gostava de ter o John-John
por aí.
Um cara que podia muito e fez menos. Essa foi a impressão que
ele me deixou. Ele podia ir de carro, mas ia de bicicleta. Podia
casar com pompa e circunstância e casou simples. Podia posar
de filho de Jackie&John e nunca posou, ponto. Podia se
recostar nos milhões que herdou, mas ralava tanto quanto
qualquer mortal. Podia ter todas as mulheres do mundo e
preferiu uma Carolyn. Podia ter um jardim particular, mas
preferia o parque público. Isso tudo é muito admirável para a
maioria de nós, que se mata correndo atrás de uns direitos e
uns privilégios a mais. Tão admirável que sua morte foi um
lamento geral, apesar de ele não ter feito nada de importante.
Foi um lamento sincero e respeitoso. Folheei várias reportagens
de revistas e jornais americanos e não vi nada sensacionalista,
nem uma notinha sequer brincando com sua vida. A imprensa e
as pessoas estavam respeitando uma pessoa que, por opção
de vida, foi menos.
Por que isso é tão admirável e respeitável?
Parei na pergunta e comecei a procurar explicações.
Achei várias. Uma delas é épica e você mesmo já mostrou
quando citou o Saramago num editorial: – Esta é uma época de
dizer ‘Não’ – de tanta coisa errada que estamos vivendo sem
perceber.
Outra explicação é que o ‘Não’ é a principal
ferramenta para se esculpir uma identidade. E
quando você tem uma identidade qualquer, desde que genuína,
é respeitável, admirável – como o nosso personagem tinha.
Na minha juventude, passei por dois momentos que me
ensinaram a importância do ‘Não’. Um deles foi com um querido
monge budista, que me contou a história de um artista que
esculpia uma pedra enquanto um garoto muito atento
observava seu trabalho. À medida que o escultor progredia em
sua obra, ia aparecendo um lindo cavalo na pedra e o garoto ia
se surpreendendo, se admirando, se encantando. No fim, o
cavalo pronto, o garoto, extasiado, perguntou ao artista:
‘Como você sabia que ele estava aí dentro?’Sim, a revelação
do cavalo se deu quando o escultor tirou da pedra tudo o que
‘Não’ era cavalo.
Sucesso?
Outro momento não foi tanto na juventude. Eu já
tinha mais de 30 e estava na frente do meu
primeiro mapa astral. Foi um choque tão grande
que divido minha vida em antes e depois deste
episódio.
A astróloga, outra querida, falou sobre mim coisas
que nem eu mesmo sabia. Todas verdadeiras. No
começo, fiquei inseguro, como se minha intimidade
tivesse sido invadida sem permissão. Em seguida,
fiquei curioso e intrigado pela ‘Não’ existência de
planetas em várias casas no meu mapa. E pela
concentração de planetas em algumas outras. Não
entendo de Astrologia, mas na hora entendi que
onde tinha planeta havia potencial, dom e talento
para me dar bem e onde não tinha planeta, não
havia chance – podia investir o que fosse e nada ia
vingar. Naquela hora, vi com nitidez quem eu ‘Não’
era. Tive a sensação física de estar vestindo uma
roupa sob medida, com um caimento perfeito e que
me deixava elegante, tudo no lugar, nada
sobrando. Conforto! Essa era a sensação e o
sentimento.
nunca mais me afastei desta lembrança como uma
garantia de que o projeto RG estava ali, com
aquela precisão.
Essa clareza e essa precisão são necessárias na
hora de fazer escolhas, porque é muito fácil
descaminhar do seu projeto numa
sociedade que só mede sucesso conta
de somar: mais é melhor, maior é melhor,
mais rico é melhor, mais comprido é melhor, mais
durável é melhor, mais poderoso é melhor.
Felizmente já existe uma nova contabilidade se
instalando, que reconhece um valor extraordinário
no ‘Não’ e no ‘Menos’. Dizem que, no fim das
contas, essa contabilidade mostra um new bottom
line tanto para as pessoas como para as empresas.
Chega ao ponto de reconhecer que Menos é Mais –
quem foi que disse Less is More pela
primeira vez? Isso é muito anos 60 – e que
Mais é Menos. Por exemplo, John-John é um Menos
que é Mais. E Donald Trump é um Mais que é
Menos. Quer comparar no detalhe? Então veja a
quantidade de flores que o povo colocou agora na
porta da casa do John-John em Tribeca, downtown
New York. E imagine a quantidade de flores que
vão colocar na frente da Trunp Tower, na 5th
Avenue, no dia em que Mr. Trump nos deixar. Viu a
diferença?
Claro que viu! Você e a sua TRIP são uns que
navegam bem por essas águas em que Menos é
Mais.
Bem, chega de tietagem, que minha agenda está
me esperando. Vamos ver o que eu ‘Não’ vou fazer
hoje.
Tomara que não seja o nosso almoço. Se eu pagar
a conta, será um menos que é mais.
Abraço. Saudades.
Ricardo
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