NADA A DECLARAR
Falar sobre os avanços da tecnologia e sua influência na vida moderna do cidadão de bem é mais chato que dar topada com o dedão na calçada num domingo
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Falar sobre os avanços da tecnologia e sua influência na vida moderna do cidadão de bem é mais chato que dar topada com o dedão na calçada num domingo.
Qualquer pessoa minimamente informada já’ está cansada de saber tudo sobre o assunto, seja devorando o número mais recente da Wired, seja assistindo ao mais popular dos telejornais e se deparando com as maravilhas descobertas recentemente na medicina, proporcionadas por filhas legítimas da modernidade como, por exemplo, a engenharia genética.
Não há duvida, porém, que as surpresas mais saborosas se dão justamente nas situações mais prosaicas do dia-a-dia. Escrever meus artigos para o JT, por exemplo, é algo que faço de forma tão prazerosa quanto natural. Procuro atravessar a semana armazenando numa espécie de gaveta imaginária as idéias, fatos e situações que vão cruzando o meu caminho e que, imagino, possam ser interessantes para quem arruma um tempo durante a correria de São Paulo e abre seu jornal na terça de manhã. Seja a mais despretensiosa crônica ou a mais séria denúncia, é em geral nas manhãs de segunda que me ponho a escolher na tal gaveta da minha cabeça o que vai permanecer por lá e o que estará nas mãos do leitor no dia seguinte. Este é, na verdade, o processo mais demorado, já que, depois de tanto tempo escrevendo semanalmente, o ato de transformar as idéias recém-nascidas em texto é algo quase automático.
Só há dois problemas nessa deliciosa rotina. O primeiro e mais grave se dá nos dias em que a mencionada gaveta está completamente vazia. Felizmente estas segundas-feiras fatídicas em que nada tenho a dizer para o mundo são cada vez menos freqüentes.
O segundo problema ocorre quando estou viajando, o que por força da profissão e do tipo de vida que escolhi acontece com deliciosa freqüência . É que freqüentemente vou parar em locais em que o computador ou o fax mais próximos estão a milhas de distância e muitas vezes nem um simples telefone está disponível.
E’ importante dizer aqui, numa espécie de mea culpa, que por uma questão híbrida entre preguiça e desinteresse, não costumo carregar laptops na bagagem, o que aliás seria de pouca serventia em lugares em que nem uma linha telefônica se consegue.
Pois bem, isto posto, quero dizer que esta coluna só está nas suas mãos graças a terminais de computadores disponíveis nos aeroportos norte-americanos, com acesso gratuito à internet. Basta sentar-se confortavelmente diante de um computador moderníssimo, registrar uma senha e navegar livremente. É verdade que, a cada 15 minutos, a tela é invadida por um anúncio do banco Chase, mas o serviço é tão útil que achei que o patrocinador merecia ser mencionado. De mais a mais, basta clicar no logotipo do banco para ganhar mais 15 minutos de surf gratuito. Graças a tal tecnologia, não tenho mais que implorar para usar faxes ou computadores de companhias aéreas, ou ditar pausadamente ladainhas intermináveis em caríssimos telefonemas.
Na contra mão, porém, é mais uma vez graças à tecnologia ,ou melhor, à sua precariedade, que me vejo sentado neste aeroporto digitando letras e mais letras. É que o vôo no qual eu deveria estar neste momento não pôde decolar graças ao mais besta dos motivos, diante de tanta tecnologia: a neve que caiu suave durante toda a noite e que nenhum radar, satélite ou computador conseguiu impedir ou sequer prever.
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