O momento que passa
Não podemos ser heróis. Quando muito conseguimos estar humanos, e esse já é mérito considerável
Rios de água desaguavam das calhas enferrujadas. O céu se derretia em cortinas sobrepostas de garoa fina, dessas que molham até os ossos. Forças indistintas atuavam formas e ali, na cobertura da lojinha, algumas mulheres estavam reunidas. Fiquei curioso. Às vezes tudo parece maior que o suportável e que nada disso está acontecendo de verdade. Nem novembro. A chuva fina, ao refletir meu olhar, dizia coisas que eu precisava saber.
Não podemos ser heróis. Quando muito conseguimos estar humanos, e esse já é mérito considerável. Ao fim e ao cabo percebi que acabamos por nos aceitar e perdoar. Não é maturidade. É desistência mesmo. Ser melhor é impossível. Estar melhor, às vezes, é tudo o que conseguimos. Não nos dar por satisfeitos com isso faz parte da condição humana. Mais. Queremos sempre mais: é o pulsar da liberdade de que somos dotados (amaldiçoados, dizem alguns). Seguir, ir adiante sempre. A vida não é nossa doença favorita. O passado não é o avesso do belo. Tudo arfa, confessa e se restaura, embora o tempo pareça narcotizado.
Criei coragem, abri o portão de casa e corri até a cobertura da loja. Dali seria fácil chegar até a padaria, sem me molhar muito. Precisava comprar pães. Devo confessar que mais me demorei ali porque queria saber o que estava acontecendo. Quando as comadres se reuniam, quase sempre era algo grave. São elas que, assim sutilmente, ditam a moral da “quebrada”. Entre elas, uma jovem com o rosto abatido. Parecia cansada, adoecida. Ao centro um bebê cheio de cores passava de mão em mão. O bebê sorria. Irradiava alegria. As mulheres brincavam, imitavam bebê, faziam caretas (ridículas, por sinal), apertavam, balançavam, faziam tudo para se comunicar com ele. E ele ria, pleno e satisfeito como só eles sabem estar.
Deu saudades. Saudades do tempo de bebê dos meus dois meninos. Eu babava de orgulho deles. A jovem mãe acabava de ter alta hospitalar. Surgiram complicações pós-parto. Era neta de Maria, filha de Santoro com Bibiana. Não conhecia quase ninguém por nome ali. Quando insistiram em explicar dizendo que ela era casado com Djalma, respondi: “Ah! Sim, sei quem é”. E pronto, estava relacionado.
Comprimido com elas debaixo da lona da loja não teve jeito de permanecer ignorado. A garoa apertou e já não dava mais para sair correndo sem me molhar e, pior, molhar os pães. Parece que a chuva tem o dom de unir pessoas. Pelo menos para se protegerem dela. Quando dei por mim, o bebê estava me sendo oferecido. E percebi que estava ali exatamente para isso, embora não compreendesse bem. Elas conheceram minha mãe, por extensão, conheciam a mim e à minha vida também. Era o povo ali da rua, e me permitiam participar da confraria maternal. Uma honra sem tamanho. Peguei o bichinho com o máximo de delicadeza que sou capaz. Todas me olhavam. Percebi que queriam saber o que eu faria.
Mergulhei naquela leitura, sem me preocupar com elas. Senti aquele serzinho vivo e vibrante, todo macio e delicado, com o coração nas mãos. Trouxe ao peito, apertei suavemente com vontade de sumir com ele em mim. Ele sorria balbuciante, querendo dizer. Era tão quentinho, tão tenro, tão lindo que só então percebi: não há nada mais belo que um bebê. Todo filhote, acho que até o de cobra, é gracioso e agradável de lidar. Mas o filhote do animal humano tem qualquer coisa de maravilhoso, de luminoso. Vestido de rosa aqueles olhinhos escuros perguntavam de onde vim, o que era. Respondi com um beijo em cada bochecha e devolvi àquela moça abatida que parecia ser a mãe. Ele a reconheceu e soltou um gritinho, abrindo os braços para ser pego, já se jogando.
Voltei da padaria e o grupo já havia se desfeito. A garoa tinha virado chuva e me molhei todo. Tive que colocar o pão junto ao fogão, para secar. Enquando me enxugava, ainda imerso naquela doçura que emanava do bebê, fiquei pensando. O momento que passa é tão poderoso e inquietante como um animal feito de patas. Estar com aquele bebê foi como deviam ser todos os instantes da vida. Ardido como brasa e trepidante como trem. Como se algo fosse desabar, inundar ou devastar. O momento que passa é como a luz que se acende de repente, nos cegando de claridade. Pena não sermos capazes de acolhê-lo inteiramente.
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