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Nossos coreanos são mais japoneses

Até os organizadores da Copa do Mundo confundem Coréia com Japão

em 21 de setembro de 2005

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Não há no mundo povo mais injustiçado do que o coreano: é constantemente
confundido com o japonês. E se há algo capaz de humilhar uma nação é quando
lhe negam uma identidade própria.

Como se não bastasse o constrangimento diário a que é submetido, até mesmo a
organização desta Copa do Mundo resolveu sediar os jogos na Coréia e no
Japão ao mesmo tempo. Agora é que ninguém entende mais nada.

Não sei por que, certa manhã acordei com este dever cívico: mostrar que os
coreanos são, enfim, coreanos. Note: sou paulistano e não tenho um só calo
ou pereba de ascendência oriental. Só que alguém precisava fazer o serviço.
Mas como?

Coréia do centro

Onde encontrar coreanos legítimos em São Paulo? Nesta cidade todos somos
paraguaios, italianos, nordestinos, armênios. Aqui, se dois alemães puro
sangue
resolvem ter um filho, pode ter certeza: nascerá um pernambucano.

Consultei meus dois guias (o espiritual e o São Paulo) e veio a revelação:
por que não procurar na cidade de Kwangju? Todos sabem onde fica: no andar
térreo da Galeria do Rock, R. 24 de Maio, Centro Velho.

É um ponto totalmente dominado por coreanos. Eles vendem roupas em
minúsculas e escuras lojas enfileiradas. Disputam espaço com os camelôs, que
ocupam cada milímetro quadrado da 24 de Maio. Não sobra espaço nem para
bactérias e protozoários.

Mafiosos

Logo que cheguei fui me enturmando com os camelôs. Com convicção de
marqueteiros políticos, todos me garantiram: os coreanos são mafiosos – as
lojas servem de fachada para o tráfico de drogas. Também me descreveram
estranhos rituais de magia negra envolvendo cachorros e ketchup.

Claro que não acreditei e fui conferir de perto (tenho astigmatismo). Me
aproximei de uma loja. Da porta, um coreano (ou seria japonês?) me olhava,
com um ar ameaçador de capanga da Yakuza. Tentei não demonstrar medo. Mas
pelo menos mais quatro sujeitos me encaravam com a mesma expressão.

Sou do hip hop

Entrei. E rapidamente percebi toda a verdade: os coreanos, afinal, não são
coreanos. São core-manos. Vendem roupas para os manos do hip hop, que
se reúnem na Galeria. Eu ouvia frases estranhas e incompreensíveis como:

– Hiatsichigorô, kamakiaguy, sanchi, tá ligado?

Por sorte, sou fluente em periferês:

– Certo, sangue? Colei na fita pra descolar umas calças cargo. Tem ou tá
embaçado?
– SHHIIATOO-kayakochinga, morô?

Não, não morei. Aquele dialeto era incompatível com meu periferês britânico.

– Valeu aí, mas é que eu quero calça cargo e você tá mostrando só calças
BIG. E eu não uso esse barato, cerrrrto?
– Kawananga katana, mó fresco, shaianana, véio, kyuuukiki.

Não tive tempo de responder. Sem qualquer explicação, a atendente surtou e
começou a espalhar praticamente todas as calças da loja no balcão. Nem
sequer me olhava: mantinha a cabeça baixa e falava numa velocidade
impressionante.

Eu tentava impedi-la, mas não adiantava, as peças continuavam a jorrar das
prateleiras. Até que, numa posição típica de desenho japonês, ela parou no
ar e gritou em português:

– Não tem dinheiro! Sai! Você não tem dinheiro! Vai embora!

A atendente babava, gesticulava e ficava cada vez mais histérica. Com os
gritos, outros coreanos entraram na loja e me cercaram. Eu já me imaginava
servido numa bandeja ao molho puddle. Resolvi não arriscar e saí
rapidamente.

Persona non grata

Tentei entrar em outras lojas, mas era barrado logo na entrada. Antes mesmo
que eu fizesse qualquer pergunta, os lojistas respondiam com evasivas. Pelo
jeito, me incluíram numa espécie de lista negra.

Argumentei que tenho amigos coreanos, sou simpatizante da causa e não queria
fortalecer preconceitos raciais. Mas fui sistematicamente enxotado como um
mendigo de filme americano.

Saí da Galeria. Logo fui abordado pelos camelôs, que me impediam de andar,
me seguravam os braços, tentavam me fazer experimentar calças e camisetas.
Tudo com eloqüência e carência impressionantes. De odiado, passei a ser
amado como uma Meg Ryan.

Mas logo bateu a frustração: eu não tinha achado um coreano legítimo. Teria
de viajar para a Coréia do Sul? Mas esta não fica na rua 25 de Março?

Cyber-coreanos

Lembrei-me de que ainda poderia visitar Seul, que fica ali no Stand Center
(Av. Paulista). É o reduto de um tipo diferente de coreanos: os que vendem
CDs genéricos de jogos e de softwares. Os cyber-coreanos.

Corri, mas cheguei tarde demais. A polícia tinha acabado de fazer a limpa no
local. O Stand Center estava abandonado: lojas fechadas, vendedores
conferindo prejuízos e pilhas de CDs jogados em enormes sacos de lixo.

Ouviam-se algumas poucas vozes e diferentes dialetos. As paredes estavam
forradas de fios de videogames e cases de Playstation. Caminhei pelo cenário
de Blade Runner até que algo me chamou a atenção: um casal de vinte e poucos
anos transava atrás de um estande (entre bonecos do Dragon Ball Z e das
Meninas Superpoderosas).

Fatality-show

A garota se contorcia, bolinada por um japonês (ou seria coreano?). Ao
fundo, um velho cartaz do jogo Street Fighter. Ela teria orgasmos abençoados
por Zangief. E segurava a camiseta do rapaz, na qual se lia: made in
Taiwan
. Era o amor nos tempos do silício e nem precisei pagar para
assistir.

Diante daquela terna cena, percebi que toda a preocupação com a identidade
dos coreanos tinha perdido completamente o sentido. O casal não queria mais
do que um pouco de magia. Para isso, estava lá, aprendendo a apertar os
botões certos. E, de resto: PERFECT – YOU WIN.

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