Mundo perro
O diretor mexicano Alejandro González Iñárritu e o ator Gael Garcia Bernal filmam Babel, uma crua e cruel ode à tolerância e à diversidade deste mundo estilhaçado
Por Redação
em 1 de fevereiro de 2007
por Matt Bochenski, de Londres foto Sam Christmas
Há seis anos, o filme Amores Brutos invadiu cinemas do mundo como um pistoleiro de Guadalajara. Na película, a visão de Alejandro González Iñárritu de uma Cidade do México afogada nas dores do mundo moderno. Revelava-se um país sem os clichês americanos de hombre e putas da fronteira. No lugar, uma inquieta e abarrotada metrópole. Na época, acompanhando o sucesso de Guillermo del Toro e Walter Salles, Iñárritu e seu “muso”, o então ex-astro de TV de 22 anos Gael Garcia Bernal, abriram ainda mais portas para cineastas da América Latina e foram personagens decisivos na mudança da percepção do continente – ao menos para as platéias primeiro-mundistas. E consolidaram uma nova fase do cinema latino-americano perante o mercado internacional.
Muitos festivais e prêmios depois, a dupla Iñárritu/Bernal está de volta. E desta vez com uma rara carta branca em Hollywood. Não convidaram os produtores de Los Angeles para dar palpites, fizeram um filme falado em quatro línguas e metem o dedo em feridas abertas dos EUA – tudo isso com dinheiro alto dos grandes estúdios e astros como Brad Pitt e Cate Blanchet. O roteiro divide-se em quatro países e três histórias separadas. Mas um só problema: a incapacidade de as pessoas se entenderem, em todos os sentidos. O resultado foi Babel. O melhor filme de suas carreiras. Pelo menos é o que o próprio Iñárritu pensa. Na entrevista a seguir, o diretor e Gael Garcia Bernal falam juntos sobre o filme que estreou em janeiro no Brasil, sobre o eco político nos EUA, as tentações de Hollywood e, principalmente, sobre como a diversidade e a tolerância são as únicas chaves para este mundo perro em que vivemos.
Trip Algumas críticas são feitas a Babel, principalmente nos EUA. Que o filme é brutal demais, fatalista. Como vêem isso? Iñárritu Quando você faz um filme tem gente que gosta, que odeia e que não está nem aí. Eu não acho que Babel está tentando explicar nada, ou fazer alguma pregação. Vai além. Estou falando da condição humana em diferentes culturas, religiões e países, e que o que acontece entre as nações é exatamente o que acontece entre os indivíduos. Ninguém está certo ou errado, é bom ou mau; estamos apenas presos neste mundo de merda onde ninguém é capaz de escutar. Esse microcosmo do filme é um reflexo do que acontece ao nosso redor? Sim. Isso é desconfortável para os EUA? Sim. Eles podem presumir que é um ataque aos valores ocidentais ou aos EUA? Sim. É essa a intenção do filme? Não.
Bernal Há sempre outro lado. Pessoas podem achar que o filme mostra que o mundo todo é perigoso exceto os EUA. Tudo depende de contexto, de onde você vive e de onde tira suas informações na mídia. E há um lado positivo nisso, na própria história bíblica da torre de Babel. As pessoas estavam construindo algo coletivamente para chegar perto de Deus, e Ele os puniu mudando suas línguas para que mais ninguém se entendesse. Mas essa diversidade fez com que as pessoas começassem a se interessar pelo outro. Pois há uma alegria em interpretar o que o outro está dizendo e sentindo. Então não é uma punição total; na verdade é um estímulo ao entendimento. Você pode ver isso no filme.
É preciso ser de outro país para entender que o problema não foi o 11 de Setembro, e sim a resposta ao atentado e que na verdade os que reagiram ao terrorismo também são responsáveis pelos ataques a Nova York?
Iñárritu Reagir como fez George W. Bush, e achar que qualquer debate em torno disso é um ataque também, é o que eu chamo de culpa: uma reação desmedida. Agora, há modos melhores para ir contra os EUA do que gastar três anos de vida fazendo um filme. Eu não desperdiçaria o poder do cinema com isso. O filme não é sobre os EUA. Mas há um ponto importante em Babel que é a diferença de valor de uma vida americana e de uma vida africana. Quando um americano é morto é uma grande notícia, mas quando 200 pessoas são mortas “acidentalmente” em um casamento no Iraque é uma história bem menor. Ninguém dá bola para os massacres na África, mas se uma bomba explode na Inglaterra é diferente.
Bernal E tem uma questão semiótica nisso tudo. Depois do 11 de Setembro, qualquer assunto pode ser combinado com a agenda da segurança contraterrorista. Por isso, no filme, eles acham que se uma bala atingiu alguém dos EUA imediatamente é um ato terrorista. É um pensamento automático. O mesmo pensamento que está construindo esse muro na fronteira com o México. Tudo é combinado com a questão da segurança – de se protejer do outro – e isso é um problema semiótico. Porque, ao mesmo tempo que afeta os outros, para os americanos essa questão não diz respeito a mais ninguém.
Hoje os EUA e a Inglaterra têm uma geração considerada apática politicamente, enquanto há uma radicalização na América Latina. Vocês se sentem mais politizados?
Bernal Nascer em um país pobre te deixa mais consciente de que qualquer coisa que você faça tem uma complexidade política embutida. Isso porque a política tem um efeito no dia-a-dia de sua vida. Em países pobres isso é mais palpável. E digo no sentido puro da política, o humano, não o estrutural. Amores Brutos e Babel são políticos sem querer, entende? Porque trata das relações entre mãe e filho, de estrangeiros convivendo, línguas diferentes. É parte de fazer um projeto ambicioso como esse – em diferentes países – criar um argumento político.
Iñárritu Quero dizer uma coisa. Metade dos americanos é contra o Bush, certo? Por que essas pessoas não se manifestam mais agressivamente nas ruas? A diferença é que, quando a economia e as decisões do governo te afetam em casa, no bolso e na escola dos seus filhos, aí você vai para a rua. A questão é que os EUA são muito ricos. Olha só, no Halloween em Los Angeles eu vi casas com decorações de 20 mil dólares. É um país em guerra! Não é? Mas se ninguém é diretamente afetado não importa. Quando eu era moleque eu via meu pai deprimido o tempo todo porque não conseguia recuperar seu dinheiro. A gente era bem pobre porque todo dia “o dólar isso e aquilo…”. Então desde cedo eu sabia que as coisas que aquele idiota do governo fazia estava deixando meu pai triste e pobre. Por isso tenho consciência política.
Considerando o sucesso que vocês tiveram, juntos e separados, é fácil manter essa postura independente ou há uma pressão para entrar na folha de pagamento de Hollywood?
Bernal Como estamos fazendo as coisas que queremos, acho que dá para continuar assim. E dá para continuar fazendo as histórias que achamos interessantes em qualquer contexto. Mas a experiência de Hollywood traz um outro peso ao diretor e ao ator. Se você entra em um grande projeto de Hollywood não é apenas filmar, mas promover e carregar outros fardos. Babel, por exemplo, é o filme mais anti-Hollywood, porque é feito em várias línguas, mas foi feito em um sistema de grande estúdio. Isso é que é bom em achar esses “vãos” na indústria.
Iñárritu Eu vendi os direitos de distribuição do filme, mas ele não foi desenvolvido em um estúdio – foi feito de modo independente. Isso é o ideal, trabalhar com o que é bom dos estúdios. Trabalhar com eles, mas não para eles. E isso é algo que é fantástico no Gael, ser reconhecido internacionalmente sem ter feito um filme em Hollywood. Foi uma quebra de paradigma mesmo.
agradecimento a Vince Medeiros / huckmagazine.com
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