“Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas” Mario Quintana.
Percebo que as pessoas pressupõem que, se eu encontrei uma saída, os demais também podem encontrar. E, absolutamente, não é assim. Não sou melhor e muito menos pior que ninguém. Afirmam que tenho talento para escrever, que sou culto e inteligente. Não vou reconhecer isso que nem ficaria bem. Tenho sim alguns livros escritos (um até publicado no exterior) e algumas colunas em revista e sites. Preparo-me, inclusive, para lançar um novo livro.
Mas e os que não conseguem? Bernard Shaw dizia que escrever é fácil ou é impossível. Porque seriam diferentes de mim? Seriam eles piores que eu? Jamais acreditei nisso. Fui bem pior que a maioria dos companheiros que ainda estão presos. Claro, paguei mais caro também. Francisco de Assis dizia que no interior de um santo há sempre um bandido vencido, no interior de um bandido existe um santo aprisionado. A experiência me mostra a justeza dessa assertiva. Mas e aqueles que saem da prisão sem uma profissão, totalmente alienados, inadequados e desarmados para enfrentar o preconceito social e a falta de emprego?
Somam-se mais de 2 milhões de pessoas desempregadas somente no Estado de São Paulo. A quem escolherá o empresário, tendo à mão esse imenso exército de reserva? O que lhes sobra, então? E aqueles que não conseguiram e não conseguirão encontrar apoios, incentivos e estímulos para tornar imperiosa suas vontades, como faço da minha? Che Guevara dizia que afiava sua vontade qual fosse a espada da qual dependeria sua existência. Conquistei muitos amigos nesses quase dois anos aqui fora. Sinto, as pessoas gostam de mim e me aprovam. Mas sou como qualquer uma dessas quase 150 mil pessoas que estão atrás das grades. Sou como qualquer pessoa presa ou livre. Apenas um ser humano. Preso ao instante e que vai morrer, hoje ou amanhã, como todos. Uso o banheiro como todo mundo. Ensaio, erro, acerto (às vezes), ando pelas ruas e, como dizia Cazuza: “troco cheques”.
O destino devia ser coletivo. Os incentivos, a força de vontade, a capacidade de concentração, o amor aos livros, o carinho e respeito pelas mulheres, o sonho de honra e nobreza de atitudes, tesão pela generosidade, o desejo de criar filhos com dignidade e mais algumas coisa que me orientaram e orientam, deveriam existir para todos. Estamos entrelaçados pela mesma condição humana. Sofremos e choramos; somos felizes e alegres do mesmo jeito. O que sangra em mim sangra em você que me lê. Às vezes essas contradições me levam a pensar que até pode ter sido um mal para o coletivo eu ter quebrado barreiras. Não sou modelo de nada. Todos os modelos são falsos, não há certezas.
Os livros, se não me mudaram, pelo menos me fizeram enxergar, crescer e me trouxeram perspectivas. Quem sabe um dia os livros chegarão a todos e então possamos criar novas perspectivas para o mundo?
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