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O ECSTASY NA AVENIDA

Na nossa desesperada busca por rótulos explicativos que legitimem nossa tendência ao preconceito, vemos jornais e revistas correndo atrás de um que se encaixe neste carnaval do ano 2000

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Na nossa desesperada busca por rótulos explicativos que legitimem nossa tendência ao preconceito, vemos jornais e revistas correndo atrás de um que se encaixe neste carnaval do ano 2000.

Há uma certa tendência a batizar este como o ‘Carnaval dos Seios’. Seja pelo destaque dado pela mídia à modelo Joana Prado, alter ego da personagem Feiticeira, seja pela explosão das próteses de silicone, jornalistas buscam doentiamente uma justificativa que valide suas ‘meias teses antropológicas’.

A busca frenética faz lembrar uma das melhores definições que já vi sobre a profissão que escolhi: ‘jornalistas são pessoas que passam a vida tentando explicar aquilo que eles mesmos nunca entenderam.’

Sashimi

Num outro bloco, menos sensual e alegre, há quem queira nomear este como o ‘Carnaval da Chacina’, motivados pelas estatísticas publicadas no JT de domingo passado ou pela transcrição da receita passada por telefone pelo traficante Beira Mar: o sashimi de orelha.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, dou minha modesta contribuição ao bloco do ‘Unidos do rótulo a qualquer preço’ : Chamemos este de ‘O Carnaval do Ecstasy’.

Foi o que concluí em rápida passagem pelo Rio de Janeiro semana passada, quando presenciei preparativos para as festas e desfiles.

O ecstasy prometia tirar o lugar que em outros tempos foi do lança-perfume, uma espécie de droga supostamente ‘leve’ e socialmente aceita.

Não é preciso ser antropólogo para perceber que à medida em que a mídia se apropria da festa popular – que um dia não passou de ingênua celebração à alegria de viver- transformando-a em plataforma de lançamento e elevação de cachês para talentos medianos e de segunda, passou a atrair as classes média e alta. Estas, foram aos poucos tomando conta e expulsando os nativos, da mesma forma como fizeram nas praias mais bonitas ou nos bairros mais atraentes das grandes cidades brasileiras.

Cocaína, álcool e ecstasy

E nessa invasão não tão silenciosa, carregam à reboque seus instrumentos de sobrevivência. Além da cocaína e do álcool, este último patrocinador oficial da festa, a burguesada improdutiva promete introduzir este ano o ecstasy como a mais nova ferramenta para driblar a consciência e a dura e fria realidade de olhar em volta e ver que suas vidas e o próprio carnaval são grandes sintomas de que o país continua uma terra de bobos alegres espoliados e servis , que vão vendo suas dignidades, suas casas, suas existências e até suas festas sendo arrancadas de suas mãos, seguindo resignados no último bloco do desfile, vestindo máscaras de tontos, dançando a triste e descompassada marchinha que diz: ‘não faz mal, um dia, se Deus quiser, a vida vai melhorar’.

Que a descoberta dessa sacanagem toda não se transforme num carnaval qualquer, numa chacina gigantesca com a Turma de Beira Mar , VP e outros desgraçados resolvendo tomar de volta o que nunca tiveram, matando a facadas os foliões numa derradeira festa pagã.

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