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O SOFÁ QUE HEBE CAMARGO NÃO TEM

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Ando considerando, de uns tempos para cá, a hipótese de cancelar minha assinatura de TV a cabo. Da primeira vez que me senti compelido a fazê-lo, o motivo foi a indignação pelo lançamento de novos canais de filmes e atrações extras. Em vez de oferecê-los como um bônus a quem como eu colabora desde o início do sistema com religiosas mensalidades, desde o tempo em que as opções disponíveis no pacote eram mínimas, vieram vendê-la à parte, como se quem comprou a empadinha não tivesse direito à azeitona. Recusei-me a aceitar o aumento quase compulsório e me contentei com apenas um canal de filmes, abrindo mão da ‘oferta’.
Ultimamente, porém, o motivo tem sido a relação idiota entre quantidade e qualidade. As empresas concessionárias parecem ter atrelado à sua ‘grade’ de programação, uma série de canais e atrações para encher linguiça, fazer dinheiro rápido e impressionar os assinantes pelo volume. Assim, há dezenas de canais e centenas de horas de programação absolutamente desprezíveis.
‘Mude o canal’, dirá o democrata cristão. Ocorre que são tantos os canais que leva-se metade do dia apenas zapeando de um lado para o outro. ‘Elimine os canais que você não quer reprogramando sua TV’, dirá o nerd exibido. Primeiro, decifrar os sistemas para fazê-lo não está ao alcance da maioria dos mortais. Segundo, excetuando-se os fanáticos devoradores de revistas especializadas, difícil é saber e acompanhar todas as mudanças que ocorrem com frequência na grade. Assim, ao dispensar o canal árabe, depois de algum tempo, você pode ficar sem o canal de documentários. Mandando embora o Shoptime e seus incontáveis aparelhos de ginástica, depois de um mês, inadvertidamente, você pode ter perdido o canal de notícias 24 horas e só se dará conta dali a um tempão.
Não dá para negar, é verdade, que alguns investimentos sérios tem sido feitos no sentido de engrossar o caldo oferecido ao contribuinte que paga as mensalidades em torno dos 60 reais. O Canal Futura, que completa um ano, O GloboNews com noticiário produzido no Brasil no ar 24 horas (ou perto disso), o People in arts (acho que é esse o nome) que exibe biografias e documentários que valem a assinatura, os canais de esportes locais (SPORTV E ESPN BRASIL, o primeiro investindo pesado em esportes não convencionais e permitindo que se desenvolvam como nunca no país e o segundo jogando suas forças no futebol com tacadas audaciosas). São certamente essas atrações que fazem os fiéis pagantes entregarem seus dízimos mensais e lhes dão força para passar batido por Estilo Ramy, Shoptour, Las Estrellas, Monique Evans vendendo pênis de borracha cheios de veias, Canais venezuelanos, árabes e mexicanos de quinta etc…

O SOFÁ MÁGICO

Das últimas vezes em que me senti inclinado a cortar o serviço, porém, não foi nenhuma das opções acima que manteve meu dedo longe do telefone. O que pesou na decisão de manter os pagamentos de 60 reais foi um programa do qual desconheço nome e horário, é produzido claramente com verbas irrisórias, em sofás que parecem ter saído de folhetos das Lojas Marabrás (mais barato ninguém faz) e iluminado de forma impiedosa para com os convidados.
Trata-se de atração do Canal Universitário, aliás uma grata surpresa em alguns momentos. O programa é ancorado pelo doutor Dráuzio Varella, respeitadíssimo oncologista de São Paulo, uma das mais altas patentes no estudo de doenças infecto-contagiosas no mundo, professor universitário, muito pouca gente sabe, competente maratonista e possivelmente nem ele sabe, competentíssimo comunicador.
Seu programa ocupa parte do horário reservado à UNIP, universidade ligada ao grupo objetivo que parece aos poucos livrar-se da pécha de ‘pagou-passou’, investindo na matéria-prima mais preciosa que uma instituição de ensino pode ter em seus estoques: professores.
Varella recebe em seu sofá, que de tão simples acaba muito mais chique que os de Hebe, Xuxa, Jô e Ana Maria Braga.
É que estes, além de sempre terem cara de Henri Matarazzo, se prestam a suportar tipos que fariam o mais legítimo Chesterfield corar de vergonha.
Pois bem, pelo conjuntinho de dois e três lugares do Dr. Varella passam figuras desconhecidas do grande público, mas que costumam arrasar em congressos, simpósios e salas de aula. O tema não é a copa do mundo, a crise na Ásia nem o quarto de Sasha.
O programa fala do bem mais precioso que temos, mais ainda que a TV de 29 polegadas conectada a cabos de fibra ótica: a saúde.
Recebendo a cada edição um especialista em determinada parte da ciência médica, Dráuzio se encarrega de manter a conversa palatável à massa leiga, sem deixar que descambe em dicas para tirar olheiras com rodelas de pepino. Nesse programa, a carga de informação é preciosa e o nível de absorção possível é elevadíssimo. Resumindo: aprende-se e muito sobre o funcionamento de nossa carcaça e de que forma a medicina pode nos manter aptos a ver TV a cabo por mais e mais anos nessa dimensão. Apenas para mencionar um entre as dezenas de convidados brilhantes que passaram pelo programa, recentemente esteve por lá o cardiologista Carlos Alberto Pastore, do INCOR, que em cerca de meia hora de papo calmo e agradável disse coisas que o melhor documentário precisaria de milhares de dólares para transmitir.
Mais uma grande vantagem de canais como o Universitário: como não há preocupação com receitas publicitárias, dispõe-se de outra mercadoria preciosa e rara em televisão: tempo. Os convidados podem refletir e falar pausadamente. O entrevistador pode se por na pele do espectador e pedir ao interlocutor que repita algo que não ficou tão claro ou que mereça uma repassada. Uma verdadeira aula de televisão provando que não é necessário dinheiro em profusão para realizar boas produções.
Semana passada, no Programa Pé na Cozinha, da MTV, o jornalista Zuenir Ventura, que aliás lembra fisicamente e na competência o Dr. Dráuzio (ambos muito parecidos com o patrão de Hommer Simpsom no desenho animado) lançou uma reflexão fundamental. Em todos os países há programas como Ratinho, Leão Livre, Márcia etc… A diferença é que em países mais adiantados, a massa de cultura de boa qualidade passada ao cidadão por escolas, universidades, bibliotecas, livros e até mesmo por bons canais de TV cria no telespectador um escudo de discernimento que lhe faculta julgar o que está vendo e desprezar o que não presta. Sobre o Brasil, cabe-nos tristemente endossar o pensamento de um físico norte-americano em entrevista recente ao canal Globonews (mais um bom motivo para não cancelar a assinatura): na desesperada batalha do entretenimento, a mídia falha na missão de educar sobre as questões realmente importantes.

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